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Ilustração: Wayne Thiebaud |
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“Pode ser para ti que
eu não me importo...”
Fátima d’Oliveira
Tenho medo
Medo disto, do que vou escrever.
Medo do que me assalta.
Se descobrem quem sou, se me reconhecem?
E o pior, se descobrem quem tu és?
Não importa.
Nunca ninguém vai ler isto.
Muito menos tu.
Eu só sei que tenho que abrir a minha alma.
Conheço-te há já muitos anos. Ou melhor, sei quem tu és há já
muitos anos. E tu sabes quem eu sou.
Mas apesar de todo esse conhecimento, lembro-me que nunca me
senti completamente à vontade contigo. Não que me fizesses mal,
ou coisa parecida. Não, antes pelo contrário. Eras até muito
simpático (ainda o és) e correcto comigo. Correcto até demais,
quase que até ao desespero. Logo comigo, que tive várias (e
friso aqui o várias) paixonetas por ti. Lembro-me especialmente
duma altura em que estava firmemente convencida que tu eras o
tal, a outra metade de mim. Mas não.
Conheci-te várias – acho que o mais correcto seria dizer muitas
– namoradas. Aliás, a tua fama de namoradeiro era (não sei se
ainda é) terrível: não havia rapariga a quem tu não tentavas
lançar a isca. Fossem altas ou baixas, magras ou gordas, bonitas
ou feias. E muitas morderam. Mas houve pelo menos uma com quem
tu nunca tentas-te nada: eu. Não sei porquê. Sei que não sou
bonita, mas também não sou pior que o susto. Gosto de pensar (se
calhar, estou a iludir-me) que foi por respeito. Mas não foi só.
Por mais que eu me tente enganar, eu sei que há outro sentimento
envolvido: receio. Só que este não é um pensamento lá muito
agradável...
Bom, os anos foram passando a correr, voando, e quase que
deixámo-nos de ver. Os nossos encontros eram sempre em
casamentos (de amigos nossos), em baptizados (dos filhos dos
nossos amigos), ou então nos lançamentos dos livros de um outro
nosso amigo. E mesmos esses encontros eram assim fugidios,
inconsequentes.
Já nessa altura eram visíveis os sintomas desta doença que teve
o extremo mau gosto de se meter comigo. Lembras-te de antes eu
ter falado em receio?... Pois eu tive a confirmação. Da tua
própria boca. Sabes como?... Deves estar lembrado daquele
acidente de viação, muito grave, que o nosso amigo autor teve.
Pois bem. Também deves estar lembrado que eu te telefonei a
saber se ias visitá-lo, porque assim eu também estaria
interessada em ir. E sabes o que me disseste?... Que muito
provavelmente não irias, pois as pessoas doentes deixavam-te
desconfortável, sem saber o que fazer ou dizer. Numa palavra:
tinhas receio.
Mais alguns anos passaram.
Uma noite, estava com três casais amigos (que também são teus
amigos), na casa de um dos casais, a conversar e a jogar às
cartas, quando (já nem sei porquê) o teu nome veio à baila. Eu
disse-lhes que sabia que evitavas a minha companhia.
Perguntaram-me porquê. Eu respondi: por receio.
Acontece que um desses casais ainda não o era, oficialmente
falando. Iam casar alguns meses depois. Tanto tu como eu fomos
convidados para a cerimónia. E no copo-de-água ficamos sentados
na mesma mesa, lembras-te?... Eram lugares marcados e cada mesa
tinha o nome duma flor – eu até ainda me lembro do nome da flor:
amores-perfeitos... Sempre me convenci (na verdade, ainda o
estou), que eles fizeram de propósito: sentarem-nos na mesma
mesa. Seja como for. Quando o soubeste, mais uma vez tiveste
receio. Não negues. Eu vi, eu estava lá. Li isso nos teus olhos.
E não te esqueças que os olhos são o espelho da alma... Se ao
princípio estavas assustado e muito calado, com o decorrer do
almoço esse teu receio desanuviou. Posso mesmo dizer que
desapareceu. Quer dizer, eu um por lado até compreendo: se
calhar estavas com medo que eu passasse o almoço a queixar-me ou
a maldizer a minha sorte. Enganaste-te. Não é o meu estilo. Eu
não sou assim.
