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Fator RH
Tom Correia
Você já deixou de sair com várias garotas que estavam a fim
porque não tinha um puto no bolso, para a cerveja e o motel,
para a pipoca ou o cinema, para o carnaval ou ovo de páscoa.
Você já passou dos trinta e cinco e já abandonou todos os seus
ideais, sonhos, planos, projetos de vida e está cansado de
passar vexame sentindo o coração do tamanho de uma pulga quando
ouve o barulho do carro da companhia de energia parar na sua
porta. Você cansou de ser diferente, de pensar diferente, de
ouvir músicas diferentes e agora precisa muito ser igual a todo
mundo. Você está exausto de se sentir um inútil ao ouvir aquela
musiquinha do vídeo-show sabendo que a essa hora todo mundo
devia estar se virando, se esfalfando, se esganando. Você está
cansado, muito cansado mesmo de malbaratar todos os seus
aparelhos eletrônicos comprados com sacrifício para pagar as
contas do telefone bloqueado e precisa logo de qualquer coisa
que possa ser chamada de emprego, de esposa, de família, de
casa. Você hoje quer apenas laje batida, aniversário de criança
feia, sogra mal-humorada até a medula como dizia seu pai, e quer
se livrar de qualquer questionamento existencial no final do dia
e nas noites de natal. E mesmo cansado de esquadrinhar os
classificados de domingo, de participar de dinâmicas de grupo
sem nexo, de seguir regrinhas manjadas para fazer o currículo
perfeito, de ouvir dos ditos especialistas em rh como se
comportar numa entrevista, você não desiste, quer voltar a fazer
parte do jogo. Aí então você coloca seu résumé debaixo do braço
e enfrenta estoicamente a cara amarrada das secretárias das
agências de emprego, e a má-vontade explícita das recepcionistas
que olham ¬– quando olham – o papel onde está sua vida
profissional resumida, reduzida, distorcida. E quando chega o
Grande Dia, o dia em que tudo vai começar a mudar, o dia em que
deus afinal vai querer, o dia em que você vai voltar a ter que
pegar dois, três ônibus de rali, imundos, empoeirados, e vai
voltar a ter holerite, vale-transporte, cartão de ponto,
ticket-refeição, taquicardia. O Grande Dia tão esperado
realmente chegou e você faz tudo certinho: acorda bem cedo, faz
a barba, coloca uma das últimas (únicas) roupas decentes, coloca
aquela cueca que sempre te dá sorte, ensaia pelo caminho as
respostas que o dito especialista ensinou, e você vai torcendo
para não encontrar ninguém conhecido pelo caminho que te dê azar
– uma ex-namorada seria o fim -, e você sabe que é uma besteira
mas o seu time está mal na tabela e isso te influencia te
deixando meio para baixo, com uma cara tristonha de pneu
esvaziando, mas você não se deixa abater. E mesmo sabendo o que
significa ter a tal boa aparência dos anúncios, você chega
meia-hora antes da entrevista e na sala está todo mundo muito
desconfiado, todos se avaliando, tentando adivinhar quem tem
mais chance de conseguir a vaga, a única vaga, por causa da
roupa, por causa do ar inteligente, por causa das coxas grossas.
Eles te deixam esperando por uma, duas, oito horas numa angústia
igual a de um condenado à solitária e quando você já esqueceu as
respostas que teria de dar e da cara que tinha de fazer, eles te
chamam para entrar na sala e o gerente mal olha para você, te
faz um monte de perguntas que o especialista não previu e fica
atendendo o celular a todo instante e ainda sai da sala te
deixando mais solitário do que um filho único brincando de
pega-varetas. Você ali, firme, fingindo uma bondade servil, uma
naturalidade cômoda e pressentindo que há alguma coisa de
errado, que está sendo descartado de novo e você sabe que a
única coisa a fazer dali por diante é lembrar que a sola do seu
único sapato está em petição de miséria como também dizia seu
pai, e notar nos olhos do entrevistador que ele tem o poder
divino de decidir se sua vida vai mudar para menos ruim ou se
vai continuar na mesma derrocada. E você passa a rezar em
silêncio para não ver um polegar virado para baixo na sua frente
e nem ouvir novamente aquela que seria a senha sinistra de um
desastre anunciado. Mas não adianta. Você tem de ouvir resignado
a sua sentença:
“Temos seu currículo. Qualquer coisa a gente liga”.
