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18 e 30
Eduardo Phillipe
"O autor, em sua obra, deve ser como Deus no universo:
onipresente e invisível" (Gustave Flaubert)
Uma garota pôs-se diante de mim e ali ficou a aguardar sua
condução. De certo, vinha da faculdade; trazia consigo um
fichário entre os braços. Um tanto reservada, diga-se. Não
arriscaria um único palpite sobre sua vida, seu humor, seus
gostos, enfim...
Era de um tipo encantador. Cabelos negros, compridos, lisos e
devidamente presos. A pele bem branca, delicada. Boca rosada e
um rosto suave. Suave, mas com traços fortes. Embora parecesse
nova, transmitia certa maturidade.
Era elegante. Tinha um porte elegante: nem muito alta, nem muito
magra. Uma mademoiselle.
Deixo bem claro que não estava a atormentá-la com minhas
velhices, as quais, em crises, é preciso dizer, costumam ser
tediosas às lágrimas.
Estava apenas a observá-la de uma distância, digamos, segura.
Talvez por alguns minutos. Talvez tenha se repetido por dias.
Isto não importa muito.
Eu não tinha intenções; apenas curiosidade.
Entretanto, curiosidade -- admito -- é o começo de toda
intenção. Ou, até de uma paixão, por que não?
Paixão, aliás, é aquilo que toda pessoa, com alguma noção de bom
senso, deveria rejeitar. Não apenas paixões entre duas pessoas,
mas em todas as suas vertentes e níveis. Assim como Proust, eu
entendo que paixão é apenas uma forma infernalmente patológica
do desejo. Gente apaixonada deveria procurar tratamento.
É bem verdade que, por vezes, tentei chamar a atenção da garota
em questão.
Uma notável falta de bom senso, portanto.
Tentei, é verdade. Porém, consegui apenas alguns poucos olhares
desinteressados, perdidos entre mim e o mundo às minhas costas.
Nenhuma novidade. O problema -- suspeito -- não é físico. Tenho
minhas mazelas estéticas, mas, modestamente, não sou dos piores.
O problema é que, na minha bagunça genética, não há combinações
para essa ciência da sedução.
Pensei em teorias, mas mulher é um bicho danado de imprevisível.
Pode até ser limitação minha, mas homem é assim. Cartesiano
assim.
Acontece.
Algumas coisas são realmente incríveis. Aliás, mais incrível que
ver Dan Brown e suas paulocoelhices fazendo sucesso, é ver uma
vida inteira durante o simples cruzar de dois olhares
desconhecidos. Uma vida que talvez pudesse acontecer. Ou, talvez
não. A certeza da dúvida é um dos sofrimentos mais deliciosos
que nos acometem quando fechamos os olhos e mergulhamos nessas
bobagens da imaginação.
Agora, só imaginação me resta. A condução chegou e a garota
seguiu seu rumo.
Seguiu sem eu, ao menos, perguntar-lhe o nome. Algumas conduções
nos trazem oportunidades, outras levam. É assim mesmo. Coisas da
vida.
EDUARDO PHILLIPE, 21, é paulistano e colunista no site
capitolio.org
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