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O couteiro

Anton Tchecov
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra
Um meio-dia quente e abafado. Nem uma nuvem no céu... As ervas
ressequidas pelo sol estão tristes, desesperadas: nem que chova,
nunca mais serão verdes... O alto das copas da floresta imóvel e
calada é como um olho alerta, como que à espera de alguma coisa.
Pela orla desbastada da floresta caminha preguiçosamente,
balançando-se, um homem alto, de ombros estreitos, dos seus
quarenta anos, vestindo camisa vermelha, calças finas de senhor
mas remendadas, de botas grossas. Arrasta-se pelo caminho. À sua
direita verdeja a clareira, à sua esquerda, até à linha do
horizonte, estende-se o mar dourado de centeio maduro... O homem
vai suado e vermelho. Na sua bela cabeça loira poisa
galhardamente um boné branco de pala direita, à jóquei, pelos
vistos prenda generosa de algum fidalgote. Do ombro prende-lhe a
bolsa de caçador, com um tetraz lá dentro. Leva a espingarda de
dois canos engatilhada e olha com olhos piscos para o cão velho
e magro que se lhe adianta, cheirando os arbustos. Em redor tudo
é silêncio, nem um som... Tudo o que é vivo se escondeu do
calor.
– Egor Vlássitch! – chama-o uma voz baixinha.
Estremece e, de sobrolho carregado, olha em volta. A seu lado,
como se nascesse da terra, surge uma mulher de uns trinta anos,
pálida, de foice na mão. Tenta fixar a cara dele, sorri-lhe com
timidez.
– Ah, és tu, Pelagueia! – diz o couteiro, parando e desarmando
devagar os cães da arma. – Humm!... Como é que vieste parar
aqui?
– Estão cá as mulheres da nossa aldeia a trabalhar, por isso eu
também... À jorna, Egor Vlássitch.
– Pois... – murmura Egor Vlássitch e continua a andar, vagaroso.
E Pelagueia atrás dele. Caminham uns vinte passos em silêncio.
– Há muito que não o vejo, Egor Vlássitch... – diz Pelagueia,
olhando com ternura para os movimentos dos ombros do couteiro. –
Desde a Páscoa que o não vejo, quando passou lá por casa para
beber água... Foi pela Páscoa, entrou por um minuto, e mesmo
assim naquele preparo... bêbado de todo... Ralhou, bateu-me e
saiu... E eu à espera, à espera... sempre a olhar até estragar
os olhos, a ver se aparecia... Ai, Egor Vlássitch, Egor
Vlássitch! Ao menos uma vez...
– Fazer o quê?
– Nada, é claro, mas... a casa, pronto, essas coisas... Para ver
como está tudo... Sempre é a sua casa... Ena, matou um tetraz,
Egor Vlássitch! Não quer sentar-se um bocadinho, descansar?
Pelagueia não pára de rir como uma parvinha ao dizer tudo isto,
erguendo os olhos para o rosto de Egor... A cara da mulher
respira felicidade...
– Sentar-me? Pode ser... – diz Egor Vlássitch com indiferença e
escolhe um lugar entre dois abetos quase pegados um ao outro. –
E tu, por que estás de pé? Senta-te também!
Pelagueia senta-se mais afastada, ao sol, e, envergonhada da sua
felicidade, tapa com a mão a boca sorridente. Passam dois
minutos em silêncio.
– Ia lá a casa, uma vez que fosse – diz baixinho.
– Para quê? – suspira Egor, tira o boné e limpa a testa vermelha
à manga. – Não há necessidade. Ir lá a casa por uma ou duas
horas é perda de tempo e só te ia atrapalhar a vida, e, quanto a
ficar a viver na aldeia para sempre, isso eu não aguentava...
Sabes que eu sou um homem mimado. Para mim tem de ser boa cama,
bom chá, conversa esmerada... tudo do melhor, e na tua aldeia só
há surro e pobreza... Nem um dia aguentava. Se saísse um
decreto, suponhamos, que me obrigasse a ir viver para lá
contigo, acho que deitava fogo à isbá, ou então dava cabo de
mim. Desde pequeno que sou assim mimado, nada a fazer.
– Onde é que vive agora?
– Em casa do amo, Dmítri Ivánitch, sou o couteiro. Trato da caça
para a mesa dele, mas, no fundo... ele tem-me lá por gosto.
– Isso não é um modo de vida sério, Egor Vlássitch... Para o
resto das pessoas é um divertimento, mas para si é como se fosse
um ofício a valer... um trabalho a sério...
– Tola, não percebes nada – diz Egor, olhando sonhadoramente
para o céu. – Nunca percebeste e nunca hás-de perceber que
espécie de homem eu sou... A teu ver, sou um homem
desencaminhado, um cabeça no ar, mas, para quem percebe as
coisas, sou o primeiro atirador entre os melhores do distrito.
Os senhores sentem-no, e até já escreveram sobre mim no jornal.
Nestas coisas da caça, não há quem se me compare. Mas olha que
se eu desprezo esse vosso trabalho campónio, não é por capricho
nem por orgulho. Desde pequeno, fica sabendo, que nunca tive
outro modo de vida a não ser a espingarda e os cães. Tiravam-me
a espingarda, pegava na cana, tiravam-me a cana, caçava à mão.
