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www.a\-ilha.com João Carlos Viegas Paquenipu tem 93 quilômetros quadrados de área, seu clima (amenizado pelo vento sudoeste) alcança temperatura média de 25 graus. Banhada pelo Atlântico, distante 8l3 quilômetros do Continente, a ilha é cortada por rios mansos cujas nascentes descem das arborizadas montanhas. O mais belo entardecer pode ser visto ao lado norte; quanto ao amanhecer, há divergências. Há quem diga que, no mirante do Afogado, visualiza-se o nascer do sol mais luminoso do mundo. O mirante recebeu esse nome por causa de um corpo não identificado. Contam que o traste poderia ter fugido de Cuba e fora empurrado pelas correntes marítimas. O sem vida permaneceu dias apodrecendo e devorado pelos bichos. As autoridades paquenipuenses alegaram que não resgataram o corpo devido ao difícil acesso e às marés bravias. Entretanto, há boatos de que ninguém se atreveu a assumir a missão porque mexer em restos de um afogado cuja identidade se desconhece é desafiar o mar que sempre reclama seus mortos. Outro lugar de grande freqüência é a enseada do Cavalo. A explicação para a denominação é bem mais simples: existe uma pedra acima da enseada cujos contornos lembram a cabeça do animal. Como gostos e visões variam, agências turísticas fundiram em vídeos os dois lugares tornando, através da eletrônica, a ilha numa grande atração de lazer e ecologia. Navegadores portugueses e espanhóis descobriram este pedaço de terra e lutaram contra franceses, holandeses e ingleses. Guerras que cessaram quando Paquenipu tornou-se ilha dominada por um só colonizador, estrangeiro expulso depois de muita conversa entre nativos e invasores. Naqueles tempos, paquenipuenses eram bons de conversa e convenceram o estrangeiro de que a ilha seria governada por dirigentes nem tão nacionalistas ameaçando o projeto de internacionalização; nem tão cooptantes desagradando o povo nativo. Assim, Paquenipu ganhou um traçado de ruas internacionais. Uma curiosidade: a ilha não conheceu ditadores ou guerrilheiros. Mesmo em épocas quando eram comuns essas figuras, o lugar era um ponto onde se podia chegar sem perigo de seqüestro ou qualquer ameaça. Os governos paquenipuenses extorquiam os cidadãos com impostos mas ninguém reclamava acreditando que essa era a melhor forma de deixar o governo quieto em seu canto. Depois, com a chegada das parabólicas e dos aparelhos de tevê; os paquenipuenses se acomodaram porque começou o tempo de receber sem obrigação de dar nada em troca. Paquenipu significa: “Terra onde ninguém se esconde”. Conta a lenda que Alcefer ( criador do Universo ) engravidou Belilit - primeira mulher do mundo- e nasceu Avarent. Como só existiam os três no planeta, Avarent engravidou a mãe com quem teve trigêmeos: Bialitz, Oroncer e Alfinezer. Revoltado com a traição, Alcefer perseguiu o filho que tentou se esconder na ilha. Alcefer encontrou o incestuoso aplicando-lhe violenta surra. Dos gritos de Alcefer, nasceu o trovão. Das lágrimas do traidor, a chuva. Dos olhos brilhantes de Bialilit, o sol, elemento da natureza abundante na terra onde ninguém se esconde. A televisão chegou a Paquenipu trazida pelos bicheiros cariocas. A máfia descarregou antenas parabólicas, aparelhos de tevê, vídeos-games e toda a parafernália que virou símbolo de status na ilha, praga semelhante ao automóvel em outras civilizações. Governo e bicheiros traçaram um plano que interna paquenipuenses em suas casas deixando as ruas livres aos turistas que chegam de todas as partes ansiosos pela natureza deslumbrante deste pedaço de terra. As transmissões televisivas são uma sucessão de cenas sobre a violência urbana. O habitante de Paquenipu aprende que a vida no Continente é um martírio. Governantes garantem que noventa e oito por cento da população desejam permanecer na terra natal. Institutos de pesquisa - grande negócio que prospera na ilha - mostram gráficos assegurando que o paquenipuense gosta de seu país porque tem segurança e não conversa com estrangeiros para evitar a infecção com o vírus da curiosidade. A imagem na telinha é uma viagem segura. Por incrível coincidência, paquenipuenses que se aventuram a viajar ao Continente viram personagens de casos escabrosos nas reportagens da mídia eletrônica. Correspondentes da Rede paquenipuense descobriram um nativo da ilha vivendo de furtos e tráfico de drogas no Rio de Janeiro. O rapaz - com