Ilustração: Picasso

Avis rara

Daniel Santos

De vez em quando, ela aparecia na janela do conjugado e nem se abalava com a balbúrdia que subia da cidade até oitavo andar. Seus olhos miúdos, já incapazes de reagir a surpresas, sequer avaliavam o risco da altura e caíam até a calçada sem medo nem interesse. Espiava, apenas.

Era velha e sentia-se antiga, uma dessas que esqueceram viva por aí, mas ainda não desistira; não, completamente. Tanto que, toda semana, comprava na banca fascículos da enciclopédia que muito ajudaria a sobrinha nos estudos.

Mas a sobrinha ... nem sinal de vida! Ninguém mais aparecia para as visitas de domingo, quando costumava oferecer petits-four de amêndoas, sua especialidade.

E deu, então, de andar devagar, sem mexer demais os braços nem a cabeça para não chamar a atenção do tempo que, avaro, começara já a lhe fazer cobranças. Dentes, cabelos, parte da saúde e dos amigos ... muito de si devolvera nos anos mais recentes. Nessa progressão, nada mais restaria, exceto o último suspiro. Por isso, economizava a si mesma, poupava-se, mal descia à rua e, nessas raras ocasiões, seguia colada à parede dos prédios como quem busca proteção.

Também à janela pouco aparecia e, da última vez que ali esteve, viu a pomba - uma pomba cinza-azulada em nada diferente dessas tão comuns nas praças.

Talvez um pouco mais encorpada e, sim, aflita porque, apesar do vôo elegante e da perfeita elipse que cumpriu no espaço, ela vinha rápido demais, a ponto de assustar a velha.

Aproximou-se do prédio numa tal velocidade que quase se chocou com o paredão de concreto. Mas, não. Apenas, dia findo, ela retornava ao abrigo - o nicho do aparelho de ar condicionado que a velha nunca teve. Pois ali, naquele espaço vago, ela acolheu a emplumada inquilina, e não apenas por ser criatura pacífica, ou assim parecer.

Um dia antes, acordou assustada com ruídos e logo imaginou que um ladrão invadia o conjugado. Mas para quê, se nada tinha de valor? Bobagens de gente sem assunto. Apurou, então, os ouvidos e percebeu que os ruídos vinham do nicho. Olhou pela fresta da sua tampa de madeira e ... lá estava um pombo, um filhote de pombo!

Feio - foi a sua imediata impressão. Mas logo apiedou-se daquela nascente forma de vida, daquela criaturinha frágil e assustada que ainda não arrulhava, mas já se afligia com a ausência da mãe. E por isso, exatamente, a senhora recebeu a inquilina. Do contrário, sem os cuidados maternos, o recém-nascido não vingaria.

Pela fresta, a velha se emocionava com o filhote, que se esticava de bico aberto para receber a refeição. Na sua fome de vida, comia sem vacilar, sem necessidade de escolher no cardápio, e metia-se sob o corpo caloroso da pomba em busca de proteção e de conforto, enquanto ela lhe fazia o asseio com o bico. Quando o pequerrucho adormeceu, ela se atirou no espaço e logo estava de volta ao bando, disputando o milho que as crianças da praça atiravam.

A senhora continuou espiando aquele bicho papudo e avermelhado, ainda sem penas e de olhos semi-abertos que nada viam. Quis tocá-lo, trazê-lo para si na palma da mão e ficar sentindo a vida (como quem recorda e sente saudades) nas suas pulsações inaugurais, porque o ritmo dela beirava a fadiga, o silêncio terminal, definitivo, sem negociações.

Por isso, cada vez mais emocionada, enfiou o dedo pela estreita fresta que esfolou sua pele enrugada como pergaminho. Sentiu a fisgada de uma farpa, mas isso pouco importava. Conseguiu finalmente tocar as costas do pombinho que se amarrotava sobre si mesmo por falta de armação interna capaz de sustentá-lo e, dessa maneira desajeitada, parecia um lenço que se atira com displicência sobre a cadeira.

