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Como se fôssemos nós
ou Diálogos com o pó
(episódio com L., Elsa e o bibliófilo)
a
Arnaldo e Zuleika
1.
L. gira sobre os calcanhares, a dor rasga seu cérebro e comprime suas órbitas. “Deus, quando foi que a minha visão de mundo ficou assim, tão miúda?”.
- chego a sentir claustrofobia.
Cai sobre a poltrona e fecha os olhos, tentando se recompor. Não ouve nada, mas sabe que o homem a sua frente não parou de falar. Não consegue ver, mas sabe que seus lábios continuam se mexendo, que a língua acaba de irromper da boca para recuperar o perdigoto arremessado em sua direção. Esfrega as têmporas. Olha para o bibliófilo; para Elsa, que lhe dá as costas. Está exausto, foi vencido. Sacode a cabeça, assente várias vezes e, no entanto, já não sabe do que falam.
Elsa corre os dedos pelos livros, esfrega uma mão contra a outra, vê o pó desaparecer e retornar ao tapete. De tempos em tempos solta uma gargalhada, sacode os ombros, percorre outra estante com os dedos e compenetra-se em aspergir poeira pelo chão.
Faróis iluminam as estantes e somem na esquina. A luz passageira deixa-o tonto. Tenta olhar para o bibliófilo, não consegue. Há um cancro naquele nariz que busca o fundo das suas retinas. Intimida-se diante da massa disforme, não consegue se concentrar. Sente-se oco. Deixa cair a cabeça. Já não sabe do que falam, do que falavam. Não sabe por que está ali. Iria embora, mas não encontra a iniciativa necessária. Está indisposto, suas orelhas ardem e o ressoar dos passos de Elsa o perturba.
Ele lhe oferece café.
- obrigado, sem açúcar.
Mas não bebe. L. mexe o açúcar que não pediu e observa o redemoinho que se forma. Naufrágio de sonhos, meu amigo. Ele assente, com mais convicção. Fixa-se nos olhos do interlocutor, que lhe parece subitamente exaltado. Não entende, encolhe-se na poltrona, larga o café na mesa ao lado e se resigna.
Alguém grita na rua. O bibliófilo pára de falar. Abandona-se na cadeira e morde compulsivamente o lábio inferior.
Aquele ambiente parece-lhe insuportável. Está acossado no fundo da poltrona, as molas machucam suas nádegas e o suor escorre pela testa. Não entende por que as janelas estão fechadas. Tenta alcançar os pés de Elsa com a visão periférica. Eles também pararam de se mover. O homem está quieto e respira pesadamente.
L. quer chorar.
Olha para Elsa, está sentada a um canto. Elsa olha para ele, sentado ao outro canto. O bibliófilo desapareceu, embora continue na biblioteca. Os faróis correm por seu rosto e seguem estante afora. Ela franze o cenho. Há alguns anos também levaria as franjas para trás das orelhas. Hoje o cabelo é curto, muito rente ao escalpo. O tempo transformou suas feições em madeira. Deixa-se observar. L. não quer que Elsa o veja, tenta esconder o rosto entre as mãos, mas os dedos são demasiado curtos e a testa fica a mostra, exibindo as veias azuis. Seu verniz descascara. Sente o cheiro do café no punho de sua camisa. O intestino pesa, a cabeça lhe dói e o suor arde em seus olhos. Tem vergonha: Elsa sabe que observa um animal estúpido. Um silêncio carregado de ofensas atravessa a sala, sobe pelas estantes, derrama-se em traças e páginas avulsas de uma vida avulsa. Recolhido à pequenez da poltrona, L. sabe que sua mulher o observa como quem assistisse aos primeiros passos de um proscrito.
- li o bastante para me enganar.
É a resposta do bibliófilo a alguma pergunta extraviada. L. não sabe de quem veio, mas a sentença seca já não lhe agrada mais. Tudo soa falso. As frases pulam atrás de vitrines e as palavras exibem códigos de barras. São insultos que se vendem às línguas. Sente o gosto amargo em sua boca. Ninguém lhe sussurra ao ouvido. Deixa os ombros caírem e ergue a cabeça. O bibliófilo está de pé, traz em suas mãos o catálogo da biblioteca. L. o recebe e sente um prazer soturno ao passar as mãos sobre o ex-libris em baixo-relevo. Entrega-se a este ritual até não sentir mais a ponta dos dedos. Ergue a cabeça mais uma vez e o homem parece menor, tem as costas curvadas e sua voz é um ronco engasgado. Elsa abre a bolsa, já está ao seu lado. Entrega a L. o talão de cheques e a caneta. Ele os recebe e inutilmente tenta concentrar-se antes de preenchê-los. Sua letra lhe sai trêmula. L. se levanta com dificuldade estende os papéis a sua frente, esperando que alguém os pegue. Deixa-os sobre a mesa. Elsa fala alguma coisa e o homem ouve com os olhos voltados para o casaco que veste.
Amanhã começarão a remover a biblioteca.
