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efeito
Tiago Casagrande
Com aquele som diante de meus olhos, não hesitei e mordi logo a
maçã, esperando que o ruído cessasse. Inútil. Continuou
apitando, silvando, às vezes chiando como tevê fora do ar.
Joguei a fruta pela janela. Não adiantou nada. Virei para os
lados, procurando a fonte; corri pelo apartamento, mas o som era
onipresente. Entendi que o barulho estava na minha cabeça. Não
era um simples zumbido, um tinitus; eram variações diversas de
discos riscados, cliques, notas de baixa freqüência. Então
começou a microfonia e eu pensei que minha cabeça fosse
explodir. Caí imediatamente no chão, atropelando a mesinha de
centro. Tapei os ouvidos em reflexo, sem efeito qualquer.
Instantes depois, parou. Levantei-me rapidamente e fui até o
banheiro. Examinei o meu rosto; uma protuberância sensível ao
tato crescia no lado da cabeça, em cima da orelha esquerda,
quase no topo. Um galo. Não soube dizer se foi uma batida na
queda durante a microfonia ou se já estava lá antes disso e eu
não notei. Abri o armário, peguei uma cartela de analgésicos e
tomei quatro de uma vez, bebendo água da torneira. Os sons
alternavam-se, trocavam de cor, brilhavam. Como se meu cérebro
estivesse mal sintonizado, indicando erro. Cambaleei até o
quarto e me atirei na cama, de bruços, travesseiro na cabeça, as
luzes todas apagadas. Esperava de que aquilo não passasse de uma
violenta enxaqueca. Um abalo sísmico na minha caixa craniana.
Depois de meia hora inerte, os horrores cessaram. Quis pegar
mais remédios, mas fiquei com medo de me levantar. Adormeci na
mesma posição.
O sol das onze horas atingiu em cheio meu rosto. Durante o sono,
despenquei da cama, e fui parar defronte à janela. Comecei a
rememorar o último sonho que tive: vi toda a minha família, até
os que já morreram. Estávamos num rinque de patinação e eu
vendia pipocas para Melissa. Ela parecia catatônica e de sua
boca saía uma espuma branca. Eu aparentemente achei aquilo
normal; e dizia a ela que não poderia mais ficar naquele emprego
porque um ruído estranho tinha tomado conta da minha cabeça.
Nesse momento, acordei. Estava cercado por uma luz solar amena
e, felizmente, silêncio. Movi-me cuidadosamente; levantei e fui
até o banheiro. Meu estado era péssimo – cara amassada, olheiras
profundas, palidez, um corte na bochecha direita sofrido sabe-se
lá como – mas o galo já não estava mais lá. Respirei com alívio.
Precisava de um médico. Decidi tomar um banho e ir ao
pronto-socorro. A ducha fria tirou o suor do corpo e revigorou.
Que diabos teria acontecido? Aquilo não parecia ter sido apenas
dor de cabeça. Era como se houvesse uma interferência nos meus
ouvidos. Fechei a torneira e comecei a me secar, quando notei
que o barulho do chuveiro continuava. A água fluindo em milhões
de pingos no chão de azulejo. Caindo como num temporal. Como
chuva pesada em teto de zinco. De olhos fechados, vejo as pedras
de granizo desabando do céu e entulhando o chão. Tento controlar
meu nervosismo e seco meu rosto com cuidado, querendo ser
positivo: tudo bem, pensei que havia desligado a água; foi
apenas um engano. Sem tirar a toalha da cara, vou me virar,
tatear o registro e fechá-lo. Apertei a manopla e girei-a no
sentido anti-horário. Meia volta. Fim da rosca. Olhei para o
boxe. Chuveiro desligado. Nenhuma gota. O ruído ainda comigo.
Voltei para o espelho. A saliência na cabeça havia crescido
outra vez, passei os dedos nela e o som modulou; quanto mais
perto minha mão estava, mais agudo era o tom. O suor escorria
das têmporas.
Fiquei com medo de sair de casa e ser atingido por outra
microfonia no meio da rua. Quis ligar para Melissa, mas quando
levei o celular para o ouvido, desmaiei no sofá. Ao retomar a
consciência, tinha um locutor de rádio dando o boletim do tempo.
