Depois de oito anos

André Giusti

Então esse momento era assim mesmo, conforme algum dia viu sem interesse em alguma novela, ou como lhe contara alguém que já havia passado por isso. A porta fica entreaberta dando para a escuridão do corredor do prédio, e a mala com roupas básicas espera na passagem até que seus olhos de despedida terminem de circular por toda a sala, onde já não vê mais o retrato do dia do casamento. Havia sido tirado à tarde, pois lembrava dele de manhã ainda na estante. Foi parar no único lugar onde verdadeiramente passou a existir: o passado, que levaria também aqueles móveis com seus crediários e suas prestações arrastadas.

Lá dentro ele ouve um barulho de interruptor desligando luz, e logo em seguida aproximam-se passos amaciados pelos chinelos de borracha. Ela cruza o arco que separa o corredor da sala e apóia um dos ombros no batente. Torta, fica jogando nele uns olhos avermelhados de lágrimas secas que se esgotaram ao longo do dia. Também já viu filmes e novelas assim, já lhe contaram igualmente sobre essa hora, e sua expressão derrotada está ali feito uma conferente burocrata diante da expedição de caixas de mesma cor e tamanho, ou igual a um padre que perdeu a fé e cumpre por rotina a tarefa da extrema-unção.

Ele se detém no porta – retrato sumido, menos por interesse e muito mais para dar pausa à cabeça coalhada de fragmentos de fatos e vontades, que juntos não chegam a render um pensamento objetivo. É bom mesmo que a foto não esteja ali, evitando assim a banalidade de confrontar a felicidade de antes e a saturação de agora. Tirar da estante o retrato foi se antecipar, enfim, a uma expectativa dele. Só que faltam poucos passos, somente aqueles que andará até a porta da rua, para que ela passe à condição de sua ex-mulher. Percebe que nisso há muito mais de mágoa do que de alguma ironia que possa se insinuar.

Afinal transfere para o rosto da mulher a atenção inquieta que não se prende a nada específico naquele momento. Os olhos dela até poderiam ser dados como emocionalmente mortos, não fosse uma certa chama acusatória por detrás daquele vazio sem movimento e vida. Aquele brilho que dá certa vivacidade ao adormecimento, o faz imaginar o quanto ele será acusado na versão que for apresentada por ela a amigos e parentes. Mas não está preocupado em se defender ou explicar erros aos outros. Além do mais, a versão dele também terá vícios, conveniências e injustiças.

Ele tenta começar uma frase, fala “Bem, eu...”, mas interrompe logo e entrega tudo à dúvida das reticências. No lugar de falar, volta a correr os olhos pela sala, e sem intenção recapitula passagens da história daqueles móveis, como o sofá de três lugares onde mantiveram a última relação sexual três meses antes, ato que, ao final, pareceu-lhes descabido. Mas bem antes que o sexo se tornasse quase um constrangimento, pereceu a cumplicidade, e tão sem propósito quanto transar, passou a ser também dividir alegrias e angústias, como se um para o outro não passasse de um estranho que puxa conversa na condução.

Quando procura lembrar o que pretendia dizer pouco antes, a filha chega lá de dentro arrastando algum de seus brinquedos favoritos. Gente como ela, miúda em seu pijama de ursinhos verdes, também estava nas novelas ou no que os conhecidos descreveram. Mas a garota não chora nem o agarra pelas pernas para impedir sua saída, não barateia aquela cena ao modo dos folhetins banais. No lugar disso, fica balançando a cordinha que puxa o brinquedo, aguarda o desenrolar dos fatos fazendo cara de quem sabe que não tem idade para saber o que está acontecendo.

Ele fecha a mão em torno da alça da mala, mas ainda não faz o movimento de alavanca para levantá-la. Permanece assim, o corpo levemente arqueado; a mão cerrada apertando com força a alça; a mala no chão parece que tem a paciência de compreender a dificuldade da hora. Perde algum tempo olhando sem enxergar as fendas cinzas entre os tacos do sinteco antigo.

Ergue finalmente a mala e se despede da filha sem muita demora. Na dúvida em se aproximar, dispensa à mulher apenas um até logo, e quer que desde já a tristeza comece a ser substituída pela confiança de que será feliz de novo. Mas quando bate a porta, não sabe se o que está sentindo é esperança ou desespero.

ANDRÉ GIUSTI
é carioca, nascido no emblemático maio de 68. Publicou Voando Pela Noite - Até de manhã (7Letras, 1996); A solidão do livro emprestado (7Letras - ColeçãoRocinante - 2003) e Eu nunca fecharei a porta da geladeira com o pé em Brasília (LGE Editora - 2004). Junto com Alexandre Pilati edita o site Messaginabótou. É jornalista, editor e apresentador da TV Brasília.