L. aperta frouxamente a mão do bibliófilo. Grunhe uma despedida que ele não responde. Já não se lembra como era sua voz. Elsa anda como um gato. Parece-lhe que todas as mulheres têm um andar felino quando atravessam as portas. Ela teme que notem quando ainda for tempo de regressar. Já anda distante. Elsa é um gato, seu marido tem um código de barras grudado à cabeça e algumas estantes cheias em seu escritório.
São dez horas quando L. olha seu relógio de bolso. Segura a porta do táxi para sua mulher entrar e vê a última luz se apagar dentro da biblioteca.
2.
As mãos de Elsa estão pretas, a poeira aderiu à pele. Esfrega-as, e ela se desprende: não a vê alcançar o chão. O pé direito da biblioteca é muito alto, há estantes que talvez nunca tenham sido limpas. Aproxima-se de um dos três abajures que iluminam a peça e examina as mãos. Ainda há pó acumulado em suas rugas. Não adianta esfregá-las mais, impressão de que ele sempre estará ali.
-não é pó, é tempo.
Leva as mãos aos quadris, ao último milímetro da blusa branca. Se aproxima da estante e examina uma lombada em madrepérola. Uma edição de La Fontaine. Chegou o momento de torcer pela desgraça das cigarras, pensa com um rancor cansado. Lembra-se de quando impedia o inseto de escalar o tronco de uma paineira. Esperava que galgasse o primeiro palmo e empurrava-o até o chão. Após três tentativas, o inseto agarrou-se à grama e deixou-se ficar ali. Vergando a lâmina verde a quase tocar o solo. Elsa esmagou-o de encontro ao chão.
Esfriou, as cigarras escondem-se sob a terra e as tardes são mudas.
Olha para as lombadas, mas não consegue ordenar as letras. Suas órbitas vagam como se tivessem vida própria, como se não passassem de duas entidades condenadas a viver grudadas à sua face. A insônia dos últimos anos cavou duas valas abaixo dos olhos. Passa as mãos no rosto; suja-o. Os dedos encontram um tecido flácido, rechonchudo demais para um corpo tão magro. Gostaria de ter um espelho consigo, então poderia chorar.
Dá alguns passos e afasta-se do abajur. Não consegue mais distinguir livros e estante. Tudo parece se fundir em uma grande caixa marrom que se fecha sobre sua cabeça. Vê relances desse mundo iluminarem-se por instantes. Depois o breu. Sente que as cigarras sobreviverão a ela, sabe que qualquer coisa poderá sobreviver-lhe. Ouve o ruído sincopado da voz do bibliófilo. Elsa acostumou-se a ser testemunha de si mesma. Acostumou-se a fazer caretas para o outro lado do espelho, a chorar para olhos úmidos. Acostumou-se a querer bem aos olhos úmidos.
Faróis iluminam seu rosto e desaparecem. Vê L. largar displicentemente uma xícara sobre a mesa de centro. Seus olhos são pequenos, parecem sempre fechados. Ele enxuga a testa com um lenço. Não a vê apoiar-se nas estantes e vomitar a sua vida ao pó. O pó entra em seu corpo, seca sua garganta e reveste a sua pele com uma nova pele. Tempo de não sentir. Entrega-se à frieza dos cronogramas. Baixa a cabeça, estica o pescoço e toca o peito com o queixo. Sente os músculos esticarem-se às suas costas. Tenta ver onde pisa, mas o chão não existe. Ainda resta entregar-se às circunstâncias – pensa. Mas para isso não se pode pensar. Silencia. Caminha até a luz e joga-se sobre uma poltrona.
Gritos reverberam em seus ouvidos. Pessoas discutem sob a janela, mas a Elsa isso pouco toca. Não consegue sentir interesse, não consegue ordenar os sons – não quer ordenar os sons. Olha para seu marido. Na falta dos óculos, ele lhe parece um borrão pálido mexendo-se desajeitadamente: uma criatura sem rosto em busca de uma máscara. Os berros cessam. Som dos passos do bibliófilo que entrega a L. o catálogo da biblioteca.
Elsa levanta-se e passa os cheques ao marido. Não o vê preenchê-los. Volta-se para a rua enquanto tenta remodelar suas feições. Aprendeu a encobrir as cicatrizes com outras cicatrizes. Só não aprendeu a estancar a hemorragia. Um farol – seu rosto desanuvia, torna-se inexpressivo, reveste-se da impassividade do pó. Volta-se ao bibliófilo.
- Se o senhor puder descontá-los a cada início de mês, como foi combinado, agradeço.
Continua falando, embora não tenha certeza de que o homem a ouça.
- Tratamos o frete para retirar a biblioteca amanhã pela tarde. Creio que não conseguirão remover tudo até a noite. Caso isso ocorra, espero que o senhor não se incomode em esperá-los na terça-feira de manhã.
Elsa sorri, mas ele não esboça qualquer reação de simpatia: seus olhos baços estão há muito perdidos no bifocal.
3.