Tocou-o e ele reagiu com leve estremecimento, semelhante ao discreto espasmo de uma ostra, quando um grão de areia invade sua concha. Mas foi só. No mais, deixou-se tocar por aquela cautelosa suavidade que lhe percorria as veias por sobre a pele transparente. Transparente e, no entanto, cheia de mistérios.

Mistérios, sim. Porque, apesar de tanta transparência, não se viam os filamentos de ligação com essa imensa e imperscrutável rede de cumplicidades que une, em algum plano, todas as coisas vivas, mortas e sem vida. Ou alguém ainda acredita que uma criatura se move por si mesma? Não fossem esses tais barbantes amarrados aos braços e às pernas (e que alguém manipula de algum ponto!), talvez vivêssemos todos atirados pelos cantos como brinquedos inúteis de que uma criança se cansou.

E o pombinho também aí se incluía. Não estava solto por aí, teria os cuidados da mãe, e ela ... ela igualmente tomaria conta dele. Depois de acariciá-lo, pressionou o dedo que afundou sem resistências naquele corpo cheio de expectativas quanto à forma futura e suas possibilidades. Não passava, então, de um pedaço gordo de carne. Mas, de repente, quando a velha retirava o dedo, ele estremeceu de novo e sua cabecinha procurou a carícia.

E ela, há tempos sem a visita da ternura, emocionou-se ainda mais: com o toque mais delicado possível, e dessa vez desveladamente maternal, ficou cuidando do filhote, do seu filhote.

Assim distraída, não viu que a mãe chegava com mais comida no bico, mas a pomba percebeu que lhe invadiam o domínio e aliciavam o que lhe era mais caro. Por isso, arrulhante, enfezada e valente, arremeteu contra a velha, contra o dedo da velha, com uma bicada lancinante, enquanto o filhote metia-se talvez assustado sob a plumagem protetora e aprendia, assim, que fúria e amor podem se casar harmoniosamente, se está em jogo a sobrevivência de quem tanto queremos.

Entre assustada e divertida, a senhora recuou para dentro do apartamento, pôs o dedo ferido sob a bica da pia até o sangue estancar e se ocupou, enfim, com seus próprios afazeres. Tinha de passar a vassoura no conjugado e preparar a janta, ou mesmo algo que não chegasse a ser janta, que comia pouco: um tomate em rodelas, um ovo cozido, duas fatias de presunto ... o suficiente para empanziná-la.

Depois, voltou a espiar pela fresta. A mãe lá estava com o filhote e os olhos das duas encontraram-se. Os da velha, curiosos. Mas a pomba, com as pupilas dilatadas, parecia especialmente sinistra como uma harpia. Sim, ela continuava furiosa. Tanto que, após alguns segundos observando-se, a inquilina emitiu uma série de arrulhos e arremeteu, em seguida, contra a tampa de madeira do nicho.

A velha recuou num salto e quase caiu sentada na cama, onde afinal sentou-se pasma, um tanto abalada com a exclusão daquele maravilhoso processo de criação do pequeno pombo. Não a queriam! Ou melhor, na verdade, o filhote gostara dela, sua mãe é que a rejeitou.

Claro, poderia enxotá-la dali com uma vassourada. Mas, e se o pombinho não resistisse e morresse? Não, isso não. Era melhor deixá-los em paz, porque certamente estariam bem um com o outro.

Aliás, quem precisava dela? A própria sobrinha a ignorava, sequer perguntava pela enciclopédia. Os filhos foram-se pelo mundo e encheram-se de responsabilidades. Os vizinhos ... ah, cada um tinha a sua própria vida e sempre lhe diziam que evitavam perturbá-la.

Sozinha, dolorida de abandono, precisava cuidar de alguém, de alguma coisa, e adormeceu daquela vez com uma decisão tomada: ajudaria a criar o filhote.

Porque, afinal, ele era já seu filhote também.

E assim foi. Mais cautelosa dali em diante, aproximava-se apenas quando a mãe saía para os espaços. E não só acarinhava-o, mas passou a dividir com ele os suplementos vitamínicos que o médico prescrevera, uns farelos que ela metia pela fresta numa colherinha e que o papudo engolia sem cara feia.

