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da Teia Selvagem do
Mundo
Estávamos no Copo de Ouro, encarapitados nos tamboretes altos, com os cotovelos fincados no balcão.
Cerveja iscol bem gelada. Histórias de melancolia.
Novalis: "o homem é lírico; a mulher, épica; o casal, dramático."
Eu sofria.
Como se minha alma estivesse pelo avesso.
Estávamos no Hotel do Absurdo.
Nas minhas faces escorriam lágrimas. Eu me afogava no próprio ar que eu respirava.
Estávamos no Museu do Real.
Eu disse a Ele: - "Tu Te vais. Eu preciso aprender a ver a vida sem Ti."
A corda das minhas emoções esticada, distendida, a ponto de se romper.
Ele: - "Você sabe... eu preciso ir... tenho uma missão a cumprir... eu sou... Aquele que é."
Eu: - "Me empresta Teus olhos, para que eu possa ver a vida sem Ti."
Os filamentos de meus nervos se incandesciam. Ele me disse:
"A natureza virgem, há milhões de anos.
Nuvens cor de chumbo se adensam no espaço infinito do céu.
Ronca o trovão. Príncipe dos Roncos. Relampeja.
O vento agita as copas das árvores.
Chove.
A chuva cai em setas úmidas cujos pingos espaçados penetram na porosidade do solo.
Um cheiro bom e forte se espalha pela plenitude do ar.
Cheiro de terra molhada. Cheiro de estrume novo de herbívoros.
A chuva aumenta de ritmo e intensidade. Encharca as folhas dos arbustos e as plantas rasteiras. No lago, formam-se rugas de água.
Um mamute, solitário, permanece quieto, imóvel, sob as agulhas da tempestade.
Um jaguadarte ruge.
A natureza.
A natureza quer conhecer-se a si mesma.
A natureza quer ensinar seus ciclos.
A natureza quer testemunhas para a poesia do barulho uniforme da chuva.
Começa a engendrar o homem, a consciência da natureza.
Eu exclamei: - "Puta merda!"
E, em seguida: - "Mas Tu me deixares é sacanagem Tua."
Ele disse: - "Oh, baby, baby, it's a wild world. Estamos na world wild web. Estamos todos na teia selvagem do mundo."
Eu: - "Como Penélope, Te esperarei por vinte anos." Ele me disse:
- "A ordem atual da humanidade está para terminar. Seu fim será precedido de estranhas ações, coisas atípicas, resultados anormais, eventos insólitos, fatos mirabolantes, acidentes extraordinários, fenômenos raros, acontecimentos bizarros, ocorrências prodigiosas,
calamidades naturais, epidemias contagiosas, desgraças familiares desavenças conjugais, panes tecnológicas, debacles financeiras falências fraudulentas, crises econômicas, guerras
imperialistas catástrofes sociais.
Mas, um dia, despretensioso, surgirá nos céus um foco de it esmaecida.
Os mais atentos logo perceberão os sinais inequívocos é Revelação.
A luz brilhará, mais forte.
A luz brilhará, com um brilho fulminante, capaz de cegar, iluminar o caminho, até todos - nus, puros, humildes - estarem salvos para a Redenção."
Eu disse: - "Puta-que-o-pariu!"
OTÁVIO RAMOS nasceu e cresceu em Ouro Preto. Mudou-se para Belo Horizonte em 1968, quando começou a trabalhar com jornalismo. Autor de livros como, “Gibi”, “Juizo Final” e do recente “Pise devagar, você está pisando nos meus sonhos” e de “A Teia Selvagem do Mundo”.
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