O selvagem coração da vida
André Seffrin

"Henrique" de Állex Leilla
Salvador: Editora Domínio Público, 2001

      Állex Leilla, joyceanamente, viaja muito perto do selvagem coração da vida. Sua família é a dos visionários, filhos diletos de Rimbaud, tentados pela aventura da existência e da linguagem. E, com uma consciência apurada no trato com a palavra, conduz a narrativa como uma espécie de iluminação, na antiga e sempre nova definição de Fausto Cunha. A própria Leilla dá algumas pistas dessa sua linhagem: Gide, Genet, Ferlinghetti, entre outros. No que diz respeito à literatura brasileira, esse mesmo caminho é perceptível na ficção de Lúcio Cardoso e Clarice Lispector, que vai desaguar hoje em João Silvério Trevisan, Silvio Fiorani, João Gilberto Noll e Caio Fernando Abreu, este um claro herdeiro de Lúcio e Clarice, sem falar nas suas vastas heranças de Cortázar e Virgínia Woolf. Nesse sentido, o texto de Állex Leilla é tributário de Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles e, principalmente, Caio Fernando Abreu.
      Eis alguns nomes que podem estabelecer ramais e caminhos de nossa literatura moderna, na qual Állex Leilla passa a ter, com Henrique (Salvador: Editora Domínio Público, 2001), lugar assegurado entre os melhores autores de sua geração. Se a sua dicção está claramente mais próxima de Caio Fernando Abreu (cujo nome é várias vezes citado neste livro), podemos encontrar agora na sua linguagem uma forma mais crua e, vez ou outra, mais dramática. Esse recorte a aproxima ainda de João Silvério e de Hilda Hilst, nos quais a palavra escrita costuma ganhar um contorno mais incisivo e vertical. Essa opção, todavia, não estanca a sua veia lírica, pois a autora é dada também aos estados oníricos, tão profusos no Caio Fernando Abreu de Morangos mofados e Os dragões não conhecem o paraíso.
      Mas Állex Leilla, a partir de Obscuros (1999), começou a equilibrar melhor suas duas faces: a lírica e a dramática. Dos Urbanos (1997), contos escritos sob a égide de Morangos mofados, ao livro de 1999, ela se encaminhou para estruturas mais complexas, talvez sugeridas pelos três "noturnos" do Caio de Triângulo das águas. Equilibrando-se entre o lírico e o dramático, parece ter encontrado com Henrique a medida catalizadora dos seus meios expressivos, fixados numa firme arquitetura do diálogo e na fluidez narrativa.
      Se a literatura é, antes de mais nada, uma aventura de linguagem, a autora de Henrique tece de maneira impertinente sua teia coesiva: "Lembrar, de repente, de André Gide, seus caminhos de charnecas, seus pântanos movediços." Sobretudo não se pode esquecer, digo eu, dos pântanos movediços que é a literatura divorciada da vida. Nesse passo, se a fragilidade do personagem de Leilla é gideana, e se os problemas éticos e estéticos vividos por ele são o sal da narrativa - e também, de certa forma, gideanos -, é através dessa costura subliminar que Henrique guarda sua face mais secreta e fascinante. Uma realização que demandou tempo e trabalho, porque uma linguagem só se constrói com a vida. Exercício paciente e metódico, de avanços e recuos, de uma aposta na base do tudo ou nada. Se a obra não vale, cambiou-se a vida por nada - sugere o obsessivo Dalton Trevisan.
      Henrique, ou o selvagem coração da vida: todo o mistério humano cabe num único homem. Neste livro, Leilla nos ensina que, dominado pela presença do amor e da morte, apesar do seu estigma, o homem terá um lugar ao sol: "Gente, pessoa, homem. Não existe nada igual a ter carne e músculos e querer amar." O personagem, com sua carga de fragilidade e desencontros - que só o humano comporta -, tem carne, músculos, fome de amor, e se sustenta, último porém primeiro, na palavra. Dessa matéria imprevista de que se compõe a vida cotidiana, de seus retalhos de tamanhos e cores insuspeitados a olho nu, Állex Leilla cria uma túnica inconsútil: a história de Henrique, um homem que já morreu, mas que ainda vai nascer. A metáfora é ao mesmo tempo simples e complexa, e por isso cabe num nome próprio: Henrique.

ANDRÉ SEFFRIN (1965, Júlio de Castilhos/RS), crítico literário e ensaísta, reside no Rio de Janeiro desde 1987 e é autodidata. Colaborador de diversos órgãos da imprensa brasileira, já atuou em jornais e revistas tais como Jornal do Brasil (Idéias-Livros), O Globo (Prosa & Verso), Jornal da Tarde (Caderno de Sábado), Letras & Artes (Fundação Rio), Manchete, Poesia Sempre (Fundação Biblioteca Nacional), Zero Hora (Cultura), Gazeta do Povo etc.
Escreveu diversas apresentações e prefácios para livros de autores brasileiros (Fausto Wolff, João Silvério Trevisan, Octávio de Faria, Lúcio Cardoso etc) e ensaios a respeito de Roberto Burle Marx, Joaquim Tenreiro, entre outros temas ligados à literatura e às artes plásticas. Autor da edição revista e ampliada do Dicionário de pintores brasileiros, de Walmir Ayala (Editora da UFPR, 1997).