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Acalanto
Sylvia R. Pellegrino
O mundo tem aspectos que por vezes desconhecemos ou esquecemos.
É uma idéia estranha pensar que podemos esquecer pequenas
lembranças da infância, até o momento em que nos deparamos com
uma realidade tão forte que nos transporta para aquele tempo.
Assim foi com Acalanto.
A realidade se instalou na minha frente. Observei aquele lugar e
senti repulsa, num primeiro momento. Voltei para casa decidida a
não trocar meu estado social por aquele local tão deprimente.
Há momentos em que a proteção sentida dentro do seu mundo é
balançada e você fica exposta à fatalidade e imprevistos. Aquele
era um deles.
Criei uma barreira, que me parecia intransponível. Mas a ponte
fora lançada e eu precisava atravessá-la. Não havia volta
naqueles tempos. Tudo me impulsionava para aquela aceitação.
Três meses depois lá estávamos, meu marido e eu, diante daquele
pedaço de terra, cercados por vizinhos de poucas posses, vivendo
a vida simples que me recordava a infância enterrada. Muito bem
enterrada, que agora explodia diante do quadro que minha vista
alcançava.
O terror se instalou, até que passei daquele estado ao êxtase.
Foram emoções encadeadas pela fantasia de transformar aquele
pedacinho de fim do mundo num paraíso.
Numa torrente de alegria me lancei ao trabalho de limpar o
terreno com a ajuda de um nativo. Enquanto ele carpia e limpava,
deixando a terra nua, os tabletes de grama iam sendo assentados
no terreno. O mestre de obra, contratado por baixo salário,
paralelamente ia transformando a pequena casa de dois quartos em
um belo e arejado chalé.
As treliças foram esmaltadas de branco, da cor das janelas de
madeira e do teto, contrastando com o amarelo canário da
casinhola, agora aconchegante e agradável. Os móveis, comprados
numa feira própria, estavam sendo lixados e patinados.Os
almofadados de um floral alegre recheavam os móveis de vime.
Tudo cheirava a tinta fresca. O jardim à volta da casa também
chegava ao seu final. Na entrada de duzentos metros, onde corria
a ladeira que ia dar na casa, foram colocadas as palmeiras.
Agora elas balouçavam suavemente à brisa da tarde e tudo
convidava ao descanso e ao acalanto do colo materno. O nome
surgiu assim, num repente.
A vida não pode ser encarada como um movimento de recuo – foi o
que pensei - olhando para aquela paisagem. Estamos sempre
caminhando em frente, descobrindo matizes dantes não revelados.
Aquele era um matiz de minha vida. Sobreviver era preciso. Meu
marido ainda se ressentia de ter sido despedido aos cinqüenta e
dois anos de idade, sem eira nem beira. A aposentadoria voara de
suas mãos por alguns anos apenas. O ajuste salarial recebido
fora todo usado para as reformas, esquecimento de lembranças
desagradáveis e a transformação de Acalanto. O meu minguado
salário de professora e o aluguel do belo apartamento na capital
nos sustentariam. O ambiente não incitava gasto extra. Tudo
seria medido dali em diante. Depois, era importante aquele
presente, que tornava a realidade mais palatável.
Os vizinhos foram se achegando devagar. Começamos, meu marido e
eu, a receber pessoas simples e o entrosamento foi sentido aos
poucos. A vida interiorana invadiu nossos seres.
A brisa noturna do verão e o céu forrado de estrelas amainavam
nossos espíritos, enquanto balançávamos nossos corpos molemente
nas redes engastadas nas colunas do avarandado. Conversávamos,
recordando passagens vividas. O convívio nos fez mais amigos e
confidentes, conforme os dias e noites iam se desenrolando. Já
não eram duas as redes. Apenas uma. Nossos corpos nus se
ajustavam sob o céu estrelado. A sensualidade aguçada pelo clima
tropical. Um encontro por inteiro.
Certo dia meu marido recebeu uma correspondência. Foi para um
canto e ficou olhando fixo para o horizonte. Acompanhei o olhar
e sondei o recorte da Serra do Mar. Esperei calma até que ele se
decidisse falar.
- Recebi um convite para trabalhar em Curitiba.
- É mesmo...?
- Sim...
- Vai aceitar?
- Não sei ainda. Preciso pensar. - Afastou-se e seguiu para o
bosque. Sentou-se naquele banco, onde gostava de meditar vez por
outra, e ali ficou pela manhã toda.
Era a época das férias escolares e eu segui minha rotina
cotidiana. Nada tinha pressa naquele lugar. Não seria eu a mudar
aquilo, apenas me adaptara. No início havia sentido muita
dificuldade. Agora, aquela angústia antiga não fazia sentido.
Eu o percebi ao meu lado.
- Acho que vamos voltar.
- Tem certeza?
- Tenho. Fui convidado para ser Diretor-Presidente de uma
empresa em alta expansão. O salário é melhor do que o anterior.
Preciso recomeçar, retomar minha vida.
- Retomar sua vida?
-...Nossa vida, se prefere assim. Não há sentido continuarmos
aqui se temos condições de voltar à vida anterior, aos velhos
amigos. Foi um tempo de sossego, de férias, pelo menos para
mim... – Olhou-me nos olhos e percebi a esperança brilhar nos
dele.
Aquiesci, sentindo uma dor funda no peito. Teríamos que deixar
Acalanto e tudo que ele havia significado para nós. ...Ou para
mim.
Os dias correram, aparentemente calmos. A venda se concretizou.
Voltamos a colocar nossas máscaras e o belo apartamento voltou a
ser ocupado por nós, após o distrato do aluguel.
Viagens para a Europa, conversas sobre mazelas brasileiras
indefinidas. Os amigos de sempre, que voltaram com o retorno à
situação econômica e social.
Acalanto ficou para trás. Uma bela lembrança apenas.O tempo se
encarregaria de torná-la apenas um borrão.
SYLVIA R. PELLEGRINO, pseudônimo de Silvia Regina Pellegrino
Freitas da Rocha, escritora e advogada. Natural de Rio
Brilhante, em Mato Grosso do Sul. Sua obra literária está
dividida entre contos, crônicas e romances. Tem três livros
(romances) publicados e participou com contos de quatro
antologias. É associada da UBE – União Brasileira de Escritores
e da REBRA – Rede de Escritoras Brasileiras. Consta da
Enciclopédia de Literatura Brasileira e da Wikipédia. Já
organizou e editou duas revistas: a Boletim Cult (entre 1998 a
2004) e a Estilo In (no ano de 2004).
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