 |
 |
|
Ilustração: Portinari |
|
|
Seis contos canhotos
Fominha
Pelada de meninos. Bate-boca pela bola:
- Passa a bola, fominha!
O fominha não passa. Arrisca o drible, dá voltas, se enrola, chuta em gol: fora. O outro se irrita:
- Tá vendo? - diz, dentes à mostra. E rosto a rosto: babaca. O fominha devolve:
- É você, otário.
O otário quer brigar. O fominha o empurra, ele tropeça, cai de costas, o baque. Os demais, até ali parados, despertam:
- Bateu a cabeça - forma-se a roda.
Leva a mão ao cabelo do outro, molhado, e nota: sangue.
Correndo pra casa, o tempo some. Na bica, térreo do prédio, lava as mãos, ávido, esquecido das interdições do porteiro Messias, que proíbe o uso da torneira. Messias: a carapinha branca, a memória dos escravos. Ele chega, dentes falam:
- Que foi? - sentindo a agitação do garoto.
- Briga.
O velho ri. Sério quando vê o sangue.
Tempo. No confessionário:
- Padre.
- Hum.
- Acho que matei um homem.
O padre acorda. Após ouvir a história, pede que volte para terminá-la:
- Não houve nada.
Angústia, sim. No entanto, ele está quase feliz: pela primeira vez tem um pecado de verdade, dos grandes.
Um mês sem ir à rua onde rolara a tragédia. O Sérgio sádico:
- O Dudu tá em coma - saboreia o pânico na sua cara.
Belo dia, vê o amigo, saída do colégio, a mãe do lado. Treme. Mas nem sinal de seu crime. Aproxima-se e, piscando os olhos, dispara o discurso de desculpas. A moça o mede e compreende devagar, surpresa com sua lógica: não só se isenta de culpa como a atribui inteiramente ao outro. Impaciente, corta:
- De morte. Acabam provocando uma desgraça - sai levando o Dudu pelo braço.
Em volta, gritos e o corre-corre do pátio.
Dermatologia
No consultório:
- Pode entrar.
Andava com uma coceirinha chata, fora ver o dermatologista.
- Antecedentes? - o médico, após tê-lo convidado a sentar-se.
Lembrava alguns. Sim, a namorada havia lhe passado a coceirinha - acreditava - que, agora, não passava. Pequenos caroços sob o saco. Debaixo dos braços. Na coxa. Barriga. Por toda parte: coçava.
- Vamos examinar. Entre aqui.
De uma sala a outra. O médico possuía uma voz aguda, ondulada, era atencioso.
- Tire a camisa.
Os braços percorridos pela lupa.
- Coça aqui?
- Mais aqui.
- E aqui?
- Coça.
Isso o excitava.
- Baixe a calça.
Esforçava-se por esconder a ligeira ereção, constrangido.
Afastou o pau meio duro e mostrou os carocinhos que o incomodavam.
- Aqui? - o doutor puxava a pele de seu - permitam - escroto.
- Sim.
Podia subir a roupa. Era sarna.
Sentaram-se, de volta à sala em que se iniciara a entrevista. O homem baixo, meio calvo, gordinho continuava a falar do parasita que criava o problema, os modos de evitá-lo, os cuidados. Ele não escutava, a excitação permanecia mesmo sob a ducha daquela fala objetiva.
Na porta:
- Então, até logo. Daqui a uns dias você volta, vamos ver se passou.
A receita na mão. A ousadia de quem salta:
- Posso te fazer uma pergunta?
- Claro.
- Você me examinaria novamente? - acentuou as aspas.
Um curto instante e:
- Vamos lá - a porta, fechada.
Estavam sós.
De novo na sala de exames. O médico olhou-o, autorizando a repetir os gestos que fizera há pouco. Lento, valorizando-se, tirou a camisa. O médico recomeçou a pesquisa. Chegou muito perto, um perto de míope, passou a mão por entre os pelos pretos e crespos de seu peito, procurando suavemente alguma coisa.
