A forma e a fala
Paulo Bentancur

"A cabeça" de Luiz Vilela
Cosac & Naify, 136 páginas


           O conto é um gênero breve, aparentemente econômico, porém difícil, complexo mesmo. O conto se nutre sobretudo da fábula. Narrada a fábula, tem-se o conto. E pronto. Mas há outros elementos que com o tempo foram fazendo o conto. A atmosfera - opressiva e espectral em Poe e diluída numa espécie de distração em Tchecov. O diálogo, elíptico e com cara de banal em Hemingway. Esse último elemento, o diálogo, que parece menos nobre e mais prosaico, serve antes ao romance que ao conto, mas sendo fala (apenas uma de suas convenções), é indispensável e empresta à ficção algo como um atestado de autenticidade da personagem. Falando, se de forma convincente, aquele que protagoniza a cena é desenhado mais que numa caprichada descrição.
           No Brasil poucos sabem escrever diálogos. Não é fácil. País de Rui Barbosa, temos um bruto pendor para o discurso, para a ênfase e o exagero. Falta-nos a objetividade e a secura dos norte-americanos, por exemplo. O irônico é que temos um povo afetivo, loquaz, rueiro. E ir à rua significa encontrar conhecidos, amigos, e daí à reunião e um, dois, três dedos de prosa.
           Claro, há exceções nessa nossa quase inexplicável timidez literária diante do diálogo. Luiz Vilela é uma delas, talvez a maior. Quem duvidar que leia A cabeça, seu mais recente volume de contos, lançado no final de 2002, a marcar 35 anos de sua estréia (com Tremor de terra, em 1967).
           Vilela não faz psicologismo nem se atira afoito ao cenário e nem mesmo à própria situação, que deixa desenhar-se através das palavras muitas vezes desviantes dos protagonistas. Afinal, que dizem esses tios, sobrinhas, transeuntes, filhos? Frases vagas, aproximativas, e aqui e ali uma que outra sentença mais pronta. Entretanto, mergulhada nessa quase sonsa forma de narrar - que de sonsa não tem nada, antes muito pelo contrário, é honesta, apostando na única voz real, a de gente que olha através da janela e comenta sobre o tempo -, escondida em meio ao disfarce de um discurso despretensioso (e é essa despretensão seu maior tesouro), surge, sem que o leitor se dê conta, uma emoção sem aparas, quase brutalizada porque não há a mínima contemplação do escritor.
           Sem interferir, ele nos deixa entregues à natureza casual da trama, a uma natureza, à primeira vista, pouco literária. Não há show de belas-letras nem exibição verbal a distrair-nos do nervo onde a dor da história se instalou.
           Vilela é um mineiro que ajudou a fazer a década de ouro do conto brasileiro nos anos 1970. Publica pouco (há oito anos não lançava nada), o que deve significar que escreve parcimoniosamente e reescreve muito. E seus contos são exemplares sobretudo por essa limpeza sem artifícios, por uma capacidade invejável de não cair nas armadilhas que o próprio estilo, seja ele qual for, impõe mesmo àquele que o criou.
           A cabeça reúne dez contos, começando por Mosca morta - quer início menos promissor? Uma noite de chuva num bar onde um homem, tentando apagar seus fantasmas (que não conhecemos), bebe em silêncio. Súbito, chega um homem, Toledo, que o conhece e o perturba. O homem vem de longe. Provoca-o de forma tão sutil que somos impelidos a pensar em tudo. Alguma traição? Um ato de homossexualismo do protagonista, Bento, que teme a denúncia de Toledo talvez sabedor das aventuras escusas do protagonista, casado e tudo, ato que ele parece sublimar numa vida de mosca morta? Ali, bancar o mosca morta (expressão popular que serve tão bem ao universo lingüístico do autor) pode ser uma eficiente estratégia de fuga. Pode, muito bem, tratar-se de algum negócio que beneficiou a Bento e faliu Toledo. Mas parece que nada foi provado, nada ficou claro - como na vida fora das palavras -, e comentários de terceiros ensejam quem sabe uma busca, quem sabe uma perseguição, não declaradas.
