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Batida de bombom
Eduardo Martínez
Introdução
As pessoas, às gargalhadas, brindavam pela enésima vez os dez
anos de formatura. Vinte e três antigos colegas, nove homens,
quatorze mulheres, alguns acompanhados de marido, esposa,
filhos, relembravam a época de faculdade, quando estudavam na
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Os grupinhos se
repetiam como nos velhos tempos. Num dos cantos, duas colegas
que não se viam desde então, talvez devido aos caminhos que suas
vidas tomaram... Ingrid, 33 anos, cabelos escuros e
encaracolados, cortados na altura do queixo, morena clara, 1,58
metro, 52 quilos, quadril largo, seios de limão, mas um limão
doce.
Josiane tinha a mesma idade, um pouco mais alta, o mesmo peso,
branca, cabelos longos, lisos e dum castanho escuro como os da
amiga, não tão provida de bumbum, mas com os seios maiores,
belos, não tão firmes, já havia parido algumas vezes.
- O que você tem feito nesses anos, Ingrid?
- Josiane, me transformei numa máquina. Não paro de trabalhar um
minuto sequer.
E você?
- Ah, casei, tive três filhos... Virei uma verdadeira dona de
casa - respondeu Josiane com uma ponta de amargura. Ela viera
sozinha à festa, seu casamento há muito sobrevivia aos trancos e
barrancos apenas em virtude da tão decantada fachada; o marido e
os filhos estavam em férias na casa da sogra, que morava em Cabo
Frio - RJ.
Aos poucos as pessoas iam embora, alguns com o nível alcóolico
um pouco elevado, mas nada que fugisse do padrão dessas
ocasiões. Ingrid quis continuar o bate-papo com a antiga colega
de turma e a convidou para tomar a última dose em seu
apartamento em Botafogo, bairro da Zona Sul do Rio. No trajeto,
as duas relembraram outros fatos ocorridos no tempo em que ainda
eram estudantes.
Amantes
Chegaram no apartamento por volta das 2 h da madrugada. Ingrid
foi pegar duas latas de cerveja e duas tulipas. Colocaram um CD
no aparelho de som. A voz de Sam Cooke ecoou suavemente pelo
pequeno apartamento da rua Voluntários da Pátria. Josiane, num
ímpeto de voluptuosidade, talvez embalada pelo já não modesto
nível alcóolico, tirou a amiga para dançar.
- Já que não temos um cavalheiro no salão, a senhorita aceita a
próxima contradança?
- Com todo prazer, minha cara Jojô - Ingrid respondeu soltando
uma gostosa gargalhada.
As duas amigas começaram a dançar, seus corpos, cobertos por
vestidos longos, um azul piscina, outro vermelho com detalhes
brancos, tremiam a cada roçar das coxas, as mãos se tocavam como
as de duas meninas brincando de adoleta. Tudo se encaminhava
para uma troca de carícias, o que não demorou a acontecer,
inicialmente tímida, gradativamente foi ganhando desenvoltura,
um beijo de selinho surgiu, entremeado de sorrisos marotos, até
explodir num toque de bocas mais nervoso, excitando cada pedaço
daqueles corpos sedentos de amor. Não era a primeira vez que
Ingrid e Josiane sentiam o corpo de outra mulher, já havia
acontecido algumas vezes no passado. As duas se amaram
ternamente.
* * * * *
Despertaram por volta do meio-dia, se entreolharam e sorriram,
talvez um pouco envergonhadas pelo ocorrido na noite anterior.
Mas nada que durasse mais que alguns míseros minutos, logo
estavam tão íntimas que resolveram tomar uma ducha antes de
fazerem o café da manhã. Ingrid ensaboou o corpo da amiga, que
retribuiu o gesto. O beijo não demorou a acontecer, despertando
os instintos mais carnais das duas. Era domingo... e o tempo não
convidava para uma praia.
* * * * *
Prepararam um grande dejejum, digno de duas amantes apaixonadas.
Comeram entremeadas de beijos, toques por debaixo da mesa.
Josiane pegou uma ameixa e colocou nos lábios carnudos de
Ingrid. Esta não se fez de rogada, deu uma mordiscada e um
sorriso maroto. Josiane pegou o que sobrou da fruta e a devorou.
- Nunca pensei que você era tão saborosa, Ingrid.
- Jojô, desse jeito você me deixa envergonhada.
E tudo era motivo de mais um beijo, mais uma carícia...
Remexendo o passado
Enquanto preparavam o almoço, pincelavam o passado, ora com
saudosismo, ora com despeito, ora com angústia. Este sentimento
tiveram quando Josiane tocou em um assunto, esquecido há muito:
a morte do professor José Carlos, da cadeira de Patologia
Clínica.
- Você se lembra do professor Zé Carlos?
- Aquele que morreu?
- Ele mesmo.
- O que tem ele, Jojô?
- Ah, era um gato!
- É, isso era mesmo. Tinha um monte de alunas atrás dele. Mas
por que você tocou no nome dele agora? Não vai me dizer que você
também...