Permaneci sentado, ouvindo as notícias e tentando organizar meus
pensamentos em meio ao volume alto. O que eu poderia fazer? Não
consegui usar o telefone, e se saísse na rua, estaria
perigosamente sujeito a ataques sônicos. Do alto do vigésimo
primeiro andar, pelo menos me sentia isolado o suficiente. A
rádio continuava pegando bem. Fui ao espelho do banheiro outra
vez. O galo agora estava deformado; na parte superior,
dividia-se em duas bolinhas. Encostei nelas e produzi chiados,
prejudicando a recepção. Explorei delicadamente toda a região, e
pressionei um dos nódulos. O locutor começou a ir embora, num
fade suave, e fez-se silêncio sepulcral, para logo depois
crescerem milhares de estampidos, batidas, vidro quebrando,
latas caindo de uma escada, urros guturais, borboletas
gigantescas batendo as asas, tosse seca, tudo ao mesmo tempo,
aumentando de volume e de intensidade, ficando mais e mais agudo
fundindo-se numa única linha de sinal muito alto que embaralhava
minha visão e fazia todos os músculos do meu corpo tremularem
como que reverberando aquela nota. Enfiei a cabeça na pia e abri
a torneira, deixando a torrente gelada incidir diretamente no
galo. O barulho da água cresceu e engoliu o apito, trocando de
lugar com ele, e então aliviando, diminuindo de força. Levantei
a cabeça e a protuberância havia ficado menor outra vez. Agora
sentia como se estivesse com as duas orelhas enfiadas em conchas
marítimas, do jeito que fazíamos quando éramos crianças na beira
da praia. Suave, mas estava lá. Enrolei cuidadosamente a toalha
na cabeça, como um turbante, esperando que aquilo me protegesse.
Peguei uma folha de papel e comecei a escrever um bilhete.
Acendi o abajur e o volume da concha do mar aumentou. Fui
drástico e desliguei todos os disjuntores. Sem eletricidade, sem
fontes de ondas eletromagnéticas. Aproveitei e tirei o interfone
do gancho. Abri a porta, espiei para os lados; ninguém no
corredor. Chamei o elevador e seu motor começou a fazer o som
característico, misturando-se ao que já havia dentro de mim;
voltei para casa, levando um pouco daquilo comigo. Espiei pelo
olho mágico quando chegou ao meu andar. Caminhei até ele,
coloquei o bilhete dentro, apertei o botão do térreo e soltei a
porta, voltando rápido para o meu bunker. Agora tinha um motor
de elevador dentro da concha. Não entendo como captei aquela
rádio. É como se estivesse nascendo uma nova orelha, muito mais
sensível do que as outras.
Os minutos passam e o socorro não chega. O imbecil do porteiro
deve estar na calçada fumando, ou jogando conversa fora com os
moleques flanelinhas. Olho para baixo pela janela. Carros da
polícia. Aglomeração. Vai ver algum vizinho se jogou de um andar
alto. Pular é tentador. Empurrar alguém, mais ainda. Não deve
chegar a um minuto de queda, e então, o nada. É o perigo desses
prédios altos. A taxa de suicídio cresce à medida em que os
elevador sobe. Elevador. Uma hora alguém vai ter que entrar no
elevador e achar o maldito bilhete. Preciso de ajuda. Será que
vão tocar na campainha? Droga, é bastante possível. Faço um
cartaz numa outra folha de papel e penduro na porta: “favor
bater”. Tomara que não batam muito forte. Sinto sede; vou até a
cozinha pegar um copo d’água, e vejo uma seringa sobre a mesa.
