O morto



Anton Tchecov
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra

Uma noite calma de Agosto. O nevoeiro ergue-se lentamente sobre o campo e cobre com o seu manto baço tudo o que a vista alcança. Alumiada pela lua, esta névoa ora dá a ideia de um mar sereno e infinito, ora de uma gigantesca muralha branca. O ar está húmido e frio. Ainda falta muito até que rompa a manhã. A um passo do caminho vicinal que ladeia a orla da floresta arde uma luzinha. É aqui, sob um carvalho jovem, que jaz o corpo, amortalhado até aos pés em linho branco novo. Tem sobre o peito um ícone pequeno de madeira. Ao lado do corpo, quase à beira do caminho, está o «turno» de vela – dois mujiques cumprindo uma das mais penosas e desagradáveis obrigações dos camponeses. Um deles, rapaz alto com um bigode incipiente e espessas sobrancelhas negras, de peliça curta e rota e alpargatas, está sentado na erva húmida, com as pernas estendidas, e tenta matar o tempo ocupando as mãos. Inclinando o pescoço esgalgado e fungando ruidosamente, talha uma colher de um bocado de madeira anguloso. O outro, um baixote de cara senil, magricela, bexigoso, com bigode ralo e barbicha de bode, tem as mãos esquecidas dependuradas sobre os joelhos e, sem se mexer, olha vagamente para o fogo. Estão de um lado e do outro de uma pequena fogueira que lhes alumia as caras, tingindo-as de vermelho. Silêncio. Ouve-se apenas o raspar da faca na madeira e o crepitar das achas húmidas no lume.

– Sioma, não durmas... – diz o jovem.

– Eu... não durmo... – titubeia o barbicha de bode.

– Isso mesmo... Faz medo ficar sozinho, um pavor. Contavas antes alguma coisa, Sioma!

– Nã... não tenho jeito para contar...

– Saíste-me cá um esquisito, Siómuchka! Não falta quem se ria e conte histórias, cante uma cantiga, mas tu... só Deus sabe que género de pessoa tu és. Ficas aí pasmado como um espantalho a esbugalhar os olhos para a fogueira. Não sabes dizer nada de jeito... Parece que falas a medo. Já deves andar nos cinquenta anos mas tens menos juízo do que um bebé... Não tens pena de seres tão parvinho?

– Tenho pena... – responde sombriamente o barbicha de bode.

– E achas que também não mete pena aos outros ver a tua estupidez? És um bom mujique, sóbrio, mas a desgraça é que não tens juízo nenhum na cabeça. Mas olha, já que Deus te ofendeu não te dando juízo, podias ganhá-lo por ti próprio... Faz um esforço, Sioma... Por exemplo, quando ouvires qualquer coisa de jeito em qualquer lado, toma atenção, e pensa, pensa sempre... Se não perceberes alguma palavra, faz um esforço e matuta bem na tua cabeça em que sentido essa palavra foi dita. Percebeste? Esforça-te! É que se não ganhares razão acabas por morrer assim tolinho, o último dos homens.

De repente soou na floresta um som prolongado, gemente. Qualquer coisa que pareceu desprender-se do cume de uma árvore farfalha pelas folhas e cai na terra. O eco repete surdamente estes barulhos. O rapaz estremece e olha interrogativamente para o seu companheiro.

– É a coruja a fazer mal aos passarinhos – diz Sioma, soturno.

– Ouve, Sioma, então não é já a altura de os pássaros voarem para as terras quentes?

– Claro, é a altura.

– As madrugadas já estão frescas. F-frio! O grou é uma criatura friorenta, frágil. Para ele, este frio é a morte. Eu, digamos, não sou grou mas tenho frio... Deita mais lenha...

Sioma levanta-se e desaparece no matagal escuro. Enquanto se atarefa a quebrar ramos secos atrás dos arbustos, o companheiro tapa os olhos com as mãos e estremece a cada barulho. Sioma traz uma braçada de chamiço e põe-no em cima da fogueira. O fogo, indeciso, lambe com as suas linguazinhas os ramos negros, depois, de repente, como se lhe dessem uma ordem, abraça-os e ilumina com a sua luz rubra os rostos, o caminho, o linho branco com os relevos das mãos e dos pés do morto, o ícone... O «turno» está em silêncio. O jovem dobra ainda mais o pescoço e põe-se a trabalhar ainda com maior nervosismo. O barbicha de bode, como antes, continua imóvel e não desvia os olhos do fogo.

«Sejam confundidos... todos os que odeiam a Sião...» – ouve-se no silêncio da noite um repentino canto em falsete e, logo, uns passos abafados; depois, à luz dos raios vermelhos da fogueira, surge um vulto pardo de batina monástica curta, chapéu de abas largas e um saco às costas.

– Meu Deus, santa Providência!... Ah, Nossa Senhora! – fala o vulto num tiple rouco. – Vi o fogo nas trevas e a minha alma perturbou-se... Primeiro pensei: são cavalos a pastar; depois pensei: que pastagem pode ser esta se não se vêem cavalos nenhuns? Não serão ladrões, não serão bandidos, pensei, à espera de um Lázaro rico? Não será a nação cigana a fazer sacrifícios aos ídolos? E a minha alma alarmou-se... Disse para mim próprio: vai, servo de Deus Feodóssi, e aceita a coroa de mártir! Então, vim trazido até ao fogo como uma borboleta de asas leves. Agora estou aqui à vossa frente e pelas vossas fisionomias exteriores julgo sobre as vossas almas: não sois ladrões nem pagãos! Sede em paz!

