ilustração: Nello Nuno
  

 

 

Sopros de ampulheta


[dez] Dirige uns quilômetros, encosta. Uma rajada de vento atinge a lataria do carro, a água do mar chacoalha dentro da garrafa plástica. Sente que não conseguirá prosseguir. Outra rajada, e mais outra. Sente que não conseguirá esquecer. [nove] É noite. Sem redemoinhar, uma lufada brusca e contrária o atinge, cobrindo-o de areia (os grãos miúdos grudam na pele). Ele volta pro carro, manobra apressado, arranca em direção a Porto Alegre. [oito] Pronto!, ele a solta julgando-se infalível, viu? Não foi nenhum monstro de sete cabeças. Homem estúpido!, antes os monstros... vira-lhe as costas e se deixa levar pela ventania. Ele fica parado. É quase noite. Os contornos dela se desmancham na crescente escuridão (algo mais que distância a desfaz). Ele aguarda. Grita por ela. Aguarda. [sete] Pelo amor de Deus, o que tu vai fazer? Hoje, tu vai perder essa fobia boba. Como meu avô dizia, nada nesta vida é por acaso, ele pára o carro, sai. Ela tranca a porta por dentro. Ele destranca com o controle remoto, segura sua mão (estranha a aspereza): um dia vamos rir disso tudo, conduzindo-a até quase a beira do mar. Tu não tem idéia do que está fazendo, ela resmunga sem resistir. [seis] Ele surge, limpando as mãos em lenços de papel, diz estar tudo resolvido, caminha até o carro, abre a porta, ela vem correndo, fica encolhida no banco do carona. Ele dirige até a praia, ela está de olhos cerrados (não percebe). Vou te contar um segredo, quando menino sentia um medo enorme do escuro; uma noite, estava na casa do meu avô e faltou luz, sabendo da fobia, ele aproveitou, pegou-me pela mão e me levou ao quintal, disse para eu respirar fundo que o medo passaria, e passou. Os olhos dela abrem, as pupilas quase rebentam a íris acinzentada. [cinco] Seis horas, ela desperta sem dar-se conta do quanto cochilou. O céu está nublado, o vento nordeste sopra com força. Vamos embora, diz aflita. Ele surge na porta: só mais quinze minutos. Maldita hora, ela se põe de pé, olha através da janela, maldita hora. [quatro] Perde mais tempo do que pensou, uma das peças não está encaixando. São exatamente quatro e trinta e dois. Ela aguarda na recepção. Ele aparece na porta, pergunta se ela não prefere sair, aproveitar o resto de sol. Está começando a ventar, é a única resposta que recebe. [três] Chegam à praia (não há uma brisa sequer), ele estaciona em frente ao mar e a acorda. Ela boceja, abre a porta e sai, caminha até à beira. Ele vai ao seu encontro, convida-a para molhar os pés, ela recusa. Caminham em direção ao norte. Ela toma a dianteira, pára sobre uma pequena duna, há uma garrafa de água mineral enterrada ali, pede-lhe para enchê-la até a metade com água do mar, quero levar de lembrança. Ele atende o pedido. De volta ao carro, ela ajeita a garrafa atrás do banco do motorista. [dois] Ele diz que pesquisa as variações eólicas no litoral, ela diz ter nascido no litoral. Ele pergunta como alguém pode ficar meia hora de pé numa livraria, olhando a mesma página dum levantamento fotográfico sobre a ação das ventanias no hemisfério... Medo, ela o interrompe. Como? Medo, pavor... Nos dias de ventania não suporto sequer olhar pela janela... o balançar dos galhos, as rajadas contra portas e paredes me aterrorizam. O sinal fecha, ele freia: pode parecer loucura o que vou propor, mas, nesse exato momento, estou indo até o litoral trocar as peças dum gerador gráfico que fundiu... o dia está lindo, não irá ventar... gostaria muito que tu viesse comigo. Estaremos de volta antes das quatro. Não posso... apesar da saudade que sinto do mar, é arriscado, ela responde. Não ventará, garanto. Ela pensa... concorda, pede pra ele ligar o ar-condicionado e não descer os vidros enquanto o carro estiver em movimento. Seus olhos acinzentados contrastam com a luminosidade do dia e logo se fecham para dormir. Não trocam palavras durante a viagem. [um] Sai de carro pela Lima e Silva, ela está na parada de ônibus, oferece carona, ela aceita. [meio-dia] Entra na livraria, pergunta à atendente sobre o álbum que encomendou. É o que está com a moça ali de pé, ela responde sem desviar os olhos da tela do computador. Ele escolhe um catálogo qualquer no balcão, folheia. Os minutos passam, ela continua lá: no mesmo lugar, com aquela expressão de agonia no rosto. Meia hora de espera. Sem constrangimento, passa a observá-la. Vestido de seda cor da pele, sandálias rasas de tiras verdes, tão irregulares e delicadas que parecem tatuadas ao redor dos tornozelos. Enfim, à mercê do próprio abandono (ele pondera consigo mesmo). Ela fecha o álbum abruptamente, assustando-o, vem em sua direção, e, sem lhe dirigir o olhar, bem próxima, surpreende-o: não acredito que uma pessoa espere todo esse tempo por algo que poderá não sair mais das mãos da outra, estende-lhe o álbum, ele segura com as duas mãos. E se eu tivesse comprado?, ela pergunta e lhe vira as costas. Teria valido à pena do mesmo jeito, responde meio embolado. Então, espero que faça bom uso, ela abre a porta e se vai.

PAULO SCOTT é autor do livro de poesia "Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimento dos monstros" (Sulina, 2001); com a ajuda do músico Flu e do desenhista Fábio Zimbres, criou o cultuado evento literário de Porto Alegre ´PóQUET: rUÍDO & LITErATUrA >>> ESCRITORES QUE TOCAM – MÚSICOS QUE ESCREVEM <<<´. Recentemente lançou o livro de contos "Ainda orangotangos" pela editora Livros do Mal.