Sim, o papudo gostava, gostava como quê! Além da provisão materna, aceitava com ansiosa gula as doações da velha e ainda esticava a cabeça para o cafuné. Fosse por isso, fosse porque a natureza assim procede, o pombinho logo dava arrulhos e cedo se emplumou. Já, já (percebeu a provedora, com certa angústia), chegaria a hora de voar e ela teria, então, de se despedir dele.

Esse dia chegou, afinal. A pomba, mais atarefada que nunca, desentocava o filhote na direção da luz e do abismo. Na beira da laje, ele se equilibrava com dificuldade, o corpo vacilante naquela espécie de bebedeira que toda vertigem sugere.

À janela, metade do corpo para fora, a velha acompanhava tudo numa tensão insuportável, maxilares cada vez mais rígidos e a fisionomia contorcida numa caratonha de pavor, porque o aprendiz tinha todas as possibilidades de desabar lá de cima para a morte certa. E não era justo, não era mesmo, porque mal nascera e só isso lhe dava o direito de viver; o bastante, ao menos, para deitar prole no mundo.

Mas a mãe estava atenta. Da laje para o fio elétrico, do fio para a laje, ela voava sem pressa, pedagógica, didática, com ênfase na técnica de mover as asas. Difícil, tudo. Mas ele teria de aprender ainda naquele dia, tomar seu rumo, encontrar sua turma e se haver por si mesmo até o final da vida.

Da laje para o fio, do fio para a laje, a pomba perseverava no ensinamento.

O filhote resistia, arrepiava-se inteiro à beira do precipício e, por isso, a senhora teve a esperança de que ele recuasse para o nicho e aceitasse, em definitivo, sua proteção. Mas ele não recuou. Cada vez mais ousado, embora sem coragem de desobedecer à intimação materna, o pombinho começou a bater asas e, nisso, levou incontáveis minutos, imitando os movimentos da mãe instalada no fio.

Depois de muitas tentativas, ele finalmente pulou. O espaço lhe dava todas as possibilidades: podia cair, podia subir, podia planar, podia seguir qualquer direção. Mas ele caiu! Alvoroçadamente, a mãe arrulhando num desespero de comover, ele bateu asas, mas não o suficiente para se manter no espaço. Por isso, caiu. Mas teve o mérito de se agarrar e equilibrar-se num fio abaixo do poleiro da mãe, que desceu em socorro a ele e retomou as aulas.

Num gesto inútil, mas irreprimível, a velha estendeu o mais que pôde os dois braços na direção do seu pequeno que, muitos metros distante dela, não a percebia, tinha olhos apenas para a mãe. Estendeu os braços para ampará-lo, para que soubesse que ela não o abandonara, que continuava preocupada com seu destino. E, lá no fundo, tinha ainda a esperança de vê-lo voltar ao nicho, aceitar seu colo e seu carinho, ficar com ela para sempre. Mas ele tinha perfeita noção de destino.

Menos assustado agora, tentou novamente. Houve certo progresso, porque, em vez de cair, deu uma volta completa sobre o local onde estava e retornou ao fio. A pomba e a velha exultavam. Mas era preciso mais, e a mãe o encorajava agora de uma árvore da praça. Foi, então, de vez!

Um grito de adeus subiu pelo esôfago da velha, mas ela fechou a boca numa mordida conformista: perdera seu filhote! Mais uma vez sozinha, sua pele franziu-se, ela inteira deformou-se de abandono como figura impressionista na moldura da janela, que ela fechou ao perder o papudo de vista.

Voltou, então, à vidinha. A sobrinha não vinha para pegar a enciclopédia, os filhos pareciam embrenhados no mundo sem volta das perdições e os vizinhos ... esses não a perturbavam mesmo. Fazia comida, comia, arrumava a casa, dormia. Fazia comida, comia, arrumava a casa, dormia. Fazia comida, comia, arrumava a casa, dormia. Fazia comida, comia, arrumava a casa, dormia. O de sempre.