Do lado de duas ampolas vazias, sem rótulo ou qualquer
identificação. Os objetos me são familiares, mas não lembro o
que é que... Então subo até o terraço e vejo Melissa. Seu corpo
está no chão, todo desconjuntado. Ao lado das espreguiçadeiras,
de onde assistimos o pôr-do-sol ontem. Um braço está virado para
trás, num ângulo perpendicular em relação ao tronco. Começo a
suar e o barulho na cabeça aumenta. Surge um mosquito imaginário
zumbindo em estéreo. Não; é uma abelha. Preciso sentar. É uma
abelha que zumbe e está soltando pólen. Os grãos caem no piso
dos sentidos e quicam, como microbolinhas de alumínio,
produzindo estalos metálicos. Melissa tem os olhos fixos na
minha direção; observo a espuma branca saindo de sua boca,
contrastando com a cor roxa que cobre o seu rosto colado no
piso. Aproximo-me dela. Coloco o braço na posição natural; ele
estala e sinto os ossos soltos por baixo da pele. Passo os dedos
sobre sua cabeça. Nenhuma saliência. Preciso olhar do outro
lado. As abelhas vão embora e em seu lugar entram grilos
cricrilando sem ritmo. Levanto a cabeça de Melissa e vejo a poça
de sangue em que ela repousava. Logo acima da orelha, uma imensa
pústula aberta, uma ferida nojenta e necrosada, um galo que
explodiu. Tento fechar seus olhos, mas não consigo. Os grilos
esconderam-se dentro de um tronco e por isso, a zoeira ganha um
eco insuportável. Eu preciso fazer alguma coisa, e rápido. Seja
lá o que estiver acontecendo, pode me matar como matou Melissa.
Se ao menos esses bichos parassem de raspar as patas nos ossos
da minha cabeça. Eles estão brigando por território? O que será
que tinha naquelas ampolas? Não consigo me lembrar. Ontem,
estávamos aqui no terraço; ela tomava banho de sol.
Conversávamos. Vimos o pôr-do-sol, eu senti fome e desci para
pegar uma maçã. Foi quando tudo começou. Inspeciono o avesso dos
cotovelos, os meus e os dela, e não encontro nenhuma marca de
picada. Nem na barriga. Nem nas coxas. Nem na virilha. Os grilos
resolvem ficar bêbados e começam a quebrar meu crânio por
dentro. Eles dão coices no osso, que retumbam em meu peito.
Tento me concentrar, lembrar de alguma música, eu vou cantar bem
alto, vou espantar esses desgraçados, mas nada me ocorre,
nenhuma canção me vem à mente, então emulo um Pavarotti
desesperado, sem estante de partitura, fazendo “la la ra la”
numa ária em allegro. Grito o mais alto que posso, as mãos nos
ouvidos instintivamente, os grilos começam a ir embora, penso em
fogo para espantá-los, eles pulam mais rápido, ah, eu pressinto
o medo, agora vou matá-los, sim vou acabar com eles, mentalizo
uma garrafa de álcool na minha mão la la ra la laaaa eles tentam
fugir mas ficam se batendo espalho o combustível numa massa de
monstros roxos eles gritam estridente pedem por favor não risco
um fósforo e então a EXPLOSÃO-
Quando novamente abro os olhos, ainda ouço suas cascas
crepitando, estalando com o calor. Posso até sentir o cheiro da
carne queimada, de cabelos tomados pelo fogo. Estou no chão.
Tateio o galo, temendo que ele é quem explodiu e eu estou morto.
Mas não há nada ali. A superfície está toda lisa. Levanto-me e o
ruído diminui, embora o cheiro continue forte. Giro cento e
oitenta graus e ali está Melissa, carbonizada, com a cara preta,
a pele reduzida a fininhas folhas mais leves que o ar, bolhas
estouradas, o braço virado para trás, num ângulo reto em relação
ao tronco.
Desço as escadas e corro até a porta. Melhor proteger-me. Melhor
manter-me seguro, e nesse momento, seguro é sozinho. No cartaz
em que escrevi “favor bater”, encontro “assassino”, em
garranchos capitulares. É a minha letra. Meu corpo todo treme.
Recolho o papel, tranco tudo muito bem e vou ao banheiro. Vejo
Melissa no espelho, me fitando com os olhos mortos arregalados.
Um zumbido nos ouvidos surge. Estão batendo na porta. Não sei o
que fazer. Não posso abrir a porta. Não posso fugir. Preciso
sumir com a seringa e as ampolas! Tem alguém esmurrando a porta.
Ouço uma voz chamando meu nome; é o porteiro. Ele diz que veio
trazer o que eu pedi. Espio pelo olho mágico. Está sozinho. Abro
a porta. Seu Osvaldo me passa uma sacola e diz que eu lhe devo
cinco reais; quatro da mercearia, mais um para o moleque que foi
lá fazer as compras, já que ele não pode deixar a recepção de
jeito nenhum, como eu deveria saber. Pego minha carteira na
estante e lhe estendo uma nota de dez, a única que eu tenho. Ele
fica me olhando enquanto eu fecho a porta na sua cara.