cerca de 22 anos - foi assassinado por um grupo de extermínio que jogou seu corpo na Estrada da Posse, Baixada Fluminense. O corpo do paquenipuense ( massacrado junto com mais seis jovens não identificados ) foi exibida nos jornais de meio-dia, dezoito horas, vinte horas, meia-noite e domingo. Paquenipuenses aprendem o domínio do linguajar carioca através de Jota Calheiros, profissional brasileiro de tevê importado por bicheiros. Desova ( ato de jogar mortos em locais desertos ), mineira ( grupos de extermínio pagos por comerciantes ), ripar ( eliminar alguém com extrema violência ), tudo já faz parte do vocabulário de Paquenipu. Jota Calheiros ( porta-voz dos bicheiros que se diz descendente de um cantor popular do Brasil ) faz um levantamento minucioso da ação dos grupos de extermínio pagos por cidadãos de bem cansados da ineficiência policial. Calheiros explica que a polícia não age porque a lei brasileira protege marginais. Com voz exaltada, ele olha para a câmera perguntando: “Vocês acreditam que com toda essa criminalidade a pena de morte não existe no Brasil?” TRECHOS DE REPORTAGENS FOCALIZANDO CANDIDATOS AO CARGO DE CARRASCO SE A PENA DE MORTE VIGORAR NO BRASIL. -Elísio Albuquerque, 33 anos, desempregado há cinco, pai de duas meninas. Ele gostaria de ser carrasco para vingar a sociedade tão atacada por marginais. -Rafael Carbonel, 25 anos, bancário que mora com os pais e três irmãos num apartamento de sala e quarto em bairro da Zona Norte. Ele gostaria de assumir o cargo público de carrasco porque na iniciativa privada não existe segurança no emprego. -Gorete Silva, dubladora aposentada. Ela opta por queimar na cadeira elétrica o criminoso embora não considere o enforcamento e a câmara de gás descartáveis. Gorete afirma que a pena de morte é um mal necessário porque muitos inocentes morrem nas mãos dos bandidos e chegou a hora de bandido morrer na mão de um inocente.
Quando não é a contundência de Jota Calheiros, o ilhéu aprecia Elza Dulce, apresentadora que narra benemerências de bicheiros apresentando legiões de aleijados, retardados e famintos abandonados pelo estado brasileiro. As necessidades desse resto social são supridas pela contravenção. Um bicheiro apelidado de Pato Donald presenteou com cadeira de rodas uma velhinha de 80 anos sem pernas e braços. Elza Dulce segurou a mão do bicheiro estendendo-a para a decrépita beijar com juras de agradecimentos e pedidos a Deus de muitos anos de vida ao benfeitor. Marca-passos, cirurgias delicadas, creches, tudo é motivo para mostrar o lado humano dos patrocinadores da jogatina. Elza Dulce tem sempre uma mensagem ao paquenipuense frisando que o povo da ilha é sadio e, felizmente, não conhece as desventuras do Continente. Bicheiros organizaram a economia paquenipuense com jogos, desfiles carnavalescos, turismo, prostituição e outras atividades condenadas pela Igreja Católica. No entanto, os religiosos - se não são coniventes com o pecado - preferem o silêncio diante da licenciosidade. Católicos ganharam um canal de tevê e divulgam mensagens distribuindo batismo, comunhão e outros sacramentos. De casa, o paquenipuense disca para um número de telefone ( outro instrumento indispensável ao ilhéu ) dando sua contribuição à instituição religiosa. Evangélicos também começam a manipular a mídia e concorrem com os católicos no lançamento do Disk-Jesus ou Palavra Amiga ou qualquer número telefônico para angariar fundos e adeptos. Pais de santo - ainda raros - buscam espaço jogando búzios e desfazendo feitiços. Paquenipuenses ligam querendo consultas capazes de afastar os males que ameaçam suas vidas. O habitante da ilha acredita que seus aparelhos de tevê são invejados , por isso, telefonam pedindo socorro ao macumbeiro para seus televisores funcionarem constantemente. Um paquenipuense acredita que - se ficar sem a imagem da televisão - terá sua alma apagada. O macumbeiro recomenda a aquisição do cartucho com despacho eletrônico. Uma fita de vídeo cujas imagens mostram galinhas pretas sacrificadas a Exu, Iemanjá e várias entidades. Os sacrifícios eletrônicos têm a vantagem da limpeza. Em Paquenipu, não há despachos nas encruzilhadas sujando as ruas e marcando a ilha como um ponto primitivo. Além da religiosidade, a mídia divulga o tesão eletrônico. Jovens de ambos os sexos se mostram em um canal especial a procura de parceiros. Os pretendentes mantêm contatos telefônicos e, se houver mútua