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Um caso sem importância
A segunda desgraça do príncipe era a sua solidão absoluta. Não era casado, não tinha família, não tinha amigos. O seu carácter taciturno e fechado e a sua tendência para ser comme il faut (tendência que se ia tornando tanto mais relevante quanto mais queria esconder a sua pobreza) impediam-no de fazer amizades. Para o romance era de feitio difícil, mole e frio, por isso raramente tinha casos com mulheres... Chegados à floresta, eu e o príncipe saímos da carruagem e metemos por uma estreita vereda florestal escondida na sombra de fetos enormes. Mas não tínhamos dado ainda cem passos quando de trás dos abetos novos, de apenas um côvado de altura, se ergueu, como se nascesse da terra, uma figura esgrouviada e mirrada, de cara oblonga, casaco no fio, chapéu de palha e botas à frederica envernizadas. Uma mão do desconhecido segurava o cesto dos cogumelos, a outra brincava dengosamente com um fio barato pendurado do colete. Ao ver-nos ficou confuso, ajeitou o colete, tossicou educadamente e sorriu com amabilidade, como se fosse para ele um grande prazer encontrar gente tão boa como nós. Depois, para nossa perfeita surpresa, arrastando os pés pelas ervas, torcendo todo o seu corpo pernilongo e sem parar de sorrir amavelmente, o homem aproximou-se de nós, levantou ligeiramente o chapéu e pronunciou numa voz melíflua em que se detectava a entoação de um cão a uivar: – Eh, eh, eh... meus ricos senhores, tenho muita pena mas devo avisá-los que é proibido caçar nesta floresta. Peço desculpa por, sem me ter apresentado, me atrever a incomodá-los, mas... permitam que me apresente: Grontóvski, chefe do escritório da administração da propriedade da senhora Kandúrina! – Muito prazer, mas por que não se pode caçar? – É esta a vontade da proprietária da floresta! Eu e o príncipe olhámos um para o outro. Passou-se um minuto em silêncio. O príncipe, pensativo, observava, a seus pés, uma grande amanita derrubada com a bengala. Grontóvski continuava a sorrir amavelmente. Toda a sua cara piscava, vertia mel, o próprio fio do seu colete parecia sorrir e tentar impressionar-nos com a sua delicadeza. Pairava no ar a confusão: todos os três nos sentíamos envergonhados. – Disparate! – disse eu. – Ainda na semana passada cacei aqui. – É muito possível! – soltou Grontóvski uns risinhos, entre dentes. – De facto, toda a gente caça aqui, apesar da proibição, mas uma vez que encontrei os senhores, é minha obrigação... é meu dever sagrado avisá-los. Sou um homem dependente. Se a floresta fosse minha, dou-lhes a minha palavra de honra de Grontóvski que não poria obstáculos ao delicioso divertimento de vossas senhorias. Mas quem tem culpa de que o Grontóvski seja dependente? O esgrouviado suspirou e encolheu os ombros. Comecei a discutir, a exaltar-me, a argumentar, mas quanto mais alto eu falava mais melíflua se tornava a cara de Grontóvski. Por certo, a consciência daquele pequeno poder sobre nós dava-lhe um grandioso prazer. Via-se que se deliciava com o seu próprio tom condescendente e que punha um sentimento especial na maneira como pronunciava o seu nome sonante que, pelos vistos, adorava. Especado à nossa frente, sentia-se mais do que à vontade. Apenas uma coisa lhe estragava um pouco o estado de ânimo, a julgar pelas miradas de esconso, confusas, que deitava ao cesto: os cogumelos, essa prosa campónia, aldeã, beliscavam a sua grandeza. – Mas não podemos voltar assim para trás! – disse eu. – Fizemos quinze verstás até aqui! – Nada a fazer! – suspirou Grontóvski. – Nem que não fossem quinze, mas cem mil verstás, nem que fosse um rei vindo da América ou de qualquer outro país longínquo, eu consideraria meu dever... minha, por assim dizer, obrigação sagrada... – Esta floresta pertence a Nadejda Lvovna? – perguntou o príncipe. – Exactamente, a Nadejda Lvovna... – Ela está em casa agora? – Está... Os senhores, nesse caso, poderiam fazer-lhe uma visita... é a meia verstá daqui, não mais... Se ela lhes passar um bilhetinho, então eu... é claro! Ah, ah! Hi, hi, hi! – Pois, pode ser – concordei. – É muito mais perto ir ter com ela do que voltar para