Ilustração: Wolfgang Lettl
  

Anotações de Viagem à Juqueí

      Há duas horas eu estou esperando o dentista. A enfermeira não cansa de me pedir desculpas. 
      - Ele está atrasado. Deve ter acontecido alguma coisa - ela diz pela décima vez. 
      Pra passar o tempo, tiro tudo de dentro da bolsa, ponho na cadeira ao lado e começo a botar ordem. Minha bolsa pedia uma faxina. Foi quando encontrei esse bloco com anotações que eu nem lembrava mais. 
      Alberto acordou no maior entusiasmo e propôs que saíssemos uns dias. Há tempos não viajávamos. Irrecusável. Eu parecia criança em véspera de férias, torcendo para não chover. 
      - Vou pra casa, faço a mala e às duas eu passo pra te apanhar. Você pode esperar lá embaixo. 
      Cinco pras duas, eu desci e sentei na escada. 
      Isso tá parecendo cena de novela - pensei - o cara deixa a mocinha esperando e não aparece. 
      Às três e meia eu subi e chorei a tarde inteira. Eram mais de seis quando ele passou. 
      - Tive uns contratempos. 
      Entrei no carro e nem perguntei pra onde a gente ia. Humberto tinha o meu destino nas mãos, que me levasse pra onde quisesse. Juntos já percorremos as estepes e os desertos mais incríveis do planeta. Dessa vez, Gualberto me levou pra Juqueí. 
      O hotel era uma gracinha. Quarto de casal: duas toalhas, dois sabonetes, dois travesseiros. 
      Oba! Nunca mais serei sozinha. 
      Arrumamos as coisas e fomos beber na beira da piscina. O entardecer estava que era um sonho. Dagoberto pediu cuba-libre, eu nem lembro o que pedi, sei que era coisa fresquinha com gelo picado dentro, pra me esfriar. 
      No jantar, comemos um peixe delicioso. Aliás, a melhor lembrança que trouxe da viagem: filé de badejo ao molho madeira. E eu que havia ido lá pra tão mais... Ir tão longe pra voltar com a lembrança de um peixe grelhado e a barriga vazia. Mas comigo é sempre assim. 
      Logo depois do jantar, Gualberto subiu, estava indisposto. Antes, porém, ligou pra ter noticias da mulher, do filho, dos cachorros. Ele se preocupa muito com a família. Mesmo quando viaja com a amante, não deixa de ligar pra saber como estão. 
      Quando deitei ao seu lado e quis me enroscar nas suas pernas, Gilberto se afastou: 
      - Você não vê que eu não tô legal?
      O erro era sempre meu. 
      No dia seguinte, antes que ele acordasse, peguei o bloco de notas que estava sobre a mesinha e escrevi essa história que leio agora. 
      Quando ele acordou, aproveitei que estava chovendo e sugeri que viéssemos embora. Roberto gostou da idéia. No mesmo instante ligou pra portaria e pediu que fechassem a conta. Voltamos no maior silêncio. 
      A enfermeira avisa que o dentista hoje não vem. 
      - Ele pede desculpas, mas teve uns contratempos. 
      Por mim, ele pode não voltar nunca mais. 
      O jeito é ir embora com dor de dente. Que importa? No fundo é sempre a mesma a dor da gente. Cacete!

IVANA ARRUDA LEITE nasceu em Araçatuba, em 1951. Tem dois livros de contos publicados: Histórias da Mulher do Fim do Século (Editora Hacker, 1997) e Falo de Mulher (Ateliê Editorial, 2002). Participou das antologias Geração 90: Os Transgressores (Editora Boitempo, 2002) e Ficções Fraternas (Editora Record, 2003). Tem contos publicados nas revistas: PS:SP, Ácaro, Coyote e Etc. Publicou um livro juvenil: Confidencial — Anotações Secretas de Uma Adolescente (Editora 34, 2002).