Amplexo

Já sabia que as temperaturas extremas eram uma das características dos desertos. O que nunca tinha pensado era que a sua amplitude fosse tão dolorosa para o corpo e para o espírito.

Perdera-me da caravana e encontrava-me só, fustigado, na face mal agasalhada, por um vento boreal salpicado de agulhas arenosas.

A noite caíra célere, escura e sem estrelas. Sucedera-lhe a fome, a sede e a ansiedade. Despicienda seria qualquer tentativa de orientação. Ir ou ficar? Aguardar que me procurassem, ou apostar numa direcção aleatória e calcorrear não sei que distância na expectativa de ter tomado o rumo certo?

Resolvi ficar. Ancorei no espaço à espera do tempo. O meteorológico, que talvez me pudesse salvar, assim o permitisse a sua doçura, e o cronológico, na esperança de que tivessem dado pela minha falta.

Mas o tempo não conhecia amarras, voava sem hesitação a caminho da morte.

Escolhi uma reentrância cavada na areia e aí me abriguei.

Apesar da escuridão, uma aura coada pelas meninas dos olhos desenhava rosáceas de mesquitas, sinagogas e catedrais, coloridas por raios cósmicos de religiosa luminosidade em que até um coração incréu reconheceria a unidade de todas as crenças do mundo.

Algures na realidade do sonho, os companheiros voltavam e davam vivas por ter-me encontrado. Na parte mais recôndita das lucubrações, conseguira voar e dormia tranquilo no seio do grupo atrevido que decidira enfrentar a aventura.

Senti então a presença fátua, soturna e meiga.

Sem miragem nem oásis, um calor oloroso começara a envolver-me e mãos esotéricas eram sensação de pétalas a percorrer-me o corpo. Lábios quentes e sensuais beijavam-me com ardor e seios úberes propiciavam-me carícias de gelatina, mornas e suaves. De enregelado, o sexo eréctil lançou-se à descoberta da comunicação máxima. Do devaneio erótico, floresceu calorosa relação edipiana, símbolo do retorno à origem remota do ser. 

Afinal, a solidão é um deserto habitado, gineceu fecundado pelo sémen da imaginação. Solitário talvez seja quem não sabe vencer o sofrimento e encher o vazio de poesia e ilusão, de música e flores.

Nunca a linearidade da linguagem me parecera tão pobre face à cascata de pensamentos a descrever.

Ali fiquei e julgo que ainda estou.

Até a companhia da morte é melhor do que estar só.

JOAQUIM EVÓRIO Rodrigues de Vasconcelos, nasceu na Freguesia de Santa Maria Maior, Funchal, Madeira, a 3 de Setembro de 1938. Licenciado em Ciências Sociais e Política Ultramarina pela UT de Lisboa. Publicou "SOMBRA EM CLAVE DE SOL" , Universitária Editora Lda., Lisboa, 1999.