- É, saí algumas vezes com ele.
- Jura?
- Juro. E ele era o máximo! Pena que era um galinha.
- Ele saía com outras meninas?
- Sei que ele comeu a Graciele e a Renata.
- A Renata da nossa turma? Aquela que vivia falando pra Deus e o
mundo que era virgem e coisa e tal?
- A própria. E você, Ingrid, nunca teve alguma coisa com ele?
- Eu? Por que eu teria?
- Ah, não sei... O Zé Carlos era tão atraente, todas as meninas
tinham uma quedinha por ele.
- Não!!! Nunca saí com o Zé Carlos! Ainda mais porque na época
eu estava namorando o Bernardo.
José Carlos foi encontrado após ficar alguns dias desaparecido.
Os vizinhos reclamaram do mau cheiro vindo do apartamento do
professor. O corpo foi encontrado caído no banheiro. Morreu
afogado no próprio vômito.
- O Zé Carlos teve uma morte horrível, né, Ingrid?
- Nem gosto de lembrar. Por que a gente não muda de assunto?
- Desculpe, só estava lembrando... Você viu como o Vicente está
bonito? Nem parece mais aquele ser de outro planeta.
- É mesmo. Se tem alguém que deu uma melhorada nesses dez anos
foi o Vicente.
Se bem que você está linda, Jojô.
Retiraram o suflê de espinafre do forno. Havia também arroz,
frango grelhado e salada de alface, tomate e palmito. Brindaram
com suco de uva, que beberam em cálices de vinho tinto.
À tarde Ingrid pegou alguns álbuns de fotografia. Fotos do tempo
de criança, fotos de viagens, fotos da turma da Rural. Algumas
receberam atenção especial, comentários ora longos, ora nem
tanto. Umas dessas foram as do tempo de faculdade, inclusive
duas ou três onde aparecia o professor de Patologia Clínica, o
que fez com que as amantes voltassem, por alguns minutos, não
mais do que isso, ao assunto que tanto parecia desagradar
Ingrid. Outras foram passadas sem muito interesse, mereceram
nada mais do que uma olhadela.
Depois de passarem um bom par de horas vendo as fotografias,
Jojô deu um beijo surpresa na amiga, um típico beijo roubado,
próprio dos casais enamorados. As duas deixaram-se levar pela
excitação e voltaram a se amar no tapete da sala, ali mesmo onde
até então se deliciaram com as imagens do passado.
Coração partido
- Jojô, e como vai a vida de casada?
- Ah, a gente vai empurrando com a barriga.
- Você ainda ama seu marido?
- Não, amar eu não amo. Até sinto certo desprezo por ele. Mas o
que posso fazer? Abandonei a carreira quando engravidei, depois
casei. Fui pegando gravidez uma atrás da outra... Hoje levo uma
vida como a da minha mãe, que finge gostar do meu pai.
- E você ainda transa com seu marido?
- É aquela coisa, Ingrid... Ele me cutuca, eu abro as pernas,
ele mexe um pouco, goza, dou uns gritinhos tipo "ai", "ui" e
pronto. Minha vida é isso.
- E você nunca o traiu?
- Duas vezes. Uma com o Fábio. Lembra do Fábio?
- Aquele que morava no Flamengo?
- É esse mesmo. Mas foi uma coisa rápida, não durou mais do que
dois, três meses. Pensei que estava apaixonada, me enganei.
Depois saí com um cara que vivia me cantando. Era até conhecido
do meu marido. Saímos apenas duas vezes.
E foi ótimo! Mas ele é casado... Não dava pra continuar. Mas e
você? Aposto que tem um monte de homem atrás de você?
- Alguns... Não saio com alguém há mais de seis meses. O último
foi um advogado.
- E?
- Não durou muito tempo. Ele é casado e, além do mais, não me
satisfazia na cama - sorriu com um certo ar de deboche.
- Nossa, Ingrid, você é mesmo fogo! - e as duas gargalharam.
Havia uma cumplicidade entre as duas, própria de meninas,
própria de mulheres.
- Mas você nunca pensou em se casar? - perguntou Josiane.
- Ah, não sei se conseguiria dividir minha vida com alguém.
Gosto de liberdade, de não dar satisfação da minha vida pra quem
quer que seja, e não apareceu alguém que mexesse comigo de
verdade. Então, prefiro ficar sozinha até o meu príncipe
encantado aparecer.
Confidências
À noite também ficaram juntas, não foram à rua, não queriam
dividir o momento mágico que estavam tendo. Continuaram se
amando de todas as formas que duas mulheres podem se amar. Dois
corpos de mulheres vivendo momentos de adolescentes.
- Você tem um cheiro tão bom, Jojô!
- ...
- Hum, e o seu gosto é melhor que sorvete de morango!
- Sorvete de morango, Ingrid?
- É que adoro sorvete de morango!
* * * * *
Já era de madrugada, Ingrid acariciava os longos cabelos da
amiga, que estava com a cabeça em seu colo.
- Amanhã tenho de acordar cedo - disse Ingrid.
- Então, vamos dormir.