Bom, continuando a falar do casamento, viste de tal maneira que
eu não era nenhum bicho-de-sete-cabeças, que conversa-mos,
juntamente com mais amigos, todos juntos num grupo muito
divertido, toda a tarde. Mais tarde, já ao jantar, também
tiveste um bocadinho ao pé de mim, e disseste-me algo que me fez
sentir muito bem. Estava-mos sozinhos e falava-mos de eu ir
deixar o meu emprego e de me ir estabelecer por conta própria.
Ás tantas eu disse “deixa estar, que eu não me atrapalho”. E
lembras-te do que me disseste?... Foram apenas duas palavras,
mas disseram tudo. Disseste “eu sei”.
Passaram só mais alguns meses e eu consegui editar o meu livro.
O meu primeiro (digo primeiro, porque quero escrever mais)
volume de contos. Mal te vi na festa de lançamento. Aliás, eu
mal vi quase toda a gente...
Passou mais de um ano até nos vermos novamente.
Foi na festa de aniversário de um amigo nosso. E mais uma vez me
disseste algo que eu adorei ouvir: disseste, acerca da minha
escrita, que eu tinha a capacidade de agarrar a atenção dos
leitores logo às primeiras palavras e que, muitas vezes, deixava
os mesmos leitores a pedirem mais. Como foi mesmo que tu
disseste?... Ah, sim, que eu os deixava “com um gostinho bom na
boca”, a pedir por mais. Não sabes como foi bom para mim ouvir
isso.
Nunca mais te vi depois disso.
Mas às vezes dou por mim a pensar em ti.
Não me perguntes porquê.
Se calhar estou a ficar maluca... Ou então se calhar sinto a tua
falta, de ouvir a tua voz, de ouvir o que tu tens para me
dizer...
Não sei.
Mas sabes, há uma coisa que eu ainda não te contei: a coisa mais
doce que me disseste. E que também foi o elogio mais bonito que
já me fizeram.
Já se passou há um bom par de anos.
Lembras-te daqueles espectáculos que fazia-mos?... Lembras-te,
com certeza...
E também te lembras dos ensaios para o último espectáculo que
realizámos: eram às Sexta-feira, 21h30, todas as semanas.
Ora, eu nessa altura já estava a trabalhar e frequentava um
curso à noite, cujas aulas terminavam exactamente às 21h30. Ou
seja, eu chegava sempre depois da hora. Mas era um atraso
justificado, todos sabiam porque é que eu chegava mais tarde.
Mesmo assim, era frequente meterem-se comigo devido a esses
atrasos, pois, como eu sempre fervi em pouca água (às vezes até
mesmo em doca seca), era uma maneira de me irritarem. E eu
irritava-me. Irritava-me ainda mais porque eu sabia que estavam
a provocar-me e caía sempre na esparrela.
Uma certa vez eu estava a conversar com duas amigas e tu estavas
mais distante, a olhar para a gente e a ouvir o que estava-mos a
dizer. De repente, interrompes-nos e colocas-me uma pergunta.
Eu, sem me aperceber de qual era a questão, fico logo irritada,
pois penso que, como de costume, te estavas a meter comigo por
causa do meu atraso. Espeto o dedo indicador da mão esquerda e
começo a responder-te quando, de repente, caio em mim e me
apercebo de qual era a pergunta. Envergonhada, mordo o dedo que
tinha espetado. Uma das amigas, com quem eu tinha estado à
conversa, apercebe-se de toda a situação e começa a rir a
bandeiras despregadas. A tua pergunta foi, tão somente, esta:
“porque é que hoje vens tão bonita?”
FÁTIMA D’OLIVEIRA nasceu em 1970 na, na altura, aldeia do
Vale de Santarém, povoação no concelho de Santarém, vila,
presentemente, onde ainda reside. Desde cedo que revelou
apetência para a escrita, mas para ela tudo começou no final da
década de noventa, quando alguns trabalhos seus foram publicados
no jornal regional “O Mirante”. O próximo passo foi a inclusão
de um trabalho seu na colectânea de contos “Conta-me Estórias”
(Minerva), em Abril de 2000. Esse mesmo ano culminou, em
Outubro, na edição de um volume de contos da sua autoria “Se tu
visses o que eu vi” (MG Editores).
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