casa. Vá falar com ela, Serguei Ivánitch – disse eu ao príncipe –, já que a conhece. O príncipe, que não parara de olhar para a amanita, ergueu os olhos para mim, pensou e disse: – Em tempos conheci-a mas... não é muito conveniente que eu vá falar com ela. Além disso, estou mal vestido... Vá o senhor, porque não a conhece... É mais conveniente. Concordei. Entrámos no charabã e, acompanhados pelos sorrisos de Grontóvski, seguimos ao longo da orla da floresta até à casa senhorial. Eu nunca tinha sido apresentado a Nadejda Lvovna Kandúrina, Chabélskaia em solteira, nunca sequer a tinha visto e apenas ouvira falar dela. Sabia que a senhora era irremediavelmente rica, a pessoa mais rica de toda a nossa província... Com a morte do pai, o latifundiário Chabélski, como era filha única herdou várias propriedades, uma coudelaria e muito dinheiro. Ouvira eu dizer que, apesar dos seus vinte e cinco ou vinte e seis anos, era desengraçada, insonsa, insignificante, apenas se destacando das outras senhoras do distrito pela sua enorme fortuna. Sempre me pareceu que as pessoas sentem consoante a sua riqueza e que os ricos devem ser dotados de um sentimento especial desconhecido dos pobres. Muitas vezes, ao passar ao longo do grande jardim de Nadejda Lvovna no meio do qual se erguia o enorme palacete com as janelas sempre tapadas por cortinas, eu pensava: «O que sentirá ela neste momento? Lá, por trás daqueles estores, haverá felicidade?», etc. Uma ocasião vi-a, de longe, quando ela voltava de qualquer lado num bonito e levezinho cabriolé puxado por um magnífico cavalo branco, e – confesso o meu pecado – não só tive inveja dela como ainda pensei que no seu porte, nos seus gestos havia qualquer coisa de especial que não existia nas pessoas pouco abastadas, à semelhança do que acontece com os indivíduos servis por natureza que, ao depararem com certas pessoas de aspecto banal, mas mais nobres do que eles, conseguem sentir à primeira vista a raça que há nessas pessoas. Eu apenas conhecia a vida pessoal de Nadejda Lvovna pela via dos boatos. Dizia-se no distrito que, uns cinco ou seis anos atrás, ainda antes do seu casamento e de o pai morrer, ela estava loucamente apaixonada pelo príncipe Serguei Ivánitch, o mesmo que neste momento se sentava a meu lado no charabã. O príncipe gostava de visitar o velho e, às vezes, passava o dia inteiro na sua sala de bilhar onde, estoicamente, até às dores nas mãos e nos pés, jogava à pirâmide; de repente, porém, meio ano antes da morte do velho, deixou de visitar os Chabélski. A mexeriquice distrital, sem apresentar quaisquer dados concretos, explicava esta mudança brusca de várias maneiras. Alguns diziam que o príncipe, ao reparar no sentimento que despertara na desengraçada Nádenka e incapaz de lhe corresponder, considerou seu dever, como homem de bem, cessar tais visitas; outros afirmavam que o velho Chabélski, ao saber da razão por que a sua filha se mirrava, sugerira ao príncipe pobre que casasse com ela, mas o príncipe, por ser de espírito comezinho, teria imaginado que o queriam comprar juntamente com o seu título e ter-se-ia indignado, proferindo um rol de disparates e zangando-se com o velho. É difícil de dizer, no meio destas patacoadas, o que é verdade e o que é mentira, mas que havia nisto uma ponta de verdade via-se pelo facto de o príncipe evitar sempre as conversas sobre Nadejda Lvovna. Sei que, depois da morte do pai, Nadejda Lvovna se casou com um tal Kandúrin, um mestre em Direito vindo de fora, homem nada rico mas esperto. Nadejda Lvovna não casou por amor mas por a ter comovido o amor do mestre jurista, o qual, segundo dizem, soube desempenhar na excelência o papel de apaixonado. No presente momento da minha descrição, Kandúrin, o marido, vivia por qualquer razão no Cairo e escrevia de lá a um seu amigo, o decano da nobreza do distrito, «apontamentos de viagem», enquanto ela, rodeada de comensais parasitas, se entediava por trás dos estores descidos e dedicava os seus dias enfadonhos à pequena filantropia. A caminho da herdade, o príncipe tornou-se mais loquaz. – Há já três dias que não vou a casa – disse num meio sussurro, olhando de soslaio para o