Ilustração: PL
  

O Peregrino

           Comecei a nascer em uma beira de estrada, uma dessas hospedagens baratas onde meus pais conseguiram achar um pouco de paz e algumas horas de amor. Protoplasma dentro de um ventre, migrei para Montes Alvos; era então só uma simbiose de líquidos querendo constância e forma, mas ninguém negará que já era vivo. 
           Passaram-se nove meses de insucessos e um pouco de felicidade. Finalmente rebentei para a luz. Não foi pequeno o espanto de médicos e familiares quando perceberam que eu não era nada: só um contorno fugidio de membros ainda a serem descobertos, uma expectoração de manchas móveis, enfim, uma ameba do tamanho aproximado de um feto humano. Não imagino qual tenha sido a reação de todos diante de mim; também ignoro as minhas primeiras palpitações vitais sobre a terra. Sei apenas que quem me pôs em definitivo dentro da vida não foram as contrações de minha mãe, mas sim a insinuação assustada de dedos que desfraldaram aquela caixa de papelão que, sem motivo, foi bater à uma das poucas e pobres portas de Cascalho Dourado.
           Foi nesses primeiros anos que a minha forma esférica começou a ganhar alguns prolongamentos estranhos na sua parte inferior; não entendia o porquê daquela mutação. Em um espaço mínimo de tempo já não subia e descia rolando a escada principal da casa da minha aia, mas engastava uma após outra aquelas duas aberrações da natureza que brotavam de mim como duas espátulas. Logo me conformei. Fazer o quê? Mas com o passar dos anos percebi que estava sem querer imitando a anatomia dos meus familiares, e que isso lhes dava prazer. Cada nova semelhança descoberta era, em si, motivo para reuniões e festas comemorativas. Sentia-me o centro das atenções.
           A vida correu suave em Cascalho Dourado. Minha aia era uma mulher doce e brusca, de mãos grandes e um sorriso úmido. Às vezes parecia chorar quando ria, o que era curioso. Foi nessa vila que vim a conhecer pernas, e andar, na acepção mais abrangente e técnica dessas palavras; devo confessar que isso me frustrou; via todos os homens felizes porque andavam, mas eles já nem se lembravam que tinham pernas. Enquanto eu, quando rolava, isso era um fato, um acontecimento que me tomava por inteiro e que me deixava agradecido aos deuses pelo meu corpo. Hoje ando; se não é das melhores experiências do mundo, pelo menos me dá a sensação de estar mais aparentado aos outros e de que isso alimenta minha esperança de um dia ser como eles.
           A temporada naquela cidade não muito maior que um estábulo durou pouco. Ganhei a estrada mal me brotou o décimo dedo do pé. Cruzei a região central do Brasil em boléias de caminhão, caminhando ou na garupa de trens de carga. Vi - se é que podemos chamar de visão as manchas difusas de um órgão em pleno florescimento - coisas belas e horríveis, todas igualmente importantes para a minha formação. Nas regiões campesinas, após alguns anos de viagem, conquistei esse belo par de alicates que hoje me possibilitam a escrita. À essa época, fixei residência em Florais, onde trabalhei na colheita de frutas e verduras. O ar puro que se respira nessa região foi prolongando minha cavidade facial até compor o nariz, finalizado com um espirro. Não sei se é certo o ditado que diz que a ocasião faz o homem, e não saberia dizer se a minha forma ia mudando por uma necessidade de me adequar ao meio ou se já trazia essas metamorfoses embutidas dentro de mim de maneira latente. Enfim, não me ative muito a esse ofício; algo me dizia que era importante migrar, pois só assim ficaria a sós comigo mesmo e conheceria o mundo tal como ele é.
