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Essa menina
Alessandro Castro
Puxa, como fede! Parece que papai morreu e esqueceu de ir pro
caixão. Alguém tem de fazer alguma coisa, limpar esse quarto,
limpá-lo, desinfetar a casa. Está certo que ele não merece, logo
ele, sempre quis um filho homem, agora depender de mim... Cheiro
horrível! Será que ninguém vai fazer alguma coisa? Será que só
eu sinto?
Mamãe, quando brava comigo, só para me martirizar, gostava de
encher a boca: “essa menina”. Meu pai sempre me chamou assim.
Ela sabia o quanto eu não gostava disso e regurgitava: “essa
menina”. Nunca ouvi “filha” escapar daquela boca que agora exala
com facilidade cruel esse fedor insuportável. Chamar-me de
querida, doce, filha ou simplesmente Ana, nem pensar. “Essa
menina” como se nem me conhecesse, não houvesse florescido dessa
semente agora podre.
Com o Robson perdi de vez as esperanças. Olhos, ouvidos,
quitutes e palavras, tudo voltado para ele, somente ele. Robson
saia flutuando de sua boca, misturado a seu hálito de menta.
Bronquite asmática, onde já se viu, morrer disso? A comoção foi
imensa, a família se rasgou chorando. Menos ele. Encarcerou a
dor, olhava para o branco e diminuto caixão de seu único filho,
único filho homem, seriam as palavras que reboavam em seus
pensamentos. O olhar seco refletia um firme céu de verão pejado
de nuvens. As palavras não saiam, represadas em algum lugar.
Parece que apodreceram lá dentro. Ele apodreceu, provavelmente,
por guardá-las junto ao afeto que me privou.
E mamãe se rasgando, vertia-se em lágrimas. Teria se jogado na
cova, comido a terra que cobria seu belo filho, não fosse eu
contê-la. A irmã mais velha, não, não se preocupe, ela se vira,
é forte. Sim, forte, deve cuidar de si e dos outros. Ela irá
limpar isso tudo.
Sei o que é pecado, afinal, fiz a primeira comunhão, ouvi o
padre na catequese, freqüentava aos domingos a empolgante e
produtiva missa. Roupa limpa, branca e engomada; sentava-me tesa
e compacta. Nesse momento atentavam para mim, conseguia arrancar
sorrisos deles, mas eram de retorno aos cumprimentos — belos
filhos, belos pimpolhos, etc. Além disso, minhas orelhas zuniam
a cada puxão repreensivo. Que harmonia dominava-os, quando não
era a peluda mão paterna, eram as rugas maternas me procurando.
o Robson, aquele peste, não parava nunca. Culpa de quem? Quem
tinha que cuidá-lo? Quem recebia calantes beliscões? Sei que
isso faz parte da rotina milenar da educação, mas lá dentro, bem
no fundo, calcinou. Um filho não era igual a outro? Não, isso
não existia lá em casa. Não nasci com um pênis pendurado entre
as pernas, nasci com uma fenda profunda. E agora, supremo
castigo, devo conviver com esse cheiro...
Comemorei. Posso dizer sem medo, até com certo orgulho. Festejei
a bronquite, enquanto ouvia as tábuas estalarem do embalo do
Robson. Mamãe sofreu, murchou como maracujá no cesto. A doença
levou o pouco que tinha dos beliscões e da indiferença de meu
pai. O pequeno e frágil pimpolho centralizava o ambiente. Tão
frágil, tal pai, tal filho. Aquele se foi, este está pior,
acabando-se aos poucos, apodrecendo. E “essa menina”, mesmo não
querendo, tinha que estar a disposição de ambos. Hoje o fedor se
personifica, infesta a casa, parece carne apodrecida, esquecida
por dias fora da geladeira. Carne que geme, de tempos em tempos.
Carne que exige morfina regularmente. O Robson, pelo menos, não
cheirava tanto...
Sempre eu, só podia ser eu. Morfina injetável, duas em duas
horas. Mas aplicar aonde? Pouco sobrou daquele corpanzil. O que
restou são frangalhos, trapos de pele enrugada pelo tempo. E o
cheiro só faz aumentar, alguém tem de limpar essa casa, está
insuportável. Mal consigo chegar perto daquele cadáver, ter de
cuidar e dar remédios. Quem vai limpar isso tudo? Parece a época
em que o Robson começou a vomitar pus. Infestou a casa. Aquela
golesma verde e grossa pintava os ladrilhos do chão. E vai a
filha dedicada escalavrar os joelhos no chão pautado pelos
passos noturnos, pelo embalar daquele infante esverdeado.
