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Desmentalizando
meninos
Ana Paula Maia
Drip drip drip. A língua trepidando no céu da boca, os dentes
travados, o maxilar tensionado. Drip drip drip. Os meninos
olhando o corpo debatendo-se no chão da sala de aula.
Os olhos selvagens dos meninos cabem a crueldade de uma cidade.
Mirá-los até o fundo do crânio, nota-se o oco insano. Não gritam
socorro, não se movem, só esperam o sinal soar. Demência cabível
à desmentalização. E já estão todos assim, até os nem tão
meninos.
Os olhos vão contorcendo-se até tornarem-se brancos, a saliva
espumando nas laterais da boca. Os ouvidos incinerados. Bem de
perto pode-se ver as faíscas. Rolando, batendo, sangrando. E os
meninos estão parados olhando o que se contorce.
Não fazem nada, a não ser, muita força com a mente. Visualizam a
morte em quadrinhos. Recortada, com legendas, seqüênciada. A
professora não percebe nada enquanto escreve no quadro drip drip
drip. Ela não olha para trás, não ouve os dentes trincando e a
língua trepidando no céu da boca, fazendo o drip drip drip.
Dois minutos para o sinal soar. Dois minutos para o intervalo de
vinte minutos. Um descanso para o cérebro, para a mente
desgastada dos meninos. O que se debate segura o pé de um deles,
o que está mais próximo, e ele não se importa.
Ali há apenas meninos; uniformizados, penteados e engraxados.
Repetem o drip drip drip em voz alta, harmonioso. Não sabem o
que significa, mas repetem. Até o que se debate de olhos
revirados e boca espumante repete.
São apenas meninos. Não sabem lidar com as emoções. Aprendem o
que os ensinam. Aprendem e repetem. Tão pouca emoção. Não sabem
para que vai servir, mas repetem mesmo assim. Sem significado,
sem emoção, pouca razão. Drip drip drip.
O sinal soa forte como de costume e é hora de um descanso. O que
se debate, sossega. Não há mais nada para se ver. Calou-se para
sempre. Mas antes aprendeu a lição. Drip drip drip.
ANA PAULA MAIA, autora do romance "O Habitante das Falhas
Subterrâneas" (7 letras, 2003). Participa das coletâneas "25
mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira"
(Record, 2004) e "Sex´n´Bossa" (Mondadori _ Itália, 2005
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