Fogo nos pés
Nelson de Oliveira

"BaléRalé", de Marcelino Freire
Ateliê Editorial, 144 páginas

            A dança é o fio que alinhava os diversos contos do novo livro de Marcelino Freire. Não a dança da alegria e da esperança, mas a dança da fome, da violência e do desespero. BaléRalé reúne dezessete contos curtos, dezessete coreografias tragicômicas dançadas por pés descalços sobre carvão em brasa. Dançadas na rua, no motel, no sertão, sem pompa nem circunstância, longe de nossos Teatros Municipais esnobes e afetados. Faz parte dessas coreografias elétricas, de curta duração, o contemporâneo nó de nossas contradições mais arcaicas: o homossexualismo, o analfabetismo, a subnutrição e o massacre das manifestações culturais populares.
            O autor, pernambucano natural de Sertânia, onde caiu em 1967, imprimiu a seus bailados não o ritmo do balé clássico, porém o ritmo popular do frevo, do forró, do maracatu e da congada. É por isso que sua prosa tem causado tanto transtorno entre os leitores mais caretas. Ela está para a alta literatura assim como a MPB está para a música erudita. Quando pensar em Marcelino Freire pense, por exemplo, em Chico César e Zeca Baleiro. O problema é que, apesar de já existir na nossa literatura algo como a LPB - Literatura Popular Brasileira -, essa categoria ainda não conquistou a crítica mais presunçosa. Para essa crítica, a prosa de Freire soa desafinada, dança mal, como se tivesse dois pés esquerdos. E tem! Razão pela qual não pára de pisar no calo dos leitores desavisados, convencidos de que "macho que é macho não calça sapatilha".
            A maioria dos dançarinos do BaléRalé baila apartada de seus pares, samba sozinha, pragueja sozinha. O monólogo é de fato o gênero mais praticado por Freire nesta e nas demais coletâneas de contos que publicou: AcRústico, de 1995, e Angu de sangue, de 2000. Monólogos tensos e esquizofrênicos, como o do conto que abre o livro, Homo erectus, sobre o primeiro homossexual de que se tem notícia, cujos restos foram encontrados por arqueólogos na Prússia. Ou o de Phoder, sobre a prostituta maternal e o cliente senil, em tudo parecido com um bebê. Ou de Darluz, sobre a indigente que se orgulha de dar os filhos, logo que nascem. Ou d'A volta de Carmen Miranda, solilóquio do último gay romântico do planeta.
            Os melhores contos do BaléRalé são também os melhores contos gays publicados no Brasil nos últimos anos. O autor, nos já citados Homo erectus e A volta de Carmen Miranda, conseguiu aliar qualidade literária com militância, mas sem a necessidade de manifesto nem bandeira. A habilidade no manuseio da ironia e do humor contribuiu muito para afastar dessas narrativas o pior vício em geral encontrado na literatura engajada: o vício do panfletário. Minha flor e A sagração da primavera, também protagonizados por homossexuais e elaborados em torno do preconceito e da crise sexual, só confirmam o que ficou dito.
            Não há manifesto nem bandeira aqui porque é o sistema literário que dá as cartas, não o político. No caso do BaléRalé, o transe da prosa marcada pelo ritmo da poesia mais sofisticada, pela cadência do cordel aliada à do rap, potencializa a estrutura formal dos contos. Conseqüentemente, o fio narrativo - o conteúdo dos solilóquios, do discurso inflamado de cada narrador - deixa de ser o elemento mais importante e vê-se impedido de veicular dogmas e verdades absolutas. Mas não se vê impedido de pôr o dedo na ferida, seja na da miséria seja na do preconceito sexual.
            Marcelino Freire tem-se desdobrado e marcado presença, por onde quer que passe, como agitador cultural dos melhores. Não satisfeito apenas com o seu próprio trabalho literário, recentemente criou e está desenvolvendo dois projetos: a Coleção 5 Minutinhos e a série Lê Prosa, ambos em parceria com a Ateliê Editorial. A Coleção é composta de pequenos livros de grandes autores, tais como João Gilberto Noll, Moacyr Scliar e Manoel de Barros. São dez livrinhos distribuídos gratuitamente, para serem lidos em trinta segundos. Este projeto deu tão certo que em breve ficará pronta a segunda fornada, agora de livros infantis, reunindo autores do porte de Luís Fernando Veríssimo e Adriana Falcão. Já a série Lê Prosa reúne obras inéditas de autores novos e de consagrados - como o romance a.s.a.: associação dos solitários anônimos, de Rosário Fusco -, ou livros há tempos fora de catálogo, como as coletâneas de contos Tango fantasma e Diana caçadora, de Márcia Denser. Há quem julgue ser isso um defeito, há quem julgue ser uma qualidade: Freire não pára quieto, tem fogo nos pés.

NELSON DE OLIVEIRA nasceu em Guaíra (SP), em 1966. Mestre em Letras, pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, defendendo dissertação sobre os romancistas Campos de Carvalho e António Lobo Antunes. Entre 1998 e 2001 colaborou regularmente, com resenhas de livros, no caderno Prosa & Verso (O Globo), no Caderno de Sábado (Jornal da Tarde) e no Caderno 2 (Estadão). Atualmente colabora no Idéias (Jornal do Brasil), no Pensar (Correio Braziliense), no Rascunho e na revista Bravo!. Publicou "Naquela época tínhamos um gato" (Companhia das Letras, 1998), contos, Finalista do Prêmio Jabuti de 1999; "Os saltitantes seres da lua", (Relume-Dumará, 1997), contos e em 2004 publicará o livro de contos "Sólidos gozosos & solidões geométricas" (Record). Organizou ainda as antologias "Geração 90: os transgressores" e "Geração 90: manuscritos de computador" para a editora Boitempo, em 2001.