cocheiro. – Coisa curiosa: sou adulto, não sou mulher e não tenho preconceitos, mas não suporto oficiais de diligências. Quando vejo em minha casa um oficial de diligências, fico todo a tremer, pálido, e até tenho cãibras nas barrigas das pernas. Sabe, o Rogójin protestou a minha letra! O príncipe, de uma maneira geral, não gostava de se queixar das circunstâncias difíceis; quando se tratava da sua penúria, era fechado, de um amor-próprio e de uns escrúpulos exagerados, por isso as palavras dele surpreenderam-me. Olhou demoradamente para a clareira amarela aquecida pelo sol, seguiu com os olhos um bando de grous que nadavam no céu lazúli e voltou-se para mim. – Ora, a 6 de Setembro tenho de ter dinheiro disponível para pagar ao banco... os juros da hipoteca da herdade! – disse em voz alta, já sem vergonha da presença do cocheiro. – Mas onde vou arranjá-lo? Isso, paizinho, de uma maneira geral, é difícil! Ui, ui, bem difícil! O príncipe examinou os cães da sua arma e, sabe-se lá porquê, soprou-lhes para cima; depois pôs-se a procurar com os olhos os grous que perdera de vista. – Serguei Ivánitch – perguntei-lhe passado um minuto –, se, digamos, a sua Chatílovka for penhorada, o que vai fazer? – Eu? Não sei! Que vou perder Chatílovka, isso é tão certo como dois e dois serem quatro, mas nem posso imaginar uma tal desgraça. Não posso imaginar-me sem uma fatia de pão ao meu dispor. O que vou fazer? Sei lá. Não tenho instrução quase nenhuma, nunca tentei trabalhar, para entrar no serviço público já é tarde... Além disso, onde poderia eu servir? Onde poderia ser útil? Digamos que não é exigida uma grande arte para o serviço, e eu podia, nem que fosse aqui, na administração rural... mas eu tenho... sei lá, um acanhamento qualquer, enfim, não tenho um pataco de coragem. Entro para o serviço e vai parecer-me sempre que ocupo um lugar que não mereço. Não sou idealista, não sou utopista nem fanático de nenhum princípio em especial, mas, pelos vistos, sou simplesmente parvo e tenho uma grande pancada na cabeça. Sou um psicopata e um cobardolas. Enfim, não sou uma pessoa normal. Cada um é como cada qual, só que eu represento qualquer coisa... sei lá... Na quarta-feira encontrei o Nariáguin. O senhor conhece-o: um bêbado, desleixado... não paga as dívidas, aparvalhado (o príncipe franziu a cara e sacudiu a cabeça)... um sujeito horrível! Vem ter comigo a cambalear e diz-me: «Estou a candidatar-me a juiz de paz!» É claro que não vai ser eleito, mas o problema é que ele acredita que daria um bom juiz de paz, que tem capacidades para isso. Ousadia e confiança não lhe faltam. Passei também por casa do nosso juiz de instrução. Esse recebe duzentos e cinquenta rublos por mês mas não faz quase nada para além de andar todo o dia de um canto ao outro do seu quarto em roupa interior, mas fale com ele: está muito convencido de que trabalha, de que cumpre honestamente o seu dever. Eu, assim, não era capaz! Teria vergonha de olhar o tesoureiro nos olhos. Neste momento ultrapassou-nos com ostentação o Grontóvski, montado num cavalinho ruço. Do braço direito pendia-lhe o cesto em que saltitavam boletos «pão-de-ló». Ao passar por nós arreganhou os dentes e fez-nos um gesto familiar com a mãozinha como a conhecidos de longa data. – Imbecil! – disse o príncipe entre dentes, olhando-lhe para as costas. – É espantoso como, às vezes, nos abomina olharmos para estas fisionomias satisfeitas. É um sentimento estúpido, animalesco... acho que é da fome... Onde é que eu ia? Ah, sim, o serviço...Eu teria vergonha de receber o vencimento, é verdade, mas acho que, no fundo, isso é uma estupidez. Se virmos as coisas de uma forma mais ampla, mais séria, na verdade eu, agora, também como um pão que não é meu. Não é? Mas, vá-se lá saber porquê, não tenho vergonha disso... Talvez seja por hábito... ou por incapacidade de reflectir profundamente na minha situação... Ora, esta minha situação tem todo o aspecto de ser, pelo menos, terrível! Olhei para o príncipe: não estaria a exibir-se? Mas a cara dele estava serena e os seus olhos seguiam tristemente a andadura do cavalinho ruço que se afastava, como se, juntamente com ele, se afastasse a