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Encontro às cegas
O diabo mora nos detalhes, e nas horas vazias, ele supôs. A rua quieta no hiato entre crianças já acomodadas nos bancos da escola, comerciantes ainda recolhidos na sesta prolongada. Atravessou a praça num passo rápido, apenas alguns gatos espreguiçados pelo caminho. Subiu os dois andares a pé, o único elevador da cidade havia virado atração. Soubera que contrataram um porteiro no prédio da rua XV apenas para afastar os moleques do sobe e desce insistente, empoleirados na caixa de inox. Recuperou o fôlego, secou o suor da testa com as costas da mão. Só então a porta se abriu.
- Nicole? Ele perguntou, um rosto suspenso no corredor mal iluminado.
Ela fez que sim com a cabeça e equilibrou-se na ponta dos pés para um abraço, as mãos circundando seu pescoço, o corpo afastado num esforço para que não se tocassem.
- Eu sou Gustavo, o seu criado, ele falou, sentindo-se um idiota por ter dito aquela coisa de seu criado. Ela deu um passo atrás para o observar num plano vertical, com um sorriso frouxo. Puxou-o pela mão, empurrou a porta dizendo, "vem comigo", e só. Depois, ela baixou o som da TV pelo controle remoto e sentou-se numa poltrona num canto da peça. O homem sentou-se no sofá, ao lado da pilha de roupas esperando para serem passadas.
Ele reparou nas paredes recém-pintadas, o chão de tacos irregulares, um ou dois faltando junto ao rodapé. Então, fixou-se em Nicole, cabeça baixa observando as cutículas, um dobrar de pernas sem jeito, posição desconfortável que a forçava a ficar em desequilíbrio, a alça da blusa escorregando sobre o ombro. De longe podia ver o sinal ao lado da boca, uma pequena mancha parecendo um Y invertido, igualzinho ao da mãe. Lembrou-se de Nina, na mesma repartição pública a três quadras dali, mas logo quis pensar em coisas menos enfadonhas.
- O computador fica onde?..(1:34:16: Nicole/16 fala para Kamehameha: estou de camisola, sozinha no meu quarto).
Fica no meu quarto, meu e de minha mãe.
É de lá que você me escreve?
É.
Então, o que achou do seu Kamehameha? (2.27:04 Kamehameha sussura para Nicole/16: meu nome é Gustavo, Kamehameha é o nome de um rei hawaiano, achei bonito.)
Pensei em você mais alto, mais jovem, mas isso não importa.
Sei.
E eu, gostou?
Você é simpática, bonita também.
Não sou não, só simpática tá bom.
Ela tinha razão, não era bonita. Talvez nunca tivesse sido, apenas uma menina sem graça, com cabelos finos e lábios sem cor. Mas ela havia dito pensei em você e isso fez ele sentir algo diferente, como quando os cães lambiam suas mãos.
Somos pessoas comuns, falou, num tom de quase consolo, mas ela não percebeu.
É, pessoas comuns, ela repetiu. E voltou a examinar as pontas dos dedos.
Gostei mesmo foi de haver encontrado você nesse fim de mundo, não é quase um milagre?
Não acredito em milagres. Só uma coincidência, mas elas acontecem a toda hora.
A diferença deste novo silêncio é que agora ele já não o incomodava, Nicole poderia ficar a tarde inteira olhando para os malditos dedos, ele estava confortável na falta de sentido daquele apartamento, daquele calor em outubro.
Então, levantou-se e caminhou até ela, ainda de pé escorregou a mão sob sua blusa, o seio pequeno pareceu se acomodar entre os dedos.
Arrependida? (3:07:12: Nicole/16 fala para Kamehameha: passe na minha casa amanhã, duas horas, minha mãe trabalha até as cinco. Quero você.)
Ainda não, e você?
De jeito nenhum.
Ela foi na frente, ele agora reparando na curva do pescoço, na bunda magra, o computador coberto por um plástico pardo, cheiro de sabonete, a luz contida por uma cortina imóvel na tarde sem vento. Beijou-a com a língua incisiva, um gosto de leite e achocolatado na boca muito aberta. Ele pensou que uma mulher se conhecia pela resistência às primeiras manobras, deviam apertar um pouco mais as coxas, dava mais gosto. Enquanto a fodia sobre o chenille, lembrou dos meninos no elevador da Rua XV. Quando ele quis mais, ela se afastou cobrindo-se com a colcha azul, apalpando os vergões da pele muito branca.
- Melhor você ir embora.
Ele ainda ficou mais uns instantes, uma leve brisa dissipando o odor azedo que brotara dos corpos sem entusiasmo, verter lento e monótono de gestos e secreções.
Desejou que ela se demorasse no chuveiro, poderia ir embora sem despedidas. Ela apareceu com um vestido limpo e os cabelos presos, e outra vez tangia um olhar canino, de desamparo e fome. Agora, a imagem da menina era quase um desacato, uns vinte anos mais jovem, uma criança. Ainda bem que ela não perguntara sua idade, sempre enganara bem na sua aparência de gitano, tez morena e braços fortes.
Nos falamos mais tarde, no chat.
Ela concordou num aceno, abriu a porta e esperou ele passar. A rua dissipava uma leve tensão. Apressou o passo e iniciou seu caminho de volta. Em frente ao posto de serviços, parou na calçada. Nina estava de cabeça baixa, os cabelos também presos, a mesma aparência submissa, o mesmo gosto salobre, uma camada de poeira e tédio. Nina, Nicole. A lembrança das duas, principalmente a maneira como se sobrepunham numa memória difusa se transformava numa sensação de náusea e desconforto, eram algo a esquecer. Mas estava de passagem, amanhã ficaria grato de ver pelo retrovisor os casebres mais periféricos daquela cidade desinteressante.
Nina levantou o olhar e o reconheceu do outro lado do vidro opaco, nas roupas coloridas demais, justas demais. Ele seguiu seu caminho, inconsciente como um monarca. Kamehameha, aloha! pensou, e sorriu. Nina estremeceu de leve e pediu licença para o velho que tentava encontrar os documentos em pastas amareladas, os dedos sem tato arranhando cartas e fotografias em vão. No banheiro, ela lavou o rosto e quis desconhecer os sinais de emoção. Secou os olhos úmidos, assoou o nariz. Pensou em Nicole. Não reconhecia nela os traços de Gustavo, mas, secretamente, intuía que tinham tanto em comum.
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