– Saúde.

– Não sabereis, cristãos, como se vai daqui para a fábrica de tijolos de Makúkhin?

– É perto. Portanto, mete a direito aqui pelo caminho; anda duas verstás e é Anánovo, a nossa aldeia. Passando a aldeia, viras um pouco à direita, paizinho, pela ribeira, e chegas à fábrica. De Anánovo até lá serão umas três verstás.

– Deus vos dê saúde. Mas o que estais aqui a fazer?

– Somos testemunhas de presença. Bem vê, o corpo...

– O quê? Qual corpo? Nossa Senhora!

O peregrino vê o linho branco com o ícone em cima e estremece com tanta força que os pés lhe dão um saltinho. O espectáculo inesperado faz-lhe um efeito deprimente. Encolhe-se todo e, boquiaberto e de olhos esbugalhados, fica rígido como uma pedra... Passa três minutos sem quebrar o silêncio, como se não acreditasse nos seus olhos, depois começa a balbuciar:

– Meu Deus! Minha Nossa Senhora!! Eu, na minha caminhada, sem incomodar ninguém, e de repente este castigo...

– Vossa mercê quem é? – pergunta o jovem. – Clérigo?

– Nã... não... Ando pelos mosteiros... Conheces Mi... Mikhailo Polikárpitch, o gerente da fábrica? Pois sou sobrinho dele... Meu Deus, minha Santa Providência! Por que é que estais então aqui?

– De guarda... São ordens.

– Pois, pois... – murmura o da batina, passando a mão pelos olhos. – E o falecido é donde?

– Passava por aqui.

– Que vida a nossa! Ora bem, meus amigos, pois cá me vou... Isto é de arrepiar. Tenho mais medo dos mortos do que de tudo, meus queridos... Mas vede lá que coisa! Quando este homem era vivo ninguém lhe dava qualquer atenção, mas agora que está morto e tornado em pó, trememos diante dele como diante de um glorioso comandante de guerra ou de um reverendíssimo... Ai, a vida! E o que foi isto, mataram-no?

– Só Deus sabe! Talvez o matassem, talvez morresse por si.

– Pois, pois... Quem sabe, amigos, talvez a esta hora a alma dele se deleite no paraíso!

– A alma dele ainda cá está, ao lado do corpo... – diz o jovem. – Durante três dias não se afasta do corpo.

– Pois... Que frio está hoje! Até me batem os dentes... Pois é, então vou sempre em frente, e depois...

– E depois, em chegando à aldeia, à direita, vais pela margem...

– Pela margem... Pois... Mas o que estou aqui a fazer parado? Tenho de ir... Adeus, amigos!

O da batina dá cinco passos pelo caminho e pára.

– Esqueci-me de deixar um copeque para o funeral – diz ele. – Posso deixar a moedinha, cristãos?

– Tu é que sabes, já que andas pelos mosteiros. Se foi a morte que o apanhou, será pela alma dele, mas se foi ele que se matou, então é pecado.

– Certo... Às tantas é mesmo um suicida! Então é melhor deixar a moedinha para mim. Ah, seja pelos nossos pecados! Nem que me dessem mil rublos eu aceitava ficar aqui sentado... Adeus, amigos!

O da batina volta a afastar-se devagar e volta a parar.

– Não sei o que hei-de fazer... murmura. – Ficar aqui ao pé da fogueira à espera que amanheça... é de meter medo. Mas também tenho medo de ir. Passar este caminho todo no meio da escuridão, a pensar no defunto... Mas que castigo de Deus! Andei a pé quinhentas verstás sem problemas, e agora, ao chegar a casa, acontece-me esta desgraça... Não posso ir!

– É verdade, é de meter medo...

– Não tenho medo dos lobos, nem dos ladrões, nem do escuro, mas dos mortos tenho. Tenho medo, pronto! Amigos cristãos, suplico-vos que me acompanheis até à aldeia!

– Estamos proibidos de sair de ao pé do corpo.

– Ninguém vê, amigos! Juro, podeis acreditar em mim, ninguém há-de saber! E Deus há-de recompensar-vos! Tu, barbas, acompanha-me, faz favor! Barbas! Por que estás sempre calado?

– É tolinho... – diz o jovem.

– Acompanha-me, amigo! Dou-te cinco copeques!

– Por cinco copeques podia ser – diz o jovem, coçando a nuca –, mas proibiram-nos... Se o Sioma tolo ficar aqui sozinho, está bem, vou contigo. Sioma, ficas aqui sozinho?

– Fico... – concordou o tolinho.

– Então está bem. Vamos!

O jovem levanta-se e vai com o da batina. Um minuto depois já não se lhes ouvem os passos. Sioma fecha os olhos e dormita. A fogueira começa a apagar-se e uma grande sombra negra cai sobre o morto...