felicidade. Caíra por certo naquele estado de irritação e tristeza em que as mulheres choram silenciosamente e sem motivo e os homens sentem a necessidade de se queixarem da vida, de si mesmos, de Deus... Ao portão, quando eu me apeava do charabã, o príncipe ainda disse: – Uma ocasião, um senhor que quis alfinetar-me disse que eu tinha aspecto de batoteiro. Eu próprio já reparei que os batoteiros são na sua maioria morenos. Parece-me, está a ver?, que se eu realmente nascesse batoteiro, mesmo assim havia de me manter até à morte um homem decente, porque me faltaria a coragem para fazer o mal. Digo-lhe sinceramente que já uma vez tive oportunidade de enriquecer. Se, uma vez na vida, tivesse mentido a mim próprio e a uma... e a uma pessoa que perdoaria a minha mentira, sei-o bem, meteria ao bolso um milhão de rublos. Mas não fui capaz! Não tive estômago! Para ir do portão ao solar era preciso atravessar o bosquedo por um caminho comprido, recto como uma régua, ladeado por arbustos espessos e aparados de lilaseiros. O solar era uma coisa de mau gosto, pesada, com a sua fachada semelhante à de um teatro. Erguia-se com deselegância no meio da verdura e feria os olhos como um calhau grande deitado para a relva aveludada. Fui recebido à entrada principal por um velho lacaio obeso de casaca verde e grandes óculos de prata; sem me anunciar, limitando-se a deitar um olhar enojado à minha figura empoeirada, levou-me para dentro. Quando eu subia uma escada atapetada, cheirava, não sei porquê, a cauchu; em cima, no vestíbulo, atingiu-me aquele ar que apenas se sente nos arquivos, nos aposentos senhoriais e nas casas antigas de comerciantes: um cheiro repassado a qualquer coisa que viveu outrora e já morreu, deixando nas salas a sua alma. Do vestíbulo até à sala de estar, atravessei três ou quatro salas. Lembro-me dos soalhos em amarelo vivo, brilhante, dos lustres cobertos de gaze, das carpetes estreitas, às riscas, que não se estendiam de porta a porta, como é costume, mas se encostavam às paredes, obrigando-me, com medo de pisar com as minhas botas rudes de mato o chão brilhante, a executar uma trajectória quadrilátera. Na sala de estar onde me deixou o lacaio havia móveis antigos envoltos na penumbra e encimados por panos brancos. Os móveis olhavam com severidade, à maneira dos velhos, e, como que por respeito ao seu sossego, não se ouvia o mínimo som. Até o relógio estava calado... A princesa Tarakánova parecia adormecida na sua moldura dourada, com a água e as ratazanas paralisadas por força do feitiço[1]. A luz do dia, receando violar o sossego geral, mal penetrava através dos estores descidos e caía nos tapetes macios em faixas pálidas e sonolentas. Três minutos depois entrava na sala, numa passada silenciosa, uma velha alta vestida de preto e com um penso na bochecha. Fez-me uma vénia e levantou os estores. De súbito envolvidas na luz forte, revivificaram-se as ratazanas e a água do quadro, acordou Tarakánova, piscaram os olhos as soturnas poltronas senis. – A senhora já vem... – suspirou a velha, franzindo também os olhos. Após mais alguns minutos de espera, vi finalmente Nadejda Lvovna. A primeira coisa que me saltou à vista foi que ela era efectivamente desengraçada: pequena, magra, um pouco curvada. É certo que o seu cabelo, espesso, castanho, era luxuoso; que o seu rosto, limpo, o rosto de uma intelectual, emanava juventude; que o seu olhar era inteligente e claro, mas todo este encanto se perdia por causa de uns lábios grandes e gordos e do ângulo facial demasiado agudo. Apresentei-me e disse do motivo da minha visita. – Francamente, não sei o que possa fazer! – disse ela, pensativa, baixando os olhos e sorrindo. – Eu não gostaria de lhe dar uma recusa, mas ao mesmo tempo... – Por favor! – pedi-lhe. Nadejda Lvovna olhou para mim e riu-se. Também eu me ri. Devia parecer-lhe engraçada a mania que deliciava Grontóvski: o direito de autorizar ou proibir qualquer coisa; mas, para mim, começava a tornar-se estranha e curiosa aquela minha visita. – Eu não queria violar as regras há muito estabelecidas – disse Kandúrina. – Já vai para seis anos que a caça está proibida nas nossas terras. A minha