Cicatriz

Bruno Ramalho


Plana, plena e estática, me esperava havia horas. Contrastava com o vazio alvo da parede recém pintada. Fazia pose de pintura moderna, a moldura em curvas. O horizonte nulo e sem quadros, povoava de outra cor e muitos sentimentos. Pasmo, eu permanecia ali, à porta. Longos minutos...

Vagarosa e despretensiosamente, arrastei-me de contra a visitante, que, nua e misteriosa, mantinha-se a me fitar. Ela não violaria ainda mais o meu mundo... Violou. Vencendo o vão que nos separava, avançou, fêmea desesperada, puro instinto. Bailamos loucamente. Eu em fuga. Ela em volta.

Dez minutos. Dois caídos. Estafa e, finalmente, o sono. Dormi no chão. Manhã chegaria logo.

Aos primeiros raios do crepúsculo, vi a mariposa, única outra vida da noite só, cruzar a fresta da varanda para nunca mais voltar. Ficará a cicatriz de saudade e de fratura exposta. Voei atrás dela, caí do primeiro andar...


BRUNO RAMALHO
nasceu em 1978, no Rio de Janeiro. Viveu infância e adolescência em Brasília. É médico, formado pela Universidade Federal de Uberlândia, e especialista em Ginecologia e Obstetrícia pela USP de Ribeirão Preto. Publicou seu primeiro livro em 1999, A penúltima coisa que se faz, poemas. Este pequeno conto marca sua estréia na prosa
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