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Régis Bittencourt
Sexta, liguei pra Igor.
“Qual a balada hoje?”
“Curitiba”
“O quê?”
“Lançamento dos livros. Mas antes vou passar na casa de Paolo”
“Ok. Te encontro lá”
Fiz a mochila, tomei um banho, fechei dois beques e fui pra casa
de Paolo. Começava a esfriar. Tomamos vinho. Na sala, uma
televisão passando O Lixo e A Fúria, mudo, com legendas em
japonês. No monitor do pc, Allen Ginsberg, todo colorido, falava
feito um papagaio demente. Felizmente, o vídeo do Ginsberg
também estava mudo. Paolo selecionava as músicas na máquina.
Maíra cozinhava. Rodolfo falava. Igor assumiu o pc: abre janela,
abre janela, escreve uma frase, outra janela, rotação, rotação,
quatro janelas, uma foto de Marcos Valério, o brasão da cidade
de Curitiba. “Pronto. Deixa assim um tempo”. Igor, o louco.
Fomos andando até a Vergueiro, onde paramos pra comer e tomar um
chope. 10:30 pm. Os carros passavam próximos. Folheei a edição
do Guia do Turista Armado, livro novo de Bonazzoli. Hambúrguer
fantástico, alface, cebola picada, queijo, pimenta, molho. Igor
aponta a avenida e faz um comentário sobre a velocidade dos
objetos em nossa cidade. O fluxo constante de pessoas. Os ruídos
que, unidos, constituem um ronco de vida e morte. As luzes. A
capital do Nordeste é realmente incrível.
Caminhamos pelo canteiro do meio da Vergueiro, por entre o
trânsito denso, fumando um beque, até a estação Paraíso, onde
tomamos o metrô pra rodoviária do Tietê. Entre Tiradentes e
Armênia, o trem ascende à superfície, e temos uma última visão
da cidade: o rio sujo, as inúmeras pistas da Marginal, o
Canindé. À meia-noite, estamos na Régis Bittencourt. Odeio
viajar de ônibus. O motorista, naturalmente, ultrapassa
caminhões em locais proibidos. Não consigo dormir direito. A
estrada pra Curitiba é linda, mas uma das mais perigosas.
Montanhas e curvas.
6:30 am. Saindo do ônibus, bate o frio. O termômetro marca 3
graus. “E agora”, pergunto. “Agora a gente pega um táxi pro
aeroporto e volta pra São Paulo”, Igor, chocado com o frio.
Andamos pelo centro. Comemos numa padaria. O céu azul, sem
nuvens. Ar puro, enfim. No caminho pra casa de Adriano, passamos
por um dos prédios da Universidade Federal. Logo na entrada, o
cartaz do lançamento do Guia do Turista Armado e do Microafetos,
livro de Igor.
Tocamos o interfone no prédio de Adriano. “Alô”. “Aqui é Igor,
acabei de chegar”. Silêncio. “Eh-hum-na...”. A voz resmunga do
outro lado, mas nada diz. Começo a me impacientar. “Ig... Igor.
Já chegou?”. “Cheguei”.
Adriano é magro, muito branco, a barba loira por fazer, o cabelo
ralo, um eterno cigarro entre os dedos. O apê é imundo.
Cinzeiros, bagas, porcarias pelo chão, garrafas de uísque etc.
Mais dois moram por lá. Adriano me diz que trabalha como
psicólogo numa casa de detenção de menores, e que Dalton
Trevisan é seu vizinho. Um outro é bancário e fotógrafo. O
terceiro, apenas bancário. Adriano precisa dormir. Decidimos
andar pela cidade. Levo a mochila comigo, não posso dormir
naquela bagunça.
A cidade é bonita. Muitas árvores, casas antigas. Sol. Frio.
Céu. Andar é bom. As pessoas e tudo o mais. Temo que Igor
resolva entrar nas igrejas ou visitar museus, pois, neste caso,
teríamos que nos separar. Felizmente, não é essa a sua idéia. A
XV de Novembro é uma rua linda, pelo menos na parte do calçadão.
Adoro ruas lindas. Tomo um sorvete na XV, fumo um cigarro.
Caminhamos. As árvores. Preciso dormir. No largo da Ordem, ligo
pra casa de Vera. Ela atende, me explica qual ônibus devo pegar.