           Em Olho d'água descobri o amor. Uma jovem tímida, de cabelos negros longos e uma saia rodada até o tornozelo, encantada com a minha estranheza, como essas criaturas que cultivam um universo imaginário alheio às convenções e acabam se apaixonando pelos seus próprios fantasmas, me tomou num beco escuro, suspendeu meu corpo com um beijo histriônico e seus dedos longos acariciaram meu púbis com tanta ênfase que brotou dele uma protuberância rija, inexplicavelmente. O que senti foi bom, e desde então inflo cada vez que me lembro dela. E assim fui levando minha vida: cada aventura me dava de presente uma nova feição, delineava em meus traços os traços corriqueiros dos homens; animava-se em mim um símil de cada ser que cruzava o meu caminho e fixava em meu corpo, como em cera ou argila líquida, suas iniciais e sua importância; de cada ente querido gravava algumas formas, que se uniam a mim, inextricáveis, e de cada ato vil que sofria guardava a cicatriz para evitar que ele se repetisse.
           Defini os cinco sentidos muito tardiamente. Lembro-me bem quando. Numa tarde de inverno, sentei-me em um dos bancos da praça de Sensinóplis: as azaléias abriam-se par a par num corredor simétrico que lembrava o de jardins suspensos; o alecrim expelia seu néctar aéreo, e raios de sol fracos refletiam-se multicores na cortina de gotículas de um chafariz em forma de deus grego. Notei então que captava o espaço em todas suas dimensões, definia cada matiz de cor, cheiro, textura, ritmo, cadência, intensidade, volume e forma. Debrucei-me em suas águas e me vi homem, idêntico em cada expressão ao Apolo de mármore que pairava incólume sobre o calor da minha descoberta. Entristeci sem qualquer motivo aparente; uma parte do percurso estava completa. Os traços finos que vibravam no espelho d'água davam uma maleabilidade à minha pele que a desfazia e a recompunha, como se vivessem a nostalgia de um passado amorfo, onde eu fui feliz e solitário, e quando os homens ainda não haviam plasmado deles próprios a minha primeira inocência.
           Muitos anos se passaram desde esse episódio. Tornei-me, enfim, um homem, e isso parece não ter acrescentado nada à miséria de estarmos vivos, animados sob o céu que um dia será testemunha do nosso último suspiro. Hoje tudo o que passei se reduz a memória, a cacos de sentido que recolhi na minha viagem. Tudo isso me serviu e me formou, me deu a sobrevivência diária e me fez ser o que sou hoje. Sei que é impossível retroceder, e inútil querer possuirmos a nós mesmos sem antes atravessar esse deserto de escombros que são a nossa pátria mais íntima e irredutível, essa experiência única de guardar gestos, esboços, sorrisos e paisagens na tabula rasa do pensamento sabendo que, assim como eles nos constituem, eles também nos aniquilam, porque não se pode recuperar o vivido em sua integridade. Hoje tenho juízo, discernimento, razão, vontade, ou seja, todas as faculdades humanas desenvolvidas; tenho um corpo sólido e bem talhado, e passei ileso por todas as fases da minha peregrinação. Estou finalmente pronto, de posse de todas as minhas potências e de seu exercício. Mas sei que é tarde. Da minha cama, o sol declina no horizonte frio da janela semi-aberta, dia após dia, como se fosse sempre a última vez. 

RODRIGO PETRONIO nasceu em 1975, em São Paulo. Mora em Santo André. Atualmente desenvolve projeto de mestrado em Literatura Espanhola sobre a obra de Luis de Góngora na USP. É professor de Literatura Espanhola e Hispano-Americana no Centro Universitário Santo André (UniA) e professor do Centro de Estudos Cavalo Azul, coordenado pela poeta Dora Ferreira da Silva. Trabalha com tradução e edição de livros e trabalhou na redação da Folha de S. Paulo. Colabora com regularidade para diversos veículos da imprensa e recebeu prêmios nacionais e internacionais nas categorias poesia, prosa de ficção e ensaio. Quanto às publicações, integra a antologia de novos poetas brasileiros City of Changes, da editora Rattapallax, publicada recentemente nos EUA. Tem ensaios, poemas e contos publicados em várias revistas brasileiras e estrangeiras de literatura e cultura. É autor do livro de poemas História Natural e de Transversal do Tempo, livro de ensaios literários publicado pela Fundação de Cultura de Recife. Encontram-se no prelo dois novos livros: Eco (poesia) e Anavarata (contos). O primeiro será lançado pela editora A Girafa em 2004.