A Lista

Claudia Lopes

- ...42. Flavinho; 43. Sérgio; 44. Gustavo; 45. Márcio; 46. Ederson; 47. Lúcio; 48. Plínio; 49. Flavinho; 50. Justo; 51. Fábio.
- Que lista horrível! - Lola me disse enquanto acendia um cigarro e fazia a sobrancelha ao mesmo tempo. O cigarro e a pinça dançavam nas mãos. - Justo não existe.
- Existe, sim, é o irmão do Bruno Lívio. - respondi.
- Bruno Lívio não existe.
- Ah, tá. Agora eu invento pessoas.
- De onde??
- Do festival. De cinema.
- Aquele alemão?
- Qual? Não, aquele é o outro Bruno. Eu nem fiquei com ele. E era da produção do Romualdo. - “Romualdo Incrível” era uma peça que produzimos no último semestre da faculdade.
- Bruno do quê?
- Sei lá.
- Tá, e esse?
- Esse Lívio?
- É. É de onde?
- Putz, já disse, do festival!
- Ah, não sei.
- Tá, não interessa.
- Tu ficou com esses aí mesmo? E por que o Flavinho duas vezes?
- Ah, Lola, isso aí tem dez anos, não me faz perguntas agora... Ninguém mandou ficar fuçando nesse monte de mofo.
- Mofo nada. Tua vida. - riu numa baforada. - a tua vida é que tá mofada. - E apontou uma gaveta minha que ela resolveu revirar pra achar a pinça.
- Se a minha tá, a tua também.
- A minha, não. Eu nem sei onde andam as minhas listas. Acho que eu nunca fiz uma lista. Pra que lista? Só tu mesmo pra fazer lista de quem beijou na boca.
- Eu tinha 20 anos.
- Retardada.
- Não, eu comecei com quatorze.
- E só parou aos 20? Por favor...
- Aos 22.
- Tá, mas pra que fazer lista?
- Sei lá, pra lembrar de todo mundo.
- E tu lembra?
- Hoje não mais.
- E parou no Fábio.
- Claro, eu casei com ele!
- Tá, casou e morreu? Já faz dois anos que vocês se separaram! Tu nunca mais beijou ninguém?
- Lola, eu tenho 31 anos! Tu acha que eu vou ficar listando quem eu beijo na boca?
- Listou até os 22! Não tem muita diferença.
- Tsc.
Lola largou a pinça. Alcançou o cinzeiro sobre a cômoda. Se jogou pra trás no sofá.
- Por que a tua vida parou no Fábio? Tu já notou que a tua vida parou no Fábio?
- Não parou.
- Parou, sim.
- Tu não listou mais pra não esquecer dele. Ele fica ali, como se fosse o último, o definitivo.
- Não é isso... eu nunca mais tinha achado essa lista.
- Então me diz: quem foi que tu beijou na boca depois do Fábio?
- Acho que foi o Rodrigo.
- Acha?
- Acho.
- E depois?
- Sei lá, não me lembro.
- E por que antes tu queria escrever pra não esquecer e agora não lembra dos mais recentes? Pra não esquecer o Fábio.
- Ai, Lola, tu tá me irritando com essa conversa!
- Tô irritando porque é verdade. A tua vida parou depois do Fábio, Paula! Nem trepar tu trepa!
- Lola, tu sabe que eu trepo! Ai, que coisa horrível, não sou macaca! - eu sempre odiei a palavra “trepar” - Tu sabe que eu transei depois que eu me separei. Não é mais como antes do casamento, quando eu tive outros namorados, mas transei.
- Ah, tá. Duas vezes por ano.
- Não! Com o Rodrigo foram mais vezes.
- Três.
- Não! - eu ri. - Eu não contei.
- Tu não conta mais nada, Paula! Nem homem, nem beijo na boca, nem trepada. Sabe por quê? Porque a tua vida perdeu a graça.
- Como assim?
- Claro! Antes tudo era novidade, beijar na boca era um acontecimento, um episódio que tu registrava. Agora, não. Agora, D.F., nada mais tem valor. Tudo é banal, tudo é...
- D.F.?
- Depois do Fábio.
- Tsc.
- É verdade, Paula! Olha pra mim. Não faz essa cara de que não é contigo!
Lola desencostou do sofá. O vestido preto curto subiu e deixou mostrar as coxas gordas. O cabelo dela era vermelho como uma cereja. As fivelas prateadas dos coturnos reluziam.
- Tu é uma adolescente, ainda. Eu também sou. Não temos culpa disso. Eu ainda me embebedo como eu fazia na época do DAFF. Tu ainda tem uma lista de homens guardada numa gaveta. E aí? Tu acha que eu tô errada? Eu pago as minhas contas, não dependo de ninguém e meu tatuador nunca me ligou pra dizer que meus cheques voltaram. Onde eu gasto meu dinheiro é problema meu. Mas e tu? Onde anda a tua lista? Onde anda a tua personagem da Malhação, apaixonada por um cara diferente a cada semana? A tua lista não precisa ser no papel, Paulitcha. Mas tem que estar viva aqui, ó. - e bateu no peito. - Tu ainda é a mesma menina que sempre vivia sonhando e não tem nada de errado nisso. Tu te sustenta, paga tuas contas e vive muito bem, obrigado.
- Obrigada.
- Obrigado, obrigada, sei lá. Nunca entendi a diferença. O problema é que o teu sonho virou um pesadelo de quase dez anos. Por que não colocar outros nomes D.F.? Assim, ele vai ser mais um. Que um dia talvez tu nem lembre mais.
Lola levantou. Guardou a pinça dentro de uma caixinha sobre a cômoda. Pegou a bolsa e parou na frente da porta.
- Eu te ligo de noite. - e beijou o ar.
E eu fiquei sentada na frente da lista. Acho que mais de uma hora.
Até que ouvi um sinal de recebimento de mensagem no celular.
Era da Lola.
E não são 51 até o Fábio. São 50. Tu contou o Flavinho duas vezes.

CLAUDIA LOPES, portoalegrense, é publicitária. Participa da antologia "102 que Contam", da oficina literária de Charles Kiefer.