Caminho até a praça Carlos Gomes, onde tomo o ônibus pro Bairro
Alto, nome que me traz ótimas recordações do melhor bairro de
Lisboa.
O lugar é longe, cruzo a cidade. Passo pelo Pinheirão. Muito
parecido com o Canindé, sua arquitetura. O Bairro Alto parece
uma cidade de interior. Casinhas sem muro. Sou recebido muito
bem por Vera e suas lindíssimas filhas adolescentes, Lisandra e
Isa. Loiras, claras, curitibanas típicas. Me oferecem comida.
Recuso. Conversamos. Explico que preciso dormir, que vou prum
lançamento de livro mais tarde, mas que à noite não voltarei.
Durmo no quarto de Isa. Uma maravilha. A cama rosa e
confortável, os livros arrumadinhos na estante, alguns bichos de
pelúcia, o cheiro de mulher. Eu tava no paraíso dos homens com
sono. Dormi profundamente, acordei de pau duro. As moças
jantavam na sala. Coca-cola e comida chinesa. Sentei e comi com
elas. Conversamos bastante. Precisava de um banho. “Tem um
banheiro no corredor, mas te aconselho a tomar banho no do
quarto de minha mãe. É muito melhor”, disse Lisandra. De fato, o
chuveiro era fantástico.
Peguei o ônibus pro centro. XV de Novembro, de novo. Comi um
sanduíche, tomei uma cerveja e fui pro lançamento no Café
Mafalda, um bar hipertransado de putos intelectuais que havia
sido arrancado da Vila Madalena e transportado num
superguindaste diretamente pro centro de Curitiba. Na mesa,
Igor, Bonazzoli e Justine de Berlim, sua mulher, vendiam livros.
Eu conversava com duas curitibanas. Uma delas, Fernanda, fazia
mestrado em filosofia e começou a me falar sobre sua tese.
Rousseau. Sua tese era sobre Rousseau. Fingi interesse e dei
corda pra que continuasse falando. Adriano me passou um flyer do
lugar que iríamos: festa rocker com DJ Claudinha Bukowski. Meu
deus.
Depois do lançamento, passamos na casa de Adriano pra deixar as
coisas. Adriano tirou um papel do bolso e começou a bater as
carreiras. Igor acendeu um beque. Bonazzoli abriu uma ceva.
Recusei os três. Adriano pegou o uísque. Aceitei uma dose.
Fernanda e Adriano se beijaram. Descemos e fomos pra parada.
O lugar era uma casa de rock como todas as outras: meninos e
meninas uniformizados com seus piercings, tatuagens, drogas e, é
claro, a música da moda, Strokes, Franz Ferdinand etc. Certas
coisas não mudam. Deixei meu casaco na chapelaria e chamei
Fernanda pra dançar. Nos beijamos. Nosso beijo não fluiu. Subiu
pra pegar uma cerveja. Na pista de dança, me bati com Adriano.
“Você tá ficando com a Fê?”.
“Não”, respondi.
“Aqui tem de tudo: homens, mulheres, gays, lésbicas”.
“Eu sei”.
Silêncio.
“Eu sou bissexual”.
“Ok”.
Silêncio.
“Depois a gente pode fazer uma suruba lá em casa”.
“Tudo bem”.
Bonazzoli, Igor, Justine de Berlim e mais dois ou três do grupo
chegaram. Dança e bebida. Fernanda voltou. A cerveja tinha
acabado. Fernanda conversava com um amigo gay. Me afastei do
grupo e fui dançar em outro canto. Uma loira peitudinha me
olhava. Fui até ela.
“Olá”, falei.
“Você tava no Café Mafalda?”
“Tava. Você também?”
“Sim, eu sou gerente de lá.
A mina parecia ter uns dezoito anos; usava aparelho. Não tinha
cara de gerente. Me disse umas coisas no ouvido. Não conseguia
entender nada. A música tava alta. Nos beijamos, dançamos. Fomos
prum canto. Me disse muitas coisas sem nexo. Não faziam muito
sentido. Provavelmente, tinha tomado um E. Alisava meu braço.
