Ilustração: Retrato poético de Tchecov
por by V.Dergachov
  

A poética do conto

      Diante da ressonância profunda que a leitura admirada de um contista produz noutro contista, inicia-se o processo de apropriação e de desvio da poética daquele por este. No princípio, o contista-leitor traduz seu homônimo espiritual, num exercício de testagem de sua própria capacidade de apreender na sua linguagem as nuanças, os matizes, as riquezas da linguagem de seu predecessor. É o caso de Jorge Luis Borges vertendo Nathanael Hawthorne e Herman Melville para o espanhol. Ou o caso de Julio Cortázar traduzindo as obras completas de Edgar Allan Poe. Depois, o contista-leitor reflete sobre o outro, produzindo material crítico em diários, cartas, prefácios anexados às traduções, ensaios mais extensos. E, enfim, o contista-leitor inicia a sua desleitura do outro, o seu clinamen, o seu afastamento, a sua particularização, reproduzindo em si o mesmo fenômeno de autonomização da forma narrativa chamada conto no interior da tradição literária. 

      Como em literatura nada se cria, mas tudo se transforma, o contista-leitor, incapaz de criar uma nova forma artística, tratará de reconfigurar alguns elementos da narrativa de seu progenitor espiritual, imprimindo a outros a sua própria marca. 

      Com o mesmo clima e ambientação, Poe reordena a poética de Hawthorne, elegendo como seu ponto-de-fuga a unidade de efeito, enquanto Julio Cortázar, com os conceitos de esfericidade, significação, intensidade e de tensão, que já se encontravam larvares em seu companheiro de ofício de Boston, cria o seu onirismo particular. Cortázar lê em Poe a "liquidação de todo propósito estético", e o deslê completamente, ao construir uma obra contística em que a musicalidade, a harmonia e a alegorização são constantes configuradoras de sua própria estética. Tchecov recusa em Poe a ênfase, o exagero, o artificiliasmo de construção – gerado pela unidade de efeito, que sacrifica a naturalidade em nome de uma finalidade apriorística – e reorganiza os mesmos elementos em busca da tranche de vie. Os contos do mestre russo seguem os ritmos da própria vida, com sua causalidade sem teleonomia. A unidade de feito desloca-se, assim, para depois da leitura, quando o leitor se dará conta lentamente de que sob aquela aparente normalidade e pasmaceira jazem profundas reservas de tragicidade. O jovem estudante, em "Uma crise", por exemplo, irá se suicidar no futuro, depois de outras crises depressivas. Cabe ao leitor eleger quando e como isto se dará. Para Tchecov, interessam o retrato fiel das pequenas ações das personagens e a atmosfera psicológica que se constrói no texto a partir delas. Franz Kafka lê a atmosfera de Tchecov, mas deslê sua cotidianidade. Não lhe interessam a fatura real-naturalista, o materialismo rasteiro, mas a transfiguração da realidade, a numificação das coisas e dos seres. O misticismo hawthorniano como que retorna à cena, sob uma nova roupagem, sob novos signos religiosos, mas com os mesmos processos alegorizantes. O que em Tchecov era jocoso e demasiadamente humano, em Kafka transmuta-se em seriedade hierática e antropomorfização. Mas encontra-se lá, no entanto, a reutilização de particulares emoções das personagens do escritor russo: Olga Ivánova, a certa altura do conto "La cigalle", sente-se um inseto, um autêntico Gregor Samsa de saias. E, por fim, Jorge Luís Borges, que não teve a felicidade de ser lido por nenhum de seus predecessores, já que lhe faltou um dos dons de seus seres imaginários, especialmente o de ser antes de ter nascido, mas que leu a todos e sem nenhum pudor, transformando a desleitura em re-leitura, o clinamen em apophrades, que é o retorno dos mortos, na lição de Harold Bloom. Das tradições contísticas que os outros grandes contistas lhe legaram, Borges fez um gênero. Nele, o conto encontrou o fechamento de um grande ciclo: de forma arcaica, primitiva e intercalar, oralizada – as narrativas inorgânicas que já apareciam na Bíblia ou nos Upanishades, por exemplo – à duplificação da fábula, extraordinariamente elaborada, complexa e auto-referencial. Em Borges o conto pode ser causo outra vez, sem perder sua estatura e dignidade de forma artística. Enfim, a um só tempo Aleph e Zahir, tradição e modernidade, universalidade e particularidade, voz e texto. 



CHARLES KIEFER é natural de Três de Maio (RS). Estreou na ficção em 1982 com Caminhando na Chuva, novela de temática adolescente que, já em sua 14ª edição, transformou-se num clássico da literatura infanto-juvenil. Em 1985 Kiefer ganhou projeção nacional com a novela O pêndulo do relógio agraciada com o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro. Em 1993, com o livro de contos Um outro olhar e com Antologia Pessoal (primeiro lugar na categoria Conto), o escritor recebeu novamente dois prêmios Jabuti. O autor vem acumulando nos últimos anos uma série de outras premiações, entre elas o Prêmio Guararapes, da União Brasileira de Escritores, para o O pêndulo do relógio, Prêmio Afonso Arinos 1993, por Um outro olhar, e Prêmio Altamente Recomendável para Adolescentes 1986, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, para o livro infanto-juvenil Você viu meu pai por aí?.