|
 |
 |
Um talento

Anton Tchecov
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra
O pintor Egor Sávvitch, que vive na casa de campo da viúva de um
oficial subalterno, está sentado na cama e entrega-se à
melancolia matinal. Lá fora, aproxima-se o Outono. As nuvens
pesadas e deselegantes atulham o céu, camada em cima de camada;
sopra um vento frio, penetrante, e as árvores, num choro
lamentoso, inclinam-se todas para um lado. As folhas amarelas
rodopiam no ar e pelo chão. Adeus, Verão! Esta aflição da
natureza, quando vista pelo olho do artista, é de certo modo
bela e poética, mas Egor Sávvitch não está para belezas.
Devora-o o tédio, a única coisa que lhe dá consolo é que amanhã
já não estará nesta casa de campo. A cama, as cadeiras, a mesa,
o chão – tudo atulhado de almofadas, cobertores amarrotados,
cestos. O chão não foi varrido, das janelas foram arrancadas as
cortinas de chita. Amanhã muda-se para a cidade!
A viúva dona de casa não está. Foi a qualquer lado arranjar
carroças para amanhã. A filha dela, Kátia, rapariga de vinte
anos, aproveitando a ausência da mãezinha rigorosa, há muito que
está no quarto do jovem pintor. Como ele se vai amanhã embora,
Kátia tem muita coisa para lhe dizer. Fala, fala e sente que nem
lhe disse ainda uma décima parte do que tem para lhe dizer. Com
os olhos marejados de lágrimas, olha para a cabeça cabeluda do
pintor, e é de tristeza e admiração o seu olhar. Ele é peludo
até à monstruosidade, até ao animalesco. O cabelo chega-lhe às
omoplatas, a barba cresce-lhe a partir da base do pescoço, os
pêlos tapam-lhe as narinas e as orelhas, os olhos
escondem-se-lhe atrás dos tufos espessos e hirsutos das
sobrancelhas. A pelagem é nele tão espessa e emaranhada que, se
entrar nela uma mosca ou uma barata já não saem daquela selva
até à consumação dos séculos. Egor Sávvitch ouve Kátia, boceja.
Está cansado. Quando Kátia começa a soluçar, olha
sorumbaticamente para ela através do sobrolho hirsuto, carrega o
dito e diz na sua voz de baixo espesso e grave:
– Não posso casar-me.
– Porquê? – pergunta Kátia baixinho.
– Porque um pintor, no geral, um homem que vive com a arte, não
pode casar-se. O artista tem de ser livre.
– Mas, Egor Sávvitch, em que o estorvaria eu?
– Não falo de mim, falo em geral... Os escritores e os pintores
célebres nunca se casam.
– Eu compreendo perfeitamente que o senhor também há-de ser
célebre, mas veja também a minha situação. Tenho medo da
mãezinha... É severa e irritadiça. Quando souber que o senhor
não vai casar-se comigo, que isto não era a sério... faz-me a
vida negra. Oh, desgraçada de mim! Ainda por cima, o senhor não
lhe tem pago o aluguer.
– Eu pago, que se amole...
Egor Sávvitch levanta-se e começa a andar para trás e para
diante.
– Ir ao estrangeiro, isso era óptimo! – diz ele.
E o pintor explica que não há nada mais fácil do que ir ao
estrangeiro. Basta pintar um quadro e vendê-lo.
– É claro! – concorda Kátia. – Então, por que não pintou um no
Verão?
– Mas como posso eu trabalhar nesta barraca! – diz o pintor com
desgosto. – E onde arranjava aqui os modelos?
Em baixo, a porta bate furiosamente. Kátia, que esperava a todo
o momento a chegada da mãe, foge. O artista fica sozinho.
Durante muito tempo, anda de um canto para o outro, contornando
as cadeiras e os montes de tralha. Ouve o barulho da viúva a
mexer na loiça e a descompor em voz alta uns mujiques quaisquer
que lhe pediam dois rublos por cada carroça. Triste, Egor
Sávvitch pára em frente do aparador e, carrancudo, olha
demoradamente para o jarro de vodca.
– Ah, raios te partissem! – ouve ele a viúva que se atira a
Kátia. – Não há um diabo que te leve para eu me ver livre de ti!
O artista bebe um copo, as trevas vão-se-lhe desanuviando da
alma a pouco e pouco, na sua barriga instala-se uma sensação que
lhe parece fazer sorrir as entranhas. Começa a sonhar... Imagina
que se torna uma celebridade. É incapaz de idealizar as suas
futuras obras, mas imagina claramente como falam dele os
jornais, como se vendem fotografias suas nas lojas, como os seus
colegas o olham com inveja. Tenta imaginar-se numa rica sala de
estar, rodeado por admiradoras bonitas, mas, neste particular, a
imaginação pinta-lhe um cenário nebuloso e vago porque nunca na
vida se viu numa sala de estar rica; pensar nas admiradoras
bonitas também não resulta porque, além de Kátia, nunca viu na
vida qualquer admiradora ou qualquer menina da alta. Quem não
conhece a vida costuma imaginá-la pelos livros, mas Egor
Sávvitch também não conhecia livros; uma vez quis ler Gógol mas
adormeceu na segunda página...