- Um instante.
Saiu e voltou com a lente de aumento. "Esse cara é maluco." O novo exame dava-se literal, até com mais minúcia.
- De costas.
O olhar percorrendo de leve seu corpo era de uma energia serena e atenta. Baixou espontaneamente a calça.
- Nas nádegas, nada.
Pausa.
- Agora, vire de frente.
O grande momento. As veias. Os veios. O doutor abaixava-se, safári na áfrica, explorava outra vez a pele do saco, tocava-a com a pontinha dos dedos, num cuidado tenaz, de inseto. O rapaz estendeu a mão - quase misericordioso, afresco renascentista - pousando-a sobre os cabelos ralos e lisos do outro. Este levantou-se, reagindo à carícia:
- Pronto, está super-examinado.
Sala-escritório. O ruído da rua entra pelas janelas abertas. Os dois conversam.
Xampu
- Me larga!
Em frente à farmácia, o garoto grita, preso pelos pulsos por um homem de jaleco branco.
- Me larga!
Outro homem, que passa, pára; pergunta o que há, pede que soltem o garoto. O de jaleco mostra as gengivas:
- Não te mete! Sai fora.
O dono da farmácia vem de dentro da loja com a mesma expressão no rosto e a mesma frase na boca:
- Não sabe o que ele fez! Sai fora.
Irrita-os pensarem que estão sendo injustos. O moleque, na presença de alguém a seu favor, apela:
- Socorro, moço!
Um quarto homem surge do nada, apresenta-se como lojista e declara:
- Se é na minha loja, dou porrada.
O passante tenta argumentar e engole:
- E ninguém faz nada. Sai fora.
O menino furtara. Ou melhor, tentara o furto, rendendo-se ao fascínio do xampu. Visto, apontado e pego, urra como se fossem matá-lo, terror talvez de ir parar na polícia: o dono da farmácia telefonara. A cola tóxica, largada na pressa da fuga, jaz nas mãos do comerciante, plástico amarrotado e sujo.
- Esses meninos não têm culpa - discursa o passante, que não reagira às hostilidades: o orgulho lhe ditara duas ou três respostas que ele reprime. O garoto, arrastado para o fundo da loja, continua a gritar. Seu defensor entende a indignação dos lesados e se oferece para pagar o prejuízo... O comerciante recusa, o dano é moral.
- A culpa é do Estado - insiste o popular enquanto espera, ao lado de outros, a chegada da polícia. O da farmácia, mais calmo, assente:
- Falta estrutura.
O clima punge, a polícia tarda. O comerciante, instado pelas razões do passante sensível - ou pelas considerações práticas de outro espectador, que alerta para "uma vingança" -, decide soltar o moleque. O funcionário o traz do fundo da loja. Garoto de uns doze anos, moreno, cabelo curto. Está sujo, olhos esbugalhados de choro. Na calçada, seu algoz o larga. O menino se afasta, tonto, uns metros; cata no chão uma pedra, ameaça jogá-la, xingando. Joga.
A perseguição recomeça. A caça e os dois que a perseguem atravessam a rua de automóveis indiferentes. Além do homem de jaleco, um pipoqueiro das redondezas empenha-se na corrida. Aparenta a mesma indignação dos da farmácia.
Vem o moleque, trazido de volta, exausto. Aqui, o passante comete seu erro: na ansiedade de obter a confiança dos presentes, formula instantaneamente uma tática e, mal o menino chega, berra:
- Te levo daqui e você não volta mais, viu, moleque? - exibindo autoridade.
O garoto, ao som da voz dura, desfalece, desmonta, cai, despenca das pernas, literalmente desmancha: na queda oferece, como um cristo, os pulsos - o adulto em frente a ele agora - como a pedir que o prendam e o livrem do tombo. Geme sem articular palavra.
O homem ajuda o menino a levantar-se. No bar próximo, "me paga uma água", a mineral sem gás e sem gelo. Andam alguns metros, afastam-se um do outro e, olhando-se de longe, seguem para lados opostos.