Bronquite não pode matar, é só cuidar direito, diziam os médicos
quando chegávamos para as repetidas internações. Remédios,
atenções, lágrimas e preces. Nada conseguiu evitar o fim.
Parecia tuberculose tal o peso e a textura dos catarros. Nem os
médicos sabiam mais. Não resistiu. Cheguei a alimentar doces
pensamentos, quem sabe a partir disso ele, sempre ele, notaria
minha presença. Que nada. Agora seus olhos tingiram-se de preto.
Agora só melancolias o espreitavam. Vivia o trabalho, que não
vivia mais nele. Aposentadoria antecipada. Foram
condescendentes. Dizem que agrediu um subordinado, deu até
hospital. Nunca soubemos direito. Chegando em casa, nem falava
conosco, principalmente com “essa menina”. Ficava horas a fio
falando com o Robson. Como era lindo e inteligente, seria
general, sim senhor. E a foto impávida. E eu e minha definhada
mãe tendo de agüentar suas lamúrias depressivas. Mamãe se
acabara. Sua carapaça seca não sentia os arredores. Hoje está um
zumbi. Pouca força extrai desse arremedo de corpo.
Faz questão de levar a comadre no banheiro, maior parte das
vezes, errando o bidê. Calada e murcha, ameaça sorrisos quando
me vê. Quanto a mim, sigo seus rastros, junto seus trapos, seco
seu lambuzo. E, turno após turno, aplico essa maldita injeção
naquilo. Em meu pai.
Podridão e fedor foram seu maior legado. E tenho de achar espaço
entre a pelanca e o osso para a injeção. Se a seringa é velha,
se o vidro está opaco pelo uso, que tenho eu a ver com isso? Se
o ar insiste em entrar junto é por que supera meus esforços, não
é culpa minha. Se não acho veias naquela pele rota, o que fazer?
Vou aplicando, assim não ouço seus gemidos, não tenho de ouvir
seus parcos lamentos: Robson, Robson, somente, Robson. A dose
que o médico recomendou já não é suficiente. Um pouco mais não
irá piorar a situação desse trapo corroído pela doença. Isso não
fará mais mal a ele, como não fez para o Robson. A secreção
esverdeada já empestava o quarto quando comecei a abrir a janela
para reciclar o ar, para expurgar aquele cheiro nojento, para
arejar o ambiente. O Robson nem tossia quando ventava, ficava na
cama olhando para o teto, soltando uns muxoxos. Só assim eu
conseguia respirar. Ele não reclamava, nem piorou muito, já
estava bem ruim, fedia como carniça em beira de estrada...
Agora a situação era pior, o fedor é maior. Essa podridão
infesta as frestas das paredes, o quarto não represa mais,
espalha-se pela casa. O quarto que partilhávamos, a casa em que
cresci e que viu o Robson definhar estava agonizando. As tábuas
não mais gemiam, como à época do Robson, mas purgavam a podridão
acumulada pelo tempo. Alguém precisa limpar isso tudo, arejar
essa casa. Precisa de ar, de muito ar. Ele precisa respirar,
como o Robson já precisou. Ele que nunca me deu atenção, que
nunca me quis. Ele que agora fede.
Agora está inválido, podre, às portas da morte. Eu, “essa
menina”, que nada sabe de sorrisos ou afagos, deve cuidá-lo.
Logo eu que não vim dotado do que um filho precisa: um bom par
de culhões.
ALESSANDRO CASTRO é natural de Santo Ângelo, RS, reside em
Porto Alegre, desde 1993, quando tornou-se Funcionário Público
Federal. Formou-se em Letras – licenciatura em Literatura pela
UFRGS – em 2001, mas é professor de Literatura brasileira em
Colégios e Pré-vestibulares da capital e interior desde 1999.
Atualmente conclui a Dissertação de Mestrado em Estudos
Literários – Machado de Assis, Historiador do Rio de Janeiro –
com defesa prevista para final de Julho de 2005.
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