           Com a chuva, uma mosca entrou no bar. O forasteiro, que diz todo o tempo que estava com saudades (ironizando talvez), que avisa que veio de longe e não vai aceitar a desfeita de não ser bem recebido, declara-se incapaz de fazer mal sequer a uma mosca. E a pega no ar, soltando-a morta. "A menos, é claro, que a mosca esteja enchendo a minha paciência".
           Trata-se, óbvio, de um jogo de paciência. De uma acusação oculta, que não vem à tona e tortura a Bento e, de certa forma, ao leitor. O protagonista, aliás, deixou crescer um bigode (disfarce?). O forasteiro observa que assim ele ficou mais homem. Quando Bento faz menção de ir embora, depois de passar o tempo todo respondendo de forma quase monossilábica, repostas interrompidas num único momento por uma explosão em que acusa aos demais de calúnias, o forasteiro o convence a sentar-se e beber mais. "Ótimo. Assim é que eu gosto", diz, dono absoluto da situação. E o conto termina. Importa de qual fato se trata, além da medição de forças, da acusação velada, da ratoeira montada e do discreto e nem por isso menos insuportável acorrentamento do protagonista?
           Em A porta está aberta há um suicídio testemunhado por um sujeito pacato - marca registrada nos contos do autor. O leitor hesita (vai ou não vai atravessar o rio, esse homem enigmático?), tenta acompanhar, frase a frase, fala a fala, o que é dito sem ser dito. Só no final, a cena, descrita em pouquíssimas palavras, se revela previsível. Antes não. A surpresa nesse autor cala fundo é na personagem surpreendida, e em quem lê fica a comiseração dos já curtidos pela vida, sabedoria que a prosa límpida de Vilela nos oferta como uma bênção. Já sabíamos, a vida nos mostra isso quase sempre. Porém a ficção que se pratica, em regra, não resiste a antecipar tudo de forma tonitruante, ou de falsear até não poder mais, ou de criar as situações certas com as personagens erradas ou vice-versa. E, sobretudo, de não saber fazê-los falar nessas horas, comprometida, essa ficção, com um discurso que quer se impor com o apelo demasiado de um espetáculo tão grandioso quanto inconvincente.
           O autor não aposta no extraordinário mas no ordinário e suas brechas, estas sim, extraordinárias. Uma das melhores histórias é Rua da amargura, quando três filhos se reúnem para discutir o destino do pai doente, condenado. Dois irmãos, sócios numa oficina, vão ser despejados. A irmã, que cuida do pai, é quem tem mais recursos. Mas não há como salvá-los. Um deles teve a idéia de vender os dentes de ouro do velho. O outro avisa, a irmã não vai gostar nada da idéia. Ela protesta, ameaça-os. Argumentam que o pai se orgulharia ao saber que mesmo morto salvou os filhos. Ela se nega à realização de tal saque. Em desespero, um deles diz que qualquer um outro, precisando de dinheiro, seria capaz de saquear o cemitério, arrancar os dentes, vendê-los e resolver seus problemas. E a irmã: mas não seria um filho dele.
           O volume fecha com uma história a seco, na exposição crua de uma cabeça de mulher, separada do corpo, observada por populares que nada sabem sobre a trama que gerou o degolamento. Num misto de horror e humor, sem se aproximarem muito, aguardam a chegada da polícia. Gente humilde acostumada a batucar sambinhas e a ir embora como se nada tivesse acontecido.
           Luiz Vilela parece fazer o mesmo tipo. Escreve como se não estivesse realizando literatura acima da média, como se estivesse escrevendo algo que qualquer um poderia ter escrito. Eis a fala mansa de um ficcionista que impressiona exatamente pelo modo imperturbável - e impecável - com que cria contos que nos falam com a força rala e única do cotidiano e nos deixam mudos pela emoção depurada que atingem.


PAULO BENTANCUR é escritor, autor de Instruções para iludir relógios, Os livros impossíveis e Frio. Para o público infanto-juvenil publicou a coleção Brincando de pensar. É Coordenador do Livro e Literatura da Secretaria Municipal da Cultura