Mas você sabe que eles não vão ligar pois o seu nome é figura
certa nas listas do SPC e SERASA e isso já faz tanto tempo que
você já nem lembra mais direito se está desempregado porque tem
o nome sujo ou se tem o nome sujo porque está desempregado. E
tudo então está perdido para sempre até o próximo domingo, dia
do caderno de empregos. Seu time joga fora de casa. Uma
pedreira.
FATOR RH (Parte 2)
Uma manhã inteira analisando e destruindo currículos às pilhas,
entrevistando gente às manadas e esse último pobre-diabo à minha
frente. Eu devia ter feito meu MBA com ênfase em outra área,
agora é tarde. Arla me disse outro dia que eu devia arranjar
outra coisa para fazer, que eu já estava ficando enfarado com
todo o poder que eu tinha sobre as pessoas, que o poder —
qualquer tipo de poder — vicia, e ainda não haviam ineventado
uma clínica de recuperação para poderosos solitário-paranóicos
ou coisa parecida. Quando Arla tem esses lampejos, sempre me faz
pensar um pouco. Que bom. Ter uma mulher que tem lampejos e que
te induz a algum tipo de filosofia. Ainda que sem querer. Ainda
que barata. Anos de convívio com Arla e não me acostumo com o
seu nome mutilado. Toda vez que o pronuncio penso que sou fanho.
Arla, Arla, Arla. Coisa esquisita. E ainda era para ter um agá
no início. Seu pai ficou impressionado com o que ouviu falar do
Halley de 1910. Harla feminino de Halley. É muita ignorância. O
desvalido continua aqui, visivelmente nervoso. Tosse, gagueja.
Parece que tem o céu da boca entupido com farinha láctea.
Atropela palavras, frases inteiras, a gramática. Tenho a nítida
impressão de que, a qualquer instante, ele vai me pedir
desculpas por ter nascido. Isso me impele a querer atropelá-lo
também a fim de abreviar esse constrangimento todo. Estou tenso
como ele, mas eu posso. Há um silêncio purulento que nos
incomoda, que nos equaliza. Avalio o seu currículo amassado, mal
digitado. Descontando a antipatia que ambos me despertam, é
razoável. Até que está barbeado. Veste, ao que parece, os
últimos vestígios de uma vida menos indigente, do tempo em que
arrotava poderes porque tinha um emprego. Mas o tempo virou e
agora ele está aqui, me atrapalhando o final da manhã,
empesteando a minha sala com a sua subserviência melancólica.
Sinto nele uma inveja encarniçada. Ele seca meu relógio, a marca
da minha camisa, o meu celular wap. Meu laptop e gravata o
oprimem. Tenho que agir rápido. Disparo: “Quais são os seus
objetivos na nossa organização?”. Ele recebe a pergunta como uma
profunda cotovelada no olho. Cambaleia. Parece zonzo, procura as
cordas. Respira fundo, seu raciocínio é lento. Um download
tosco. Olho no visor do celular. Quase onze e meia e nada de
Rossana. Liga, meu amor. Liga, benzinho. Liga, coisa linda.
Liga, merda, liga. Será que ela: a) não vai ligar depois de um
jantar daqueles? b) notou o meu leve tique na mão esquerda? c)é
isso tudo mesmo? d) vale tanto investimento? Acho que sim. No
início, elas sempre valem.
O manemolente responde algo inaproveitável. Não era o que eu
queria ouvir. Ele está se complicando. Lembro que ainda não fiz
as reservas dos ingressos que Arla me pediu. Não sinto sua falta
como antes. Não há mais aquela coisa que alegremente me
sufocava: uma intensa falta de Arla. Preciso resolver isso
também. Antes, tenho de varrer para fora esse equívoco
biológico. Acho que vou empurrá-lo para D. Celeste. Ela que se
vire. Nem sei para que o chamamos. A vaga já possuía dono. Ou
melhor, dona. Muito interessante, por sinal. Melhor nem olhar
muito. Malu é meio bruxa. Capta tudo antes mesmo das coisas
serem lançadas ao ar. Tanto currículo para analisar, tão pouco
tempo para pensar em Rossana-Arla-Malu (houve uma época em que a
ordem era Arla-Malu-Rossana) e mais esse agora. Não posso perder
a seqüência. Concentração: “Quanto você acha que merece
ganhar?”. É uma armadilha. Ele pressente o perigo e se
contradiz. Está mais zonzo. Titubeia. Há um coquetel repulsivo
nos seus olhos: medo, inveja, ressentimento e mentira
acondicionados em despojos de homem. Meu celular parece querer
vibrar. Eu querendo vibrar junto com ele para ouvir de novo
aquela voz, meu deus, aquela voz. Rossana, meu tesouro, vamos
sair hoje? Vamos ao cabeleireiro, vamos à Feira da Mulher, vamos
fazer supermercado, vamos à promoção das Americanas, vamos a um
abrigo de velhinhos, o que você quiser, minha vida. Rossana,
Rossana. Um nome desses me excita até quando lembro do enterro
de minha avó. Um enterro colorido, frugal, regado por uma chuva
depuradora. Um barro vivo de tons alegres revolvido por coveiros
graves, de fardas azuis, parecendo muito conscientes do seu
ofício metafísico. Mas o celular não vibra. Meu paciente
moribundo, ainda menos. Desanimado, dá outra resposta errada. À
essa altura, somente Eu posso lhe dar uma sobrevida. Se ao menos
ele fosse meu parente ou indicado por uma ex-amante, um colega
de faculdade, um vereador de parda eminência. Aí talvez Eu
pudesse ressuscitá-lo. Sua situação se agrava. Septicemia à
vista. No último tudo de antibiótico na sua veia, vislumbro uma
eutanásia: “Se você estivesse no meu lugar, você se
contrataria?”.
