Segunda ou terça-feira



      Preguiçosa e indiferente, vibrando facilmente o espaço com suas asas, conhecendo seu rumo, a garça sobrevoa a igreja por baixo do céu. Branca e distante, absorta em si mesma, percorre e volta a percorrer o céu, avança e continua. Um lago? Apaguem suas margens! Uma montanha? Ah, perfeito - o sol doura-lhe as margens. Lá ele se põe. Samambaias, ou penas brancas para sempre e sempre. 

      Desejando a verdade, esperando-a, laboriosamente vertendo algumas palavras, para sempre desejando - (um grito ecoa para a esquerda, outro para a direita. Carros arrancam divergentes. Ônibus conglomeram-se em conflito) para sempre desejando - (com doze batidas eminentes, o relógio assegura ser meio-dia; a luz irradia tons dourados; crianças fervilham) - para sempre desejando a verdade. O domo é vermelho; moedas pendem das árvores; a fumaça arrasta-se das chaminés; ladram, berram, gritam "Vende-se ferro!" - e a verdade? 

      Radiando para um ponto, pés de homens e pés de mulheres, negros e incrustados a ouro - (Este tempo nublado - Açúcar? Não, obrigado - a comunidade do futuro) - a chama dardejando e enrubescendo o aposento, exceto as figuras negras com seus olhos brilhantes, enquanto fora um caminhão descarrega, Miss Fulana toma chá à escrivaninha e vidraças conservam casacos de pele. 

      Trêmula, leve-folha, vagueando nos cantos, soprada além das rodas, salpicada de prata, em casa ou fora de casa, colhida, dissipada, desperdiçada em tons distintos, varrida para cima, para baixo, arrancada, arruinada, amontoada - e a verdade? 

      Agora recolhida pela lareira, no quadrado branco de mármore. Das profundezas do marfim ascendem palavras que vertem seu negrume. Caído o livro; na chama, no fumo, em momentâneas centelhas - ou agora viajando, o quadrado de mármore pendente, minaretes abaixo e mares indianos, enquanto o espaço investe azul e estrelas cintilam - verdade? Ou agora, consciente da realidade? 

      Preguiçosa e indiferente, a garça retoma; o céu vela as estrelas; e então as revela.

tradução de Roberto Schmitt-Prym

VIRGINIA WOOLF (1882-1941) Nasceu Adeline Virginia Stephen, em 25 de Janeiro de 1882, em Londres, filha de Leslie Stephen, primeiro editor do Dictionary of National Biography, e descendente de uma família da "aristocracia intelectual" da Inglaterra vitoriana. Virginia viveu em Hyde Park Gate com os pais, três irmãos e quatro meios-irmãos, até à morte do pai em 1904. A mãe morrera em 1895, sofrendo Woolf a primeira de uma série de crises depressivas que acabariam por levá-la ao suicídio, afogando-se no rio Ouse, no Sussex. Depois da morte do pai, Virginia mudou-se com os irmãos para Bloomsbury e mais tarde iniciou colaboração de recensão e crítica literária com The Guardian e depois com o Times Literary Supplement. Casou com Leonard Woolf em 1912. The Voyage Out, escrito em 1908, foi publicado em 1915 e Night and Day em 1919. Mas é só com Mrs. Dalloway ( 1925) (A Festa de Mrs. Dalloway, na Ed. Cotovia) e depois com To the Lighthouse (1927) e por fim The Waves (1931) que Woolf se afirma como a grande mentora do movimento modernista e grande inovadora no domínio da narrativa. No período entre as duas guerras, Woolf esteve no centro da vida literária inglesa, reunindo o chamado Grupo de Bloomsbury (o crítico Lytton Strachey, o filósofo G.E. Moore, o romancista E.M. Forster, entre outros) e trabalhando na escrita e na edição, tendo fundado com o marido, a Hogarth Press, onde publicou a maior parte dos seus livros. A Haunted House and Other Stories, para que Leonard Woolf escreveu uma introdução em 1943, reúne algumas histórias já publicadas na coletânea Monday or Tuesday, em 1921.