Seus beijos eram estranhos e rápidos, mas gostosos. Alternava os
beijos com frases esquisitas, respondia coisas que eu não havia
perguntado. Era filha de ucranianos. Começou a falar ucraniano
em meu ouvido. Gostei. Perguntou onde eu morava. “São Paulo”. “E
aqui, onde você mora aqui?”. “Aqui perto, no centro. Tou na casa
de um amigo. E você?”. “Aqui perto”. Subi pra pegar uma cerveja.
Quando voltei, ela tava beijando outro cara. Fui dançar. Depois,
vi ela sozinha. Fui até ela e ofereci cerveja. Nos beijamos.
“Eu tava no Café Mafalda”, disse ela.
“Eu sei. Você me disse”.
“Sou gerente de lá”
Silêncio.
“Eu te vi no balcão. Você tava no balcão, não tava?”
“Não me lembro. Por quê?”
“Eu te vi e disse pra minha amiga: ‘nossa, que menino lindo!’”
Não pude deixar de sorrir.
“Você tá de ecstasy”, perguntei.
“Não. Eu não uso drogas”.
Depois, ficou me dizendo umas coisas, a maioria sem sentido
aparente, frases soltas sobre os pais ucranianos, a gerência do
Café Mafalda etc. Eu disse que ia pegar outra cerveja e fui
atrás de Adriano. “Adriano, você conhece aquela loira de
vermelho que tava comigo?”. “Conheço. É cozinheira do Café
Mafalda”. “Ela é louca?”. “É”. Encontrei Igor e ficamos
conversando. Decidi voltar pra São Paulo assim que saísse de lá.
Se eu dormisse em Curitiba, não conseguiria dormir no ônibus, o
que seria péssimo. Igor só voltaria à noite.
Já era de manhã. Paguei. Desci pra ir no banheiro e sair daquele
lugar. Entrei na fila. A ucraniana tava lá, beijando outro cara.
Quando me viu, largou o cara e veio em minha direção. Nos
beijamos. “Você voltou”, disse ela. “Os caras ficam querendo me
agarrar... Você mora aonde?”. “São Paulo”. “Nãããão... Onde você
mora aqui?”. “Aqui perto”. Entrei no banheiro. Ela entrou junto.
Mijei. Ela mijou, de cócoras sobre o vaso, o mijo escorrendo
entre as pernas finas e brancas. Voltamos pra pista. “Eu tou
indo. Você quer vir comigo”, perguntei. “Onde você mora?”. “Aqui
perto. Você vem?”. “Não”. “Quer meu e-mail?”. “Não”. “Então
tchau”. “Tchau”.
Andávamos pelas ruas frias de Curitiba. Adriano cambaleava. Mal
conseguia falar de tão bêbado. Ouvi um barulho de vidro
quebrando. Uma mulher tinha jogado uma garrafa na calçada. Vinha
em nossa direção. Quando passou, disse: “Um mais gostoso que o
outro”. Eu e Igor continuamos andando, mas Adriano ficou. Parei
na esquina e olhei pra trás. Conversavam. Adriano, apoiado na
parede, tentava se manter em pé. Fui até eles. Igor veio atrás.
Adriano tentava falar, mas não conseguia.
“Você quer vir com a gente”, perguntei à mulher.
“Pra onde?”
“Pra casa dele”, apontei pra Adriano.
“Não, mas podemos ir pra minha”.
“Não. A gente mora aqui perto. Se quiser, pode vir com a gente”.
“Certo. Vinte reais de cada. Faço com os três ao mesmo tempo. Um
na boca, um na buceta e o outro no cu”, disse, muito séria.
“Não”, falei. A mulher se mandou. Adriano tentava falar: “Eu...
eu... eu... queria... eu queria”. “Se fosse só comigo, num
quarto, de porta fechada, até que eu topava”, disse Igor, o
puro. Eu não tinha dinheiro. Igor tinha pagado minha passagem e
me emprestado uma grana.
Peguei minha mochila na casa de Adriano e fui andando pra
rodoviária. Meia hora de caminhada. Já era dia. Peguei o ônibus
das sete. Dormi. Acordei em Taboão da Serra, região
metropolitana de São Paulo. Um mar de prédios à frente. O ar
sujo. Milhões de pessoas se amando, se odiando.
PAULO BULLAR nasceu em Salvador (1980) e mora em São Paulo.
Participou do e-zine k. Publicou Húmus (Livros do Mal, 2002).
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