E então, numa comoção violenta, ouço o que mais queria. A mais
bonita de todas as ave-marias. O celular, afinal! Tocamos e
vibramos juntos, como pai e filho na hora de um gol sofrido, já
nos acréscimos. Nem peço licença. A quem? É ela, é ela.
Autocontrole, preciso muito de um agora. Atendo, mas fico em
silêncio. Um breve delay das reportagens ao vivo:
“Alô? alô?”
“Oi, pode falar. Que surpresa. Tudo bem com você?”
“Tudo, tudo. E aí, sua proposta ainda está de pé?”
Penso em dizer “não só a proposta”, mas respondo apenas:
“Está sim. Posso te ver ainda hoje?”
“Não sei, acho que sim. Me liga mais tarde. Você liga?”
“Claro, claro. Pode deixar. Ligo sim”
“Olha lá, hein? Um beijo”
“Até mais tarde, então”
Ai Rossana, Rossana! Olha só como você me deixa, olha! Roça
aqui, meu amor, roça! E o teatro com Arla? E a tal conversa
séria com Malu? Preciso realmente de mais tempo para me
organizar. Volto à minha cadeira, mas não estou mais aqui.
Estranho o calunga renitente, tolhido. Seu medo é repugnante,
mas estou tão feliz, feliz, feliz que tenho vontade de lhe
sorrir, de lhe chamar de amigo, de lhe contar sobre minha vida,
de lhe pedir para repetir Arla, Arla, Arla, de lhe falar sobre o
enterro de minha avó. Contenho o breve delírio a tempo. Rossana
me ligou e nada mais tem sentido. Com grande dificuldade domino
a minha euforia, a minha ereção. O celular toca-vibra novamente.
Não vibro. Não atendo. É Malu. Temos mesmo de conversar mas não
hoje. Estou quase sozinho, mas ainda ouço um “sim” dissonante,
contundindo o ar:
“Sim o quê, meu amigo?” eu, híspido.
“O que o senhor me perguntou antes de sair. Sim, eu me
contrataria.”
Agora é só encomendar a lápide. RIP. O homem é uma gangrena só,
nada mais a fazer. Depois da ligação de Rossana eu estava até
pensando em indicá-lo a uma outra empresa, talvez tivessem uma
vaga. Mas aquilo não foi resposta. Foi confirmação de óbito.
Utilizo o padrão para esses casos perdidos:
“Tudo bem. Temos o seu currículo. Qualquer coisa entramos em
contato. Boa sorte.”
O meu “boa sorte” soa tão falso que quase sinto vergonha. O
empecilho agradece e sai, boiando. Menos. Tranco a porta.
Assepsia.
Estou tão feliz, feliz. Rossana vai sair comigo. Arla me fez
pensar um pouco. Só Malu está meio chatinha, mas depois resolvo
isso. Sei muito bem o que ela quer: cazzo. Ainda tenho um ponte
de currículo-pedinte para dar fim. Uma praga. Parecem gremlins
se reproduzindo em pg, me infernizando a vida. É bom para fazer
de rascunho, aproveitar os envelopes. Eu devia ter feito meu MBA
com ênfase em outra área. Arla, Arla, Arla.
TOM CORREIA, 36, nasceu em Salvador, Bahia e foi um dos
vencedores do Prêmio Braskem de Literatura com o "Memorial dos
Medíocres". Funcionário da Fundação Casa de Jorge Amado, tem um
livro inédito, "Paralaxe", também de contos.
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