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O dia que fiquei cega
Ale Martins
Em casa sempre foi cada um na sua, sem grandes interações.
Exceto com minha mãe, essa sempre foi uma aliada, e das boas.
O melhor presente que ganhei em toda minha vida foi ela que me
deu, uma tatuagem, aos 13 anos de idade. Ela de escorpião e eu
de aquário, uma artista.
Já faz uns meses que não dorme, e eu já estou preocupada.
- Conseguiu descansar?
- Não, nem o remédio faz efeito, nada me faz dormir.
- Se você continuar assim vai adoecer, mãe, tenta relaxar um
pouco.
- Pra você tudo é simples né, queria ser como você.
Ela ta nessa de não dormir. Começou a tomar uns calmantes pra
ver se dorme, começou com meio e agora já são três. O estranho é
que em vez de dormir, ela fica mais elétrica. E dependente.
Vive praticamente pro trabalho. Meu pai não é nenhuma companhia,
no mundo dele a mulher e as filhas não estão presentes nunca.
Sem grandes alegrias ela acorda e dorme todos os dias, para o
trabalho. Essa é a vida moderna: você é aquilo que faz. Quem se
importa.
- Mãe, você ta bebendo de novo? Você sabe que não pode beber
mais por causa desses remédios, a mistura pode causar danos
irreversíveis.
- É só um pouco, pra dar uma relaxada, to cansada. (e me olha
com cara de que os danos irreversíveis pouco importam)
Ultimo ano do colégio, não faço a menor idéia do que quero pra
minha vida. Não sei o que quero prestar no vestibular, só sei
que tenho que preencher o manual em uma semana, só isso. A única
coisa que tenho feito é me preocupar com minha mãe, ela ta cada
vez mais triste, fico vigiando, pra garantir que não va fazer
nenhuma besteira.
O natal está chegando.
- Você já decidiu o que vai fazer no natal?
- Decidi? Vou ficar em casa, você quer que eu faça o que?
- Você tem que passar com seu pai, você sabe, pelo menos um dia,
então decida qual.
- Ah, eu não vou nada, vou ficar aqui em casa.
- Bom, já ta combinado, véspera comigo e almoço de natal com seu
pai.
- Puta, se já ta combinado você ta me perguntando porque, já que
eu não tenho outra opção.
Odeio o natal, é sempre a mesma coisa, a família toda na casa da
minha avó e todos falando de dinheiro ou mal de alguém que não
esta presente, terrível.
É noite de natal, a primeira com a família dividida, a tristeza
é nítida em todos. Faço a janta, camarão na moranga, nem disso
eu sinto o sabor.
Os dois brigam no telefone a noite toda, ao desligar o telefone
minha mãe pega a bolsa e some o resto da noite.
Vou ver alguns amigos pra me distrair, nessas de natal ganho um
urso de pelúcia de um amigo, que já alto de segura e fala umas
besteiras e me agarra. Saio triste, não quero nada, é só um
amigo, mas ele custa a entender.
Amanhece, hoje tenho que ir na minha avó almoçar com meu pai.
Chego lá e todos falando muito. Não demora muito e o assunto é
minha mãe. Falam mal dela como se eu não estivesse presente,
digo eu porque sei que meu pai e minha irmã não a defenderiam.
Fico indignada.
- Se vocês não respeitam ela, podiam ao menos me respeitar. Bom
natal pra vocês. Eu já vou indo. Tchau pai.
Saio e vou à casa dos amigos onde minha mãe está, minha única
preocupação é com ela, pois sei que ela se importa muito com
esses dias – natal.
Chego lá e tudo parece normal, todos sentados na mesa, comendo,
bebendo e falando muito. Ela parece feliz.
Fico conversando um pouco com os amigos, esses a gente conhece
desde antes deu nascer. Os amigos são a família que a gente
escolhe ter.
- Mãe, vamos embora, eu to com dor de cabeça, preciso deitar.
- Agora não, vou ficar mais um pouco, se quiser ir indo, tudo
bem.
- Tchau pra todos e bom natal.
- Tchau Ale.
Chego em casa e deito um pouco, minha cabeça lateja muito, mas
eu não consigo dormir.