Nas mãos do bibliófilo está o convite para o próximo Bloomsday. Joga-o sobre a mesinha de centro e espera que L. o recolha. Não consegue enxergar suas feições, apenas um vulto recortado por faróis. Sente-se exilado em uma pequena ilha de luz. L. não move um músculo de sua constituição, mas o bibliófilo tem a impressão de que ele acabou de recolher o papel a algum bolso.
- estou cansado de comer rim. Jamais gostei de rim e jamais gostei do Joyce. Estou cansado.
Recosta-se na poltrona e fecha o fumoir. Cerra os olhos até senti-los doloridos.
- um dia terei de assumir a idade que escolhi, o senhor compreende.
Espera mais algum tempo por uma resposta que não lhe interessa. Quer dormir.
- um dia a gente tem de se haver com as nossas ingenuidades. Um dia as costas começarão a doer, tendo de suportar o peso da nossa vergonha. Tenho mais vergonha do que poderia ser saudável. Teria sido algo melhor, não fosse a minha ingenuidade. Não fosse essa ânsia por ideologias, por esse caminho de azulejos azuis, tão bem rejuntados. Um caminho bonito, mas terrivelmente escorregadio. Queria ser um Settembrini, mas não consegui; não tive fé. O senhor me entende, quando falo em fé, falo em homem. Gosto do homem tanto quanto gosto do cheiro de mijo do rim frito. Nunca tive fé em nada.
Ouve uma gargalhada. Vira-se na direção do som e não vê coisa alguma além dos poucos centímetros mal iluminados por sua lâmpada de leitura. Dor no pescoço. A luz da rua machuca seus olhos e o bibliófilo decide mantê-los fechados. Uma sensação febril o faz tremer. Culpa a medicação que em breve deixará de tomar. Com uma voz quase sumida, recomeça.
- acho estranho que o senhor ainda não tenha se preocupado em saber por que pretendo me desfazer de tudo isso.
O bibliófilo ergue o dedo e faz movimentos circulares. Julga-se patético e recolhe a mão ao bolso.
- o senhor deve compreender o quanto me custou juntar isso. Mais do que dinheiro, um esforço de autoconstrução. Achava que livros serviam para calço. Que do alto de uma pilha de periódicos conseguiria me sentir maior. Devo admitir que embora esteja contando-lhe isso, continuo pensando da mesma maneira. É triste saber que me considero superior a mim mesmo. Falo de mim, exponho meus defeitos como quem examinasse as sardas de um cão. Café?
O bibliófilo ergue o bule e o tênue fio de vapor se decompõe em nuvens esparsas. Enche uma xícara até transbordar o pires. Coloca duas colheres de açúcar e a estende. O vulto a toma e ela desaparece.
- tudo acaba naufragando. Às vezes chego a pensar que não existe na Terra outro material que não o papel. A princípio, parece que o barco irá se manter sobre a superfície, mas não passam nem alguns minutos daquela excitação e ele já se transformou em uma pasta branca no fundo do lago. Olhe, olhe bem. – joga seu rosto para frente e aponta o nariz com o dedo. – olhe bem. Essa mancha é a minha morte, compreende? É o atestado de minha finitude, é a fagulha que já queimou toda essa biblioteca. Para mim, ela não existe mais. Eu não existo mais. Uma metástase, uma metástase.
Cala-se. Repensa a última fala e acha-a muito teatral. Está cansado, parece-lhe que alguma coisa comprime seu peito, não consegue respirar. Sons da rua, pessoas falando alto. Irrita-se e espera que se calem também.
- penso em me suicidar hoje à noite.
Espera, mas ninguém lhe responde. Um farol ofusca-lhe a vista – esqueceu de manter os olhos fechados.
- o senhor quer saber se já li bastante? Sim, o bastante para me enganar. Visse uma criança com um livro nas mãos e daria uns bons tapas em sua cara.
Espera alguma reação, tenta medir o impacto de suas palavras. O vulto assente.
O bibliófilo se ergue, é um homem baixo, barrigudo. A fita que amarra o fumoir se desprende e ele é obrigado a refazer o laço. Sente as pernas dormentes. A boca parece-lhe seca, já não há mais saliva em suas palavras. Vai até a estante e retira o grosso volume que entrega a L.
- aqui o senhor irá encontrar todas as referências da biblioteca. Nas últimas duzentas páginas, existe um catálogo específico de obras raras.
Veste o casaco que até então deixara sobre o espaldar da poltrona e vê o homem preencher os cheques. Os três papéis ficam sobre a mesa, falta-lhe vontade para guardá-los. Ouve a voz esganiçada de uma mulher junto ao seu ouvido. Sente-se excitado, gostaria de violentá-la, mas é muito tarde e isso implicaria uma esperança que já se esgotara.
Acompanha o casal até a porta. Articula um adeus, mas acredita que não foi compreendido.
Amanhã levarão os livros.
MARCOS GERHARDT, filho de pais brasileiros, nasceu na província de Ontário, no Canadá. Tem 17 anos e estuda Direito na UFRGS. Em 2003, foi classificado entre os dez primeiros colocados no concurso de contos Luiz Vilela (Minas Gerais). Não teve tempo de fazer muito mais.
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