– Não acende, este maldito! – berra a viúva no andar de baixo,
atarefando-se com o samovar. – Katka, chega-me as brasas!
O artista sonhador sente a necessidade de partilhar com alguém
as suas esperanças e sonhos. Desce à cozinha onde, no meio do
fumo do samovar, ao lado do fogão escuro, se atarefam a gorda
viúva e Kátia. Aqui, o artista senta-se no banco junto a um pote
grande e começa:
– É bom ser artista! Vou para onde quero, faço o que quero. Não
preciso de ir ao serviço, não preciso de lavrar a terra... Não
tenho chefes nem superiores... Sou eu o meu próprio chefe. E, no
entanto, sou útil para a humanidade!
Depois do almoço, deita-se a «descansar». Normalmente, faz
sestas até ao crepúsculo mas, desta vez, pouco tempo passava da
hora do almoço quando sentiu que alguém lhe puxava pela perna e,
rindo, gritava o seu nome. Abre os olhos e vê o seu colega
Ukléikin, um paisagista que tinha ido passar todo o Verão à
província de Kostromá.
– Ena! – alegra-se ele. – Olha quem cá está!
Começam os apertos de mãos, as perguntas.
– Então, trouxeste alguma coisa? Não menos de uma centena de
esboços, não? – diz Egor Sávvitch ao ver Ukléikin a tirar a sua
tralha da mala.
– Pois... Fiz umas coisinhas... E tu?... Pintaste alguma coisa?
Egor Sávvitch estica-se para trás da cama e, todo vermelho, tira
de lá uma tela presa numa grade, toda coberta de pó e de teias
de aranha.
– Aqui está... «Rapariga à janela depois de se despedir do
noivo»... – diz ele. – Fi-lo em três sessões, mas ainda está
longe do acabamento.
O quadro representa Kátia em pinceladas primárias, sentada a uma
janela aberta; para lá da janela há um canteiro e um horizonte
lilás. Ukléikin não gosta.
– Humm... Muito ar e... há uma certa expressividade – diz ele. –
Sente-se o espaço mas... este arbusto berra... Berra de mais!
Surge em cena o jarro de vodca.
Ao princípio da noite visita Egor Sávvitch o seu colega e
vizinho de casa de campo Kostiliov, pintor de temas históricos,
rapaz de uns trinta e cinco anos, também principiante e
prometedor. Tem cabelo comprido, usa blusa e colarinhos à
Shakespeare, arvora um ar de dignidade. Ao ver a vodca, franze a
cara, queixa-se do peito doente mas, acedendo aos pedidos dos
colegas, emborca um copo.
– Tenho um tema em mente... – diz ele, começando já a ficar
embriagado. – Está a apetecer-me pintar um Nero... um Herodes,
um Clepentiano ou outro velhaco qualquer do género, estão a
ver... e contrapor-lhe a ideia do cristianismo. De um lado,
Roma, do outro o cristianismo, estão a ver... Apetece-me pintar
o espírito... estão a ver? O espírito!
Em baixo, a viúva grita a cada instante:
– Kátia, traz pepinos! Vai ao Sídorov, calaceira, traz kvass !
Os três colegas rodam pelo quarto como lobos na jaula. Falam sem
parar, falam sinceramente, com ardor; estão todos os três
excitados, inspirados. Quem os ouvisse imaginaria que é nas mãos
deles que está o futuro, a fama, o dinheiro. E a nenhum deles
passa pela cabeça que o tempo corre, que a vida se aproxima do
seu ocaso a cada dia que passa, que cada um já comera muito pão
alheio e nada fizera; que todos os três são vítimas daquela lei
implacável segundo a qual entre uma centena de debutantes
prometedores apenas dois ou três se tornam alguém e que todos os
outros ficam de fora, perecem, tendo desempenhado um mero papel
de carne para canhão... estão animados, felizes e olham com
destemor para o futuro!
Por volta das duas da madrugada Kostiliov despede-se e,
ajeitando os seus colarinhos à Shakespeare, vai para casa. O
paisagista fica a dormir no quarto do pintor de género. Antes de
se deitar, Egor Sávvitch pega na vela e vai à cozinha beber
água. No corredor estreitinho e escuro está Kátia sentada na
arca, com as mãos nos joelhos, olhando para cima a vê-lo descer.
Na cara extenuada e pálida paira-lhe um sorriso deliciado,
brilham-lhe os olhos...
– És tu? Em que estás a pensar? – pergunta-lhe Egor Sávvitch.
– Estou a pensar na celebridade que o senhor vai ser... – diz
ela num meio sussurro. – Não paro de imaginar o grande homem em
que se vai tornar... Estive a ouvir a vossa conversa toda...
Estou a sonhar... a sonhar...
Kátia desata num riso feliz, depois chora e, com veneração,
pousa as mãos nos ombros da sua divindade.
|