Também negociava em cavalos, quando tinha dinheiro corria essas
feiras todas, e tu sabes muito bem que o mujique, quando se mete
no negócio dos cavalos ou na caça, adeus charrua. Basta que o
espírito livre entre no homem uma vez, e pronto, já não há nada
que lho arranque. É como um senhor, por exemplo, que se meta em
actor ou artista de outra coisa qualquer: já nunca mais há-de
ser funcionário ou agricultor. És mulher, não percebes estas
coisas, mas isto é que é preciso perceber.
– Eu percebo, Egor Vlássitch.
– Não, se percebesses não estavas aí a preparar-te para chorar.
– Eu... eu não choro... – diz Pelagueia, virando-lhe a cabeça. –
É pecado, Egor Vlássitch! Fosse ter comigo, coitada, um dia que
fosse. Há doze anos que nos casámos e, quanto a amor... nunca
houve nada entre nós!... Eu... não choro...
– Amor... – murmura Egor, coçando o braço. – Não pode haver amor
nenhum. Só no papel é que somos marido e mulher, mas isso é
alguma coisa? Eu, para ti, sou um selvagem, e tu, para mim, és
um pacóvia ignorante. Somos algum casal? Eu sou livre, mimado,
estróina, e tu andas à jorna, és um campónia de alpargatas,
vives na imundície e nem tens tempo de endireitar as costas de
tanto trabalho. Eu penso de mim que sou o maior na arte da caça,
e tu olhas para mim com piedade... Que casal é que podemos ser,
então?
– Mas somos casados pela igreja, Egor Vlássitch! – soluça
Pelagueia.
– Não foi por minha livre vontade... Já te esqueceste? Agradece
ao conde Serguei Pávlitch... e a ti própria. O conde, por inveja
de eu ser melhor atirador do que ele, andou a embebedar-me
durante um mês inteiro; ora, a um bêbado, não só se pode casá-lo
como até convertê-lo a outra religião. Pois ele, então, por
vingança casou-me contigo... Um caçador com uma ordenhadora!
Viste que eu estava bêbado, por que aceitaste? Não eras serva,
podias recusar-te! É certo que, para uma ordenhadora, casar com
um caçador é uma felicidade, mas também é preciso ter juízo.
Agora arrepela-te, chora. Para o conde foi uma brincadeira, e
para ti, lágrimas... a cabeça contra a parede...
Cai o silêncio. Voam sobre a clareira três patos bravos. Egor
olha para eles e acompanha-os com os olhos até que se
transformam em três pontinhos quase indistintos e poisam longe,
para lá da floresta.
– De que vives? – pergunta, passando o olhar dos patos para
Pelagueia.
– Agora ando à jorna, e no Inverno tomo conta de uma criança do
orfanato, dou-lhe o biberão. Pagam um rublo e meio por mês.
– Pois...
De novo uma pausa silenciosa. Da faixa do restolhal chega um
cantar baixinho, mas logo se cala. Está calor de mais para
cantar...
– Dizem que vossa mercê montou casa à Akulina, uma isbá nova –
diz Pelagueia.
Egor não responde.
– Quer dizer que lhe tem amor...
– É o teu destino, a tua sina! – diz o caçador,
espreguiçando-se. – Aguenta, minha órfã. Bom, adeus, chega de
tagarelice... Tenho de estar em Bóltovo antes do anoitecer...
Egor levanta-se, espreguiça-se, põe a arma a tiracolo. Pelagueia
levanta-se.
– Quando passa pela aldeia? – pergunta baixinho.
– Não tenho nada que ir. Sóbrio, não me apanhas lá, e, bêbado,
qual é o interesse para ti? Quando estou bêbado fico raivoso...
Adeus!
– Adeus, Egor Vlássitch...
Egor põe o boné repuxado para a nuca e, assobiando ao cão,
põe-se a caminho. Pelagueia fica parada a olhar-lhe para as
costas... Vê-o a dar aos ombros, vê-lhe a nuca forte, o andar
preguiçoso, indiferente, e os olhos dela enchem-se de tristeza e
ternura... O seu olhar percorre com carinho a figura alta e
magra do marido... Egor parece sentir este olhar, pára, volta-se
para ela... Fica calado, mas Pelagueia vê-lhe pela cara, pelos
ombros soerguidos, que ele lhe quer dizer alguma coisa.
Aproxima-se do homem com timidez, com uma súplica nos olhos.
– Toma lá! – diz ele e volta-lhe as costas. Dá-lhe uma nota de
rublo amarrotada e afasta-se rapidamente.
– Adeus, Egor Vlássitch! – diz ela, pegando maquinalmente na
nota.
Egor vai pelo caminho comprido e recto como um cinto esticado...
Pelagueia, pálida, deixa-se ficar, imóvel como uma estátua,
seguindo com os olhos cada passada do homem. Por fim, o vermelho
da camisa dele funde-se com a cor parda das calças, os passos
tornam-se-lhe indistintos, o cão já não se destrinça das botas.
Apenas se lhe enxerga o boné, mas, de súbito, Egor vira
bruscamente para a direita, para a orla desbastada, e o seu boné
desaparece no meio da verdura da mata.
– Adeus, Egor Vlássitch – sussurra Pelagueia e levanta-se nas
pontas dos pés para ver mais uma vez o boné branco.
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