Porque um conjugado tem dessas desvantagens. Espaço pequeno demais, tudo está sempre à mão, mas isso acaba dando a idéia, a sensação e finalmente a certeza de que se tem pouco e - pior! - de que se é muito pouco. A exigüidade induz a autocrítica.

E, se é pouco o espaço, a realidade, as constatações mais cruas tomam toda a área, e de tal forma que o morador quase não cabe ali, não tem como criar ilusões que reconfortam e permitem ir adiante. Por isso, a pessoa vive permanentemente esmagada, irredutível, na sua expressão mais simples, como uma coisa qualquer que cabe num lugar qualquer.

Não há, por exemplo, a possibilidade de passar de um aposento a outro para espairecer, para refugiar-se, para experimentar novas sensações e usar o corpo, ter consciência mais clara de que há um corpo e de que ele deve exercitar-se. Não, num conjugado não há tais possibilidades, a pessoa permanece pequena, sem a sua maior parte, a parte que sonha e sente e vibra e se emociona e que torna, afinal, tudo maior.

Certa manhã, no entanto, a velha conheceu novas perspectivas. Acordou antes do horário de costume com arrulhos e viu a pomba no parapeito da janela. O sol mal se infiltrava, àquela hora, pela pálpebra do horizonte, e o que ela divisou, de fato, foi o vulto da mãe vingativa, rancorosa que, pelo visto, voltara tantas semanas depois para um ajuste de contas, ou assim parecia.

Levantou-se, por isso, resignada como ré pronta para o veredicto.

No entanto, só ouvia arrulhos, e arrulhos de enternecedora doçura - logo percebeu. Não era a mãe, mas o filhote, agora grande e orgulhosamente emplumado como um comendador! Lindo! E voltara para visitá-la - a velha entendeu com olhos já úmidos.

Avançou, então, para ele com a mão estendida até a cabeça que se empertigava, como na infância, à espera do cafuné. Durou pouco o carinho, que ele logo voou, mas não para longe. Do parapeito saltou a um fio elétrico e, dali, arrulhou cheio de insinuações que só mais tarde a senhora entenderia.

Ele insistiu. Do fio, retornou ao parapeito, deixou-se acarinhar e novamente voou para o fio, onde batia asas graciosamente. A velha muito se riu da suposta brincadeira e imitou-o com os braços flexionados como se também ela fosse um animal alado.

O pombo voltou ao parapeito, passou o bico nela diversas vezes, voou para o fio, voltou, foi, voltou, foi repetidamente, e batia tanto as asas que a senhora entendeu, afinal: ele lhe ensinava a voar! Sim, seu filhote voltara para levá-la consigo!

E por que não? Se a neta não a queria, nem os filhos, nem os vizinhos ...

Mas o pombo que ela criara não a esquecera. Decidiu, então, ir com ele.

Antes da partida, deu uma geral no conjugado, desligou água, luz e gás, bebeu o último gole na moringa, arrumou seus trecos, colocou a enciclopédia na mesinha ao lado da porta (a neta podia aparecer para reclamar herança, nunca se sabe) ... e subiu na janela! Pés bem plantados no parapeito,

negociava com o abismo o necessário equilíbrio, sem se impressionar com a cidade que, estremunhada, bocejante, mal articulava ainda a sua imensa rede de ruas e de avenidas, sem desconfiar, nem de longe, do que estava para suceder lá em cima.

O pombo exultava, ia e vinha e batia asas, ia e vinha e batia asas, até que ela começou a imitá-lo. Foi, aos poucos, pegando jeito, adquirindo técnica, até perceber que chegara a hora.

De frente para as alturas, saltou por cima da cidade, ave trágica e sem bando, no momento em que o horizonte abria em definitivo sua pálpebra. Um olho fulgurante afinal surgiu e deu a primeira espiada. Mas nada mais viu.


DANIEL SANTOS
, carioca, 54 anos, jornalista, autor de "A filha imperfeita" (poesias, Editora Arte de Ler) e de "Pássaros da mesma gaiola" (contos, Editora Bruxedo).