Antes do samba
No ponto de ônibus, duas mulheres conversam.
O tom sóbrio da roupa que vestem confirma que são estrangeiras. Ambas negras, falam inglês.
Instintivo, aproxima-se o só-sorrisos, lépido, vindo da outra margem da pista. Elvis das vielas, Jim das selvas nacionais.
- E o samba? - ensaiando o passo de marchinha.
Elas se entreolham sem resposta.
- Não sabem sambar? - a festa na sexta-feira.
Elas riem, trocam interjeições inglesas. O baixinho abre os braços generosos:
- Gosto de ficar à vontade. Nu. Nuzinho, no samba.
O cara as diverte mas as deixa tensas. Na dúvida, sorriem.
- Morenas. Vocês morenas, bonitas.
Riem lisonjeadas. Falam. Tenta tocar uma delas, a moça recorre:
- Não gosto - diz com sotaque - estrangeiros me toquem.
Faz o chato de galochas. Quando aparece outro homem, jovem, negro, aparelho de música nos ouvidos:
- Que é que ele quer? - poliglota.
Explicam que apenas está um pouco bêbado.
- Pouco? - duvida simpático. E começa a bater papo na língua das duas, marginalizando o Macunaíma.
Tarzan despido e desarmado puxa conversa com o observador: ele o conhece de lá onde trabalharam os dois.
Fala bacharel - a expressão é outra. As mulheres embora, não há mais pretextos, a alegria congela-se.
- Vai levando. Tenho sido e tenho estado. Os segredos são poucos: ser feliz contra todas as probabilidades.
Não era.
Assim se faz literatura
Gritos vindos não de muito longe, berros. Não se sabe se a voz pertence a mulher ou a homem, aguda mas pesada. Homem-mulher capaz de fazer vibrar o ar ao som de sua voz. O que diz não se percebe claro, mas grita sobre outra voz, menor, que se percebe aos poucos.
Agora se começa a ver: mulher de voz enorme ameaça e amaldiçoa marido relapso. Parecem à beira de um crime. Fala áspera, negra-blues enlouquecida, toda a quadra pode acordar como se fosse a noite do juízo.
A cada frase responde matematicamente o estrondo terrível, mão sobre madeira, mão sobre as costas do miserável marido que a mulher não permite que durma. Então se escuta, ela faz a comida, eu faço a comida, arrumo tudo, as horas amenas e amorosas e ele não entende, não respeita, ela não admite. Mais urros, mais murros e a voz pequena apela para a sensatez, vão escutar no prédio em frente. A cena, diga-se, dá-se num barraco que se sustenta em meio a construções de classe média. Ela não quer nem saber, quem quiser que chame os homens, o desafio momentaneamente voltado para as janelas escuras, as varandas vazias.
Instantes de calma se alternam a explosões de raiva, onde é que você estava, numa dessas o olho na janela escura - o poeta sanguessuga - vê a chama da tocha e o crime que se desenhava parece prestes a se realizar. Notícia.
Alguém que conhece o casal intervem e evita a agressão ou incêndio. O homem aos poucos revela-se menos fraco mas seu tom é sempre paciente, sempre lento e persuasivo. A mulher quer saber onde ele esteve, ela até aquela hora à espera e ele, nada. Com que piranhas se afogava. Em que lugar deitara o canalha, ela de vítima a aspirante a assassina. O dia aos espasmos, nascendo, libera os contornos da casa onde a confusão não cessa. Há uma fogueira, na área próxima, que arde contra o frio, dela saíra a chama da tocha dançando em círculos. O homem pede a atenção da mulher para a figura que observa a briga doméstica, fazendo dela espetáculo. Novas ondas de rancor contra o prédio de seis andares, seis apartamentos por andar, garagem, em contraste com o barraco de tábuas indigentes, telhas vadias e casuais. Quando chove, a água corre serena por entre os móveis, as tralhas.