aprovação, iniciam o período de masturbação com troca de fitas onde se mostram em poses íntimas. Esse método evita a explosão demográfica e a proliferação de doenças sexualmente transmissíveis. Casais unidos em matrimônio também gostam do sexo via tevê concordando que a sedução continua viva dessa forma e os casamentos perduram. Além da tevê, a Internet é uma realidade em Paquenipu alcançando a totalidade da população. Os chats são muito populares. Abaixo a reprodução de uma conversa na sala de namoro: F@D@ : Por que o mau humor?! reservadamente com Bruxo BRUXO: Você teclou com o Menino do Rio! reservadamente com F@D@ F@D@ : Entrei no chat, não te encontrei, teclei com ele! E a Lu@? reservadamente com BRUXO BRUXO: O quê que tem?! É amiga minha! Teclava com ela antes.. reservadamente com F@D@ F@D@ : Antes de me conhecer?! Você tecla com qualquer uma?! reservadamente com Bruxo BRUXO: Te amo! Desde que te vi no chat!! reservadamente com F@D@ F@D@ : Me prometeu conhecer!! Você só me quer no virtual! reservadamente com Bruxo BRUXO: Tenho medo do Real! Mas quero sair do virtual sim!! reservadamente com F@D@ F@D@: Só me quer no virtual, eu sei! Me engana! reservadamente com Bruxo BRUXO: Sonhei contigo. Você estava como naquela foto. reservadamente com F@D@ F@D@ : A do passeio na Enseada do Cavalo?! reservadamente com Bruxo BRUXO: A única que tenho! reservadamente com F@D@ F@D@ : Esquisito isso! Gosta do meu corpo? reservadamente com Bruxo BRUXO: Acho que você não me ama mais! Demora a entrar no chat!! O celular está sempre fora de área, até a voz na secretária do telefone convencional mudou porque sabe que vou deixar o recado!! F@D@ : Por que jogou no aberto?!! reservadamente com Bruxo BRUXO: Esqueci!! Desculpe! Esqueci! Não domino a máquina!! Já te falei!! Agora, você vai dizer que travou, não é? Vai dizer que me vê mais tarde no ICQ mas sabe que não consegui fazer download!!!!! F@D@ : Travei! Te vejo no ICQ! reservadamente com Bruxo BRUXO: Você não me ama mais!!! reservadamente com F@D@ F@D@ : SAI DA SALA MENINO DO RIO: Alguém quer teclar?! entra na sala BRUXO: BABACA!!! BABACA!! fala com menino do Rio MENINO DO RIO: Vc. é doido, cara?! Nem te conheço! fala com Bruxo BRUXO : Esquece!! fala com menino do Rio BRUXO: sai da sala Bicheiros fizeram a mudança para Paquenipu porque cansaram de sustentar a máquina de corrupção no Continente. É claro que a decadência da qualidade de vida e escassas reações de autoridades desejosas de maior ética na sociedade contribuíram para a transferência. Jogatina, desfile de escolas-de-samba e turismo sustentam a ilha. De seis em seis meses, o governo - através de cadeia de tevê - mostra suas realizações recomendando ao povo que mantenha a postura distanciada em relação aos turistas que só trazem uma vantagem: dinheiro. Toda verba é gasta em sofisticados aparelhos de tevê, vídeo e game. Todo paquenipuense recebe alimentação, moradia, tratamento médico-dentário, creches para os poucos filhos que nascem e direito a passear pela ilha uma vez por ano - hábito cada vez mais esquecido. O governo tem notáveis das mais variadas áreas do conhecimento ( economia, sociologia, etc. ) e usam o dinheiro dos bicheiros para pesquisas de comportamento que vão sendo aplicadas na população com êxitos constantes. Alguns cientistas políticos afirmam que a ilha é uma espécie de capitalismo do Estado que se manterá enquanto a fantasia da tevê garantir a inexistência de confrontos sociais. Em
locais afastados, construíram asilos onde vive a parcela
desajustada da população: jovens rebeldes, cegos e portadores de
desvios sociais. Os mais idosos procuram o asilo porque não
conseguem viver sem livros, jornais, enfim, a palavra escrita.
Sem visitas de amigos ou parentes, viraram uns párias. A mais
velha paquenipuense tem 111 anos e guarda um pouco de lucidez.
Ela recorda uma Paquenipu perdida na história e sorri irônica
dizendo que ( um dia ) vão apertar o botão off apagando a ilha
do mapa. Quando isso acontecer, a Terra onde ninguém se esconde
passará a ser um buraco negro chupando tudo a sua volta e -
quando alguém acessar o site www.a\-ilha.com - verá uma
mensagem que a página procurada está temporariamente desativada
ou não foi encontrada. JOÃO CARLOS VIEGAS é roteirista de rádio e tevê. Autor de "Carmem Costa, uma cantora do Rádio" e do romance inédito "Segura essa, Salinger"
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