resposta é não! – abanou resolutamente a cabeça. – Desculpe, mas tenho de lho recusar. Se eu lhe desse autorização, teria de a dar também aos outros. Não gosto da injustiça. Para todos ou para ninguém. – É pena! – suspirei. – É triste, ainda por cima porque fizemos quinze verstás. Não estou sozinho – acrescentei. – Está comigo o príncipe Serguei Ivánitch. Trouxe à baila o nome do príncipe sem quaisquer segundas intenções, foi a pura ingenuidade que me levou a soltar aquilo, sem pensar, sem que me movessem quaisquer considerações ou intenções especiais. Ao ouvir o nome, Kandúrina estremeceu e fixou em mim um longo olhar. Reparei que o seu nariz tinha empalidecido. – Isso não interessa... – disse ela, baixando os olhos. Tinha-me posto junto à janela que dava para o pequeno bosque e era dali que falava com ela. Abria-se diante de mim todo o bosque com as suas alamedas, os lagos e o caminho por onde tinha entrado. No princípio do caminho, atrás do portão, via-se as traseiras do nosso charabã preto. Junto ao portão, de costas para a casa e com as pernas afastadas, estava o príncipe, conversando com o esgrouviado Grontóvski. Quanto a Kandúrina, manteve-se sempre junto de outra janela. Lançava um olhar para o bosque apenas de vez em quando, mas, a partir do momento que pronunciei o nome do príncipe, não tirou mais os olhos da janela. – Desculpe – disse ela, com os olhos piscos fixados no caminho e no portão –, mas seria injusto permitir caçadas apenas aos senhores... Além disso, que prazer é esse de matar as aves? Porquê? Elas incomodam-no? A vida solitária, confinada em quatro paredes, a penumbra das salas e o pesado cheiro dos móveis a apodrecerem predispõe para o sentimentalismo. A ideia que Kandúrina expusera merecia todo o respeito, mas eu não me contive e disse: – Por essa ordem de ideias, teríamos de andar descalços. As botas são feitas da pele de animais abatidos. – É preciso distinguir entre necessidade e capricho – respondeu Kandúrina surdamente. Já reconhecera o príncipe e não desviava os olhos do seu vulto. É difícil descrever a admiração e o sofrimento que luzia no rosto feio dela! Os seus olhos sorriam e brilhavam, os lábios tremiam e riam, a cabeça esticava-se-lhe para os vidros. Segurando-se com as duas mãos a um vaso de planta, levantando ligeiramente um pé e retendo a respiração, Nadejda Lvovna lembrava um cão na postura de alerta e à espera, com impaciência apaixonada, da ordem de «apanha!». Olhei para ela, olhei para aquele príncipe que não tinha conseguido mentir uma vez na vida, e senti um desgosto, uma amargura por ver que a verdade e a mentira desempenham um papel tão espontâneo na felicidade pessoal dos homens. O príncipe, de repente, estremeceu, apontou e deu um tiro. O gavião que planava por cima dele bateu as asas e voou vertiginosamente, afastando-se. – O tiro foi alto de mais! – disse eu. – Portanto, Nadejda Lvovna – suspirei, abandonando a janela –, não nos dá autorização... Kandúrina calava-se. – Então despeço-me, com todo o respeito – disse eu – e peço desculpa pelo incómodo... Já Kandúrina dera um quarto de volta para se virar para mim, mas parou e escondeu a cara atrás da cortina, como se sentisse lágrimas nos olhos e quisesse disfarçá-las... – Adeus... Desculpe... – disse baixinho. Fiz-lhe umas vénias às costas e, já sem qualquer cuidado com as carpetes, voltei pelo soalho amarelo vivo. Tinha o alívio de abandonar aquele pequeno reino de tédio dourado e de tristeza, e apressava-me, como se quisesse acordar de um pesado sonho fantástico com as suas penumbras, a sua Tarakánova, os seus lustres... À saída, uma criada de quarto apanhou-me e entregou-me um bilhete. «É autorizada a caça ao portador deste bilhete. N. K.», li eu. [1] Trata-se de uma cópia do quadro «A princesa Tarakánova», do pintor russo Konstantin Flavítski (1830-1866). Elisaveta Tarakánova (1745-1775) era uma aventureira política que se fez passar por filha da imperatriz Isabel e, como tal, pretendia ao trono russo; morreu de tuberculose na prisão; porém, pela lenda, morreu afogada durante a inundação, e é esta lenda que o quadro representa. (NT)
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