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A teia muda da inexistência ruidosa
Nelson de Oliveira
"A Teia
Selvagem do Mundo", de Otávio Ramos
Edições Dubolso, 136 páginas
Deixem de lado o bom senso. Não vivemos mais sob a espada das normas, das leis, dos códigos de conduta. A Utopia é aqui-agora: as tábuas de Moisés foram destruídas, fizeram tábula rasa do Código de Hamurabi. Sempre imaginei que onde houvesse normas haveria os anormais, os quebra-regras, os fora-da-lei. Mas os demagogos-gagos e os imbecis-passivos estão cacarejando aqui, ali e acolá que a transgressão morreu, que a Resistência deixou de existir e de resistir há décadas. Logo, se não há mais estelionatários, seqüestradores, traficantes e transgressores de todas as cores, isso é sinal de que não há mais leis a serem transgredidas. Mas, por Zeus, se a transgressão deixou de existir há tempos - Então o novo livro do Otávio Ramos não existe!? Tampouco as duas editoras que se juntaram para publicá-lo. Menos mal, sempre achei mais prazeroso escrever sobre os livros inexistentes. Culpa do Borges, reclamem com o ceguinho-portenho. E minha biblioteca? Tenho medo de olhar para trás, tenho medo de descobrir que estão vazias. É, peladas, as estantes que eu julgava abarrotadas: prateleiras desertas do sonho idiota, da doce ilusão-de-óptica.
Otávio Ramos não brinca em serviço, sem frescura alguma prepara sucos-gástricos (pimenta no terceiro olho dos outros é refresco) e socos na boca do estômago. Sua prosa da deformação - O juízo final e Pise devagar, você está pisando nos meus sonhos, por exemplo - são farelos da realidade compostos eletronicamente em linha reta, impressos e encadernados. Farelos de pimenta. E A teia selvagem do mundo, tecida pelas Edições Dubolso em parceria com a Ciência do Acidente, é a quintessência desse farelo. Os protagonistas-equilibristas desse livro-tela passeiam por muitas cordas-bombas, por diferentes paisagens-teias: ora emprestando o corpo e a voz para um roteiro de documentário-cabeça, ora desfilando comentários nas folhas soltas de um bloco-blog, ora treme-tremendo no terremoto-perpétuo das prateleiras de um supermercado.
A coletânea é o entrecruzar-se de cinco narrativas: Love streams, Os morros, A teia selvagem do mundo, Sol saído e Pedra menina. Boa parte dessas narrativas é o entrecruzar-se de outras tantas. Mas não esperem pela resenha do novo trabalho do Otávio Ramos. Não aqui. Resumir-desenhar esse tipo de livro-livre - tipo-típico de livre-arbítrio -, simplificar-mastigar o lero-lero dessa vida-víbora, rabiscar a sinopse das novas-narrativas do autor mineiro, é empobrecer seu trabalho intelectual e compactuar com a lógica tacanha dos press-releases. É trair a revolução permanente (será que ela morreu mesmo e só eu não vi o caixão passar?). Melhor do que resenhar-errar é simplesmente costurar-no-alvo os diversos links dessa world wide web - world WILD web, para os menos íntimos. Bernardo, um dos personagens d' Os morros, confessou: "Queria escrever um livro composto de fragmentos imprecisos, feito de traços apenas sugeridos, flashs, ensaio quase displicente de um texto que poderia ter sido e não logrou ser. Um livro como se fosse o trailer de um livro.". A teia selvagem do mundo, livro-lixa, é a realização desse projeto.
Otávio, nessas e nas demais páginas-marginais que já publicou, mostrou-se disposto ao risco. Sendo dos que arriscam sempre, as formas canonizadas-convencionais não lhe agradam muito. No corisco-risco está o valor dos acertos e o desvalor do que, não sendo acerto, nem por isso pode ser considerado erro, devendo ser chamado apenas de o-que-não-é-acerto. Nessa categoria eu colocaria as várias narrativas entrecruzadas dentro da primeira narrativa: Love streams. As linhas a respeito de Tobey, perturbador pintor abstrato estadunidense, que antecedem essas narrativas, não encontram paralelo à altura na linhagem simples, no linguajar pouco profundo do escritor Andrei Skovski, da caixa de supermercado, do trio Joe-Susan-Helen e do terremoto. Na categoria do-que-não-é-acerto eu colocaria ainda Sol saído, pelos mesmos motivos: a falta de sofisticação na beirada do poço raso.
Já Os morros, A teia selvagem do mundo e Pedra menina são outra história. Aqui a invenção corre solta, chupa-chupando pastilhas de humor-amor nas entrelinhas. Os trocadilhos rápidos-no-gatilho se reproduzem a três por quatro, as citações-situações saltam dos ladrilhos do nonsense. Os comentários-imperdíveis do quarteto-fantástico infantil Aquiles, Bernardo, Dália e Amanda são impagáveis em dinheiro ou em ouro. Mais impagáveis ainda são os programinhas com as duas gatas-grotas da vida-vácuo, Gena e Dália (genitália?), putas-dublês de Rhonda Fleming e Jean-Seberg, ponto alto do delírio-livro, que termina com o exercício-de-descrição em torno do pico do Itacolomi (que conheci ao visitar Ouro Preto). Vale muito o passeio pela teia-barroca da velha Vila Rica e pela transa-transgressora do novo Otávio Ramos. Mesmo que para a grande imprensa-apressada, que no último fin de siècle se esqueceu de rever-e-revelar o sentido contemporâneo do termo transgressão, esta já não exista mais.
NELSON DE OLIVEIRA nasceu em Guaíra (SP), em 1966. Mestre em Letras, pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, defendendo dissertação sobre os romancistas Campos de Carvalho e António Lobo Antunes. Entre 1998 e 2001 colaborou regularmente, com resenhas de livros, no caderno Prosa & Verso (O Globo), no Caderno de Sábado (Jornal da Tarde) e no Caderno 2 (Estadão). Atualmente colabora no Idéias (Jornal do Brasil), no Pensar (Correio Braziliense), no Rascunho e na revista Bravo!. Publicou "Naquela época tínhamos um gato" (Companhia das Letras, 1998), contos, Finalista do Prêmio Jabuti de 1999; "Os saltitantes seres da lua",
(Relume-Dumará, 1997), contos e em 2004 publicará o livro de contos "Sólidos gozosos & solidões geométricas" (Record). Organizou ainda as antologias "Geração 90: os transgressores" e "Geração 90: manuscritos de computador" para a editora Boitempo, em 2001.
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