O olho na janela, agora clara, some deixando a luta inacabada.
Coisinha
Há esquinas em Brasília. Parou o carro numa delas:
- Quer dar uma bolinha?
A menina sorriu indecisa:
- Estou fazendo programa.
Insistiu:
- Uma bolinha no carro. Depois te deixo aqui de novo.
- Tá - ela resolveu. E já a seu lado: - Não é só porque estou fazendo programa que não posso me divertir.
Sorriu aprovando a iniciativa, arrancou. Mas logo teve medo: ela parecia vir de outro mundo. O riso era estranhamente puro.
Combinaram que pararia o carro na quadra próxima, onde morava, ela esperaria enquanto ele fosse apanhar a coisinha.
- No carro?
- Por que não?
- Você vai confiar em mim? - questionou risonha.
Ele pensou melhor:
- Você espera fora do carro - propôs com cuidado.
Seguiram. Parou o Fiat longe dos olhos do porteiro, pediu que saísse e esperasse no banco próximo:
- Tem um banco logo ali.
- Tá - o riso retiniu.
Subiu. Um pouco nervoso, perguntava-se com quem se metia. De volta, sentou-se a seu lado:
- Moro aí - apontando o prédio em frente.
- Então vamos. A gente deve respeitar o lugar onde mora, Deus castiga se a gente não respeitar.
Não entendeu. Ela explicou:
- Se a gente não respeitar os outros.
Boa moça - ou se fazia de. Mas estava mais tranqüilo: parecia boa.
Subiram o leve aclive na quadra, passaram pelo bloco vizinho. A caixa de fósforos em que dormia a baga foi passada à garota. Isqueiro, sirva-se. Ele queria era companhia, como sempre. Disse a idade, 45, não parece. Perguntou a dela, 24. Soube que tinha alguém:
- Não é só porque estou fazendo programa que não posso ter um namorado.
- Claro.
Contou que o rapaz fazia programas também. Com mulher e com homem?
- Ah, ele come - resumiu, achando graça.
Tinha dois filhos: grávida de mais um, mostrou a saliência. Os dois garotos, gêmeos, eram filhos de um coronel do Exército, onde trabalhara. O homem tivera um caso com a menina, a mulher descobrira - e exigiu que a mocinha fosse expulsa da caserna.
Um pouco chocado com a história, quando ela completou:
- Ele assumiu as crianças. Ele cria.
A mulher do coronel tinha aceitado?
- Aceitou, ela é seca - definiu com rancor.
Raramente via os filhos.
Enquanto andavam, ela ia executando o bagulhinho.
- Você estuda? - sinceramente interessado.
- Estudar pra quê? - disse com desprezo. Tinha tido uma vida espantosamente difícil: - Com 15 anos eu olhava carro nessa quadra. Comi muita comida no lixo.
Lamentou, solidário, as passagens que só podiam ter sido sofridas. Ela minimizou os estragos:
- Mas as comidas eram boas, tudo limpinho, higiênico - garantiu.
Deve-se dar graças a Deus, não queria outra vida.
Chegavam ao destino, tinham dado meia volta na quadra. Contou ainda que aos 13 fora morar num acampamento de soldados. Nem sabia que ali trabalhavam militares. Mas ficou e achou ótimo:
- Eu dava pros soldadinhos.
Quis que quantificasse a coisa:
- Dei pra todos - riu. E, no mesmo tom, completou: - Foi muito bom.
Beijo no rosto da menina. Na calçada a irmã mais nova, estreante na rua, a esperava reclamando da demora.
FERNANDO MARQUES é jornalista, doutorando em literatura brasileira na Universidade de Brasília com projeto de tese sobre teatro musical. Publicou Retratos de mulher (poemas, Varanda, 2001) e Zé (teatro, Perspectiva, 2003). Autor das canções do show Samba do amor omisso (Brasília, 2001) e da peça Últimos. Prepara livro que deverá chamar-se Contos canhotos.
|