- Estou sem sono, Jojô.
- Pensando em quê?
- Em nada!
- Como você consegue pensar em nada?
- Estou pensando na vida, Jojô.
- ...
- Você sabe por que nunca me casei?
- ... - Josiane apenas balançou a cabeça negativamente.
- Jojô, eu tive um grande amor.
- E eu o conheço?
- ...
- É alguém da Rural?
- ...
- Ingrid, se você não quer falar, tudo bem. Você quer conversar
sobre isso?
Ingrid olhou dentro dos olhos da amante e as lágrimas não
demoraram a escorrer pela sua face.
- Ei, Ingrid, o que foi? Não fique assim, meu amor - Josiane
encostou seus lábios nos da amiga.
- Não consigo deixar de pensar no Zé Carlos - confidenciou
Ingrid, entre soluços.
Josiane ficou muda, estática. Ela não acreditava no que estava
ouvindo. Ingrid tivera um caso com o professor José Carlos? Não
era possível!
- Nós éramos namorados, íamos nos casar - continuou Ingrid.
Sim, Ingrid tivera um caso, ou melhor, mais que um simples
namorico com o professor de Patologia Clínica. "Então era ela a
tal mulher por quem Zé Carlos estava apaixonado", pensou Josiane.
Um frio percorreu sua espinha, ela não podia acreditar que
estava vivendo tudo de novo. Sua expressão mudou de
tal maneira que Ingrid chegou a perguntar se a amiga estava
passando bem.
- Não... Estou bem. Só fiquei um pouco surpresa - Josiane tentou
disfarçar.
- O Zé Carlos e eu íamos nos casar durante as férias da Rural.
Ele até já tinha ido à casa dos meus pais. Todos na minha
família já sabiam.
- Agora entendo o porquê de você ficar tão incomodada quando
toquei no nome dele pela manhã.
- É... Fiquei relembrando tudo que aconteceu, a forma como ele
morreu, como o encontraram - disse Ingrid entre um soluço e
outro.
- Ei, Ingrid, isso já foi há muito tempo. Não é possível que
você não tenha se apaixonado depois disso.
- Jojô, já saí com vários homens, alguns até bem interessantes,
mas não consigo tirar o Zé Carlos da cabeça. Ele sempre aparece
em meus sonhos. Eu ainda o amo!
- Mas você ainda é tão jovem... e tão linda.
- O que me vale ser jovem e linda se não tenho o homem que amo.
Já pensei em me matar pra ficar perto dele, mas sou uma covarde.
- Você não é covarde. E deixa de bobagem, você não pode fazer
uma loucura dessa. Onde já se viu uma mulher linda e cheia de
vida como você querer fazer uma besteira dessas? Levante a
cabeça, Ingrid!
Josiane abraçou a amiga, que chorou em seu ombro. Uma certa
angústia tenta se instalar no coração de Josiane, mas é logo
afastada por uma estranha sensação de felicidade. Finalmente ela
estava vingada!
A despedida
O despertador tocou às 07 h. As duas amantes despertam. Os raios
de sol entram no quarto através das frestas da cortina
entreaberta. Ingrid precisa se arrumar para ir trabalhar no
consultório veterinário ali mesmo em Botafogo.
Josiane voltará para a sua realidade, a mesma realidade que
tanto a angustia.
Enquanto Josiane toma banho, Ingrid vai preparar o café da
manhã. É quase o mesmo dejejum do dia anterior. Quase...
* * * * *
- Você se lembra? - Ingrid pergunta à amiga apontando para uma
garrafa com um líquido marrom.
- O que é isso, Ingrid?
- Prove.
Jojô pega a garrafa, retira a rolha, aproxima o nariz e sente o
odor característico de cachaça e chocolate.
- Batida de bombom? - pergunta Josiane de olhos arregalados.
- Batida de bombom! Você se lembra? A gente tomava litros.
- É... - Josiane continua desconfiada.
* * * * *
Depois do dejejum acompanhado de um gole de batida de bombom, as
duas amantes se despedem com um beijo apaixonado. Talvez nunca
mais voltem a ter momentos como os vividos nas últimas trinta e
poucas horas. Quem sabe na próxima reunião da turma...
Epílogo
Josiane ainda tem o gosto da batida de bombom na boca. O gosto
da aguardente misturado ao doce do chocolate a faz lembrar do
ocorrido há tantos e tantos anos. Foi justamente na batida de
bombom, que ofereceu ao professor de Patologia Clínica, que ela
misturou a cocaína. Ela havia descoberto que Zé
Carlos, por quem era apaixonada, estava saindo com uma outra
mulher. Ele havia terminado com Josiane, mas esta não se
conformou. Ela provocou uma overdose no ex-amante,
assassinando-o. E até a manhã de hoje Josiane não sabia o nome
da tal mulher por quem Zé Carlos havia se apaixonado.
EDUARDO MARTÍNEZ é
escritor de contos e romances, como "Despido de ilusões", tem
formação em Comunicação Social - Jornalismo - e Medicina
Veterinária.
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