Meu pedido, pelo jeito, foram maçãs. Fico olhando para elas,
perplexo. Levo-as para a cozinha e largo a sacola sobre a mesa
vazia. Começo a ouvir tamancos batendo na madeira. Alguém se
aproxima. É Melissa. Parada às minhas costas. Não me viro. Ela
quer saber se eu estou procurando a seringa e as ampolas. Não
estou, amor. Comprei maçãs. Não quero olhar para ela. Suas mãos
largam a seringa e as ampolas em cima da mesa. Nenhum rótulo.
Nenhuma identificação. Na seringa e nas ampolas. O vidro bate no
tampo da mesa e o som se multiplica dentro dos meus ouvidos. Ela
me pega pelo braço. Diz pra subirmos logo ou perderemos o
pôr-do-sol. Podemos deixar a seringa e as ampolas pra depois, se
tu quiseres, ouço-a propor. Ela me diz que só não quer perder o
pôr-do-sol porque o melhor do pôr-do-sol visto daqui é o laranja
que se estende pela silhueta dos prédios como se fosse engolir
tudo que é cinza e negro e que por momentos se pode pensar que o
mundo é um lugar mais colorido e não tão árido como visto lá de
baixo onde somos formiguinhas perdidas que precisam levantar a
cabeça pra respirar. Ela me fala tudo isso sem abrir a boca. Ela
me olha fundo e começa a espumar e gorgolejar enquanto eu a ouço
dizer por um rouco megafone que dentro de vinte anos a população
da Terra vai dobrar e que seriam necessários cinco planetas
iguais ao nosso pra alimentar toda essa gente e mesmo que uma
política de controle de natalidade internacional entrasse em
vigor amanhã ainda haveria o problema da água já que a previsão
é de apenas dez anos para que se esgotem todas as fontes de água
potável. A voz de Melissa aumenta de corpo, engorda como uma
esponja e meus ouvidos transbordam. Tudo no meu corpo dói. Do pé
ao coração. Sinto-me inchado, o suor jorra, sua voz vai explodir
os meus órgãos internos! Eu a mando calar a boca e ela responde
com um tapa no rosto. A pedra do anel abre um sulco na minha
bochecha. O sangue escorre pelo queixo e eu o escuto, rio
fluindo por cavernas subterrâneas e lambendo pedra. Viro-me em
direção a pia e lavo o rosto. Melissa grita da sala, obrigado,
amor. Seco a bochecha num pano de prato. Encontro-a lendo o
cartaz que havia pendurado na porta. Ela diz que me ama mesmo
que eu seja um péssimo desenhista. Pego a folha de papel e vejo
um casal de mãos dadas, sob um coração onde está escrito “Juntos
Até Depois da Morte”. Com a minha letra. Me abraço nela e
sentamos no sofá. Eu canto pra ela uma música que está
sintonizada no rádio do meu galo. Ela me abana com o cartaz, e o
papel movimentando o ar torna-se asas em meu cérebro. São os
albatrozes, voando para o oceano porque é hora de jantar.
Melissa pega a ampola, quebra na ponta, alimenta a seringa. O
problema dessa droga, ela diz, é que demora a matar. Sinto seus
dedos nos meus cabelos enquanto ela invade o avesso do meu
cotovelo com a agulha. Dizem que a gente fica alucinando por um
dia inteiro antes de morrer. Os albatrozes batem as asas com
fúria, tampando meus ouvidos com penas. Eles gritam e mergulham
no mar, bicando a minha pele enquanto Melissa faz furinhos com a
seringa em todo o meu corpo. Entrelaço meus dedos nos dela e ela
me puxa, me faz levantar. Caminhamos em direção à escada. Paro
no banheiro e noto o galo pelo espelho. Os albatrozes gritam com
a voz de Melissa dizendo que já está na hora. É melhor subir
logo. Vamos ver o pôr-do-sol.
TIAGO CASAGRANDE tem 27 anos, é publicitário, escrevinhador
diverso, portoalegrense e mantém o blog Bereteando
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