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Vida
Maria João Costa
A cidade ficou submersa. Não é a primeira vez na história do
mundo. Mas, dói. Percebo agora que a formação das montanhas e
planícies, a definição das linhas costeiras, são feitas à custa
de toda e qualquer vida. A Terra está viva, e impõe-se aos seus
pequenos, ainda que impertinentes, habitantes. Somos vassalos do
chão que pisamos.
Tsunami, maremoto, hurricane… queremos que a Terra se acalme,
pois o céu, ora cinzento pesado, ora azul indiferente, não nos
protege. Teremos nós que olhar uns pelos outros. Isto, do
terceiro milénio, não promete ser pêra doce.
Helena estava no carro. Tinha estacionado à porta do centro
comercial, como combinado. Viu de longe o ex-marido, embaraçado
com a quantidade de papel que carregava. Saiu do carro e
dirigiu-se a ele. Tantos mapas já eram demais. Como sempre ele
queria provar-lhe que era o maior especialista naquele assunto,
como aliás em qualquer outro. Contendo-se, não querendo revelar
nem a sua impaciência nem o seu arrependimento, Helena
mostrou-se razoável e agradecida. Queria despachar o assunto.
Ele mostrou saudades dela. Ela voltou para casa com o banco
detrás do carro cheio de mapas e prospectos coloridos sobre a
Grécia.
Chegou a casa e deitou-se. Fechou os olhos. Que disparate,
aquele encontro. Nem sabia como surgira. Falara talvez na
necessidade de uma viagem. Mas não ia para a Grécia. Na verdade
ia fazer um aborto. Apenas isso. Apenas… A decisão tinha sido
fria, tomada a frio. Depois de um casamento de quatro anos, sem
filhos, a última coisa que esperava, era engravidar, no decurso
da única noite que passara com alguém que, de todo, não
interessava. Uma solução conveniente para um problema
inconveniente. Já falara com a médica, estava tudo tratado para
o dia seguinte. Não queria agora pensar nas possibilidades de
vida que tinha dentro de si. Dentro de três dias tudo teria
voltado ao normal. Temos que agir como adultos, não? Tinha a sua
vida, o seu dinheiro, podia matar quem quisesse… Sentou-se na
cama. Não queria ter pensado aquilo. Ocorrera-lhe na modorra,
mais nada…
Procurou o comando da televisão. Era melhor distrair-se.
Encontrou o comando e ligou o aparelho. Os canais estavam
trocados, pôs-se a fazer zapping, com displicência. Parou nas
imagens que já conhecia mas cuja dimensão nunca conseguiria
assimilar : as ondas do tsunami derrubando tudo à sua passagem,
estoirando com os obstáculos, engolindo a vida, saqueando,
destruindo tudo… a vida… sentiu um nó na garganta, não era
aquela a distracção pela qual ansiava. Mas também, aquele não
era o destino pelo qual alguém tivesse ansiado. Muitas, muitas,
muitas vitimas. Não podia agora mudar de canal, como se o horror
fosse apenas ficção. Baixou apenas um pouco o som da televisão.
O programa era retrospectivo, o tsunami tinha ocorrido no último
Dezembro, em lugares de calor e de sonho. E, enquanto o mar tudo
destruía, o céu permanecia azul, sem avisos nem lágrimas …
Helena começou a chorar. Ficou assim durante um tempo
indefinido, a chorar deitada, molhando o cabelo, sem saber se
chorava pela tragédia ou pelo que ia fazer no dia seguinte.
Chorou até que, exausta, adormeceu.
E sonhou. Não soube com o quê, mas guardou as palavras “fonte de
vida”. Não sabe de onde vieram, mas quando acorda já está a
repeti-las baixinho... É noite, o quarto está escuro e quente.
Pela primeira vez, Helena pensa em ter a criança. E,
subitamente, a vontade exprime-se, definitiva, para não mais se
calar “ vou ter a criança!, vou ter a criança!”... E os seus
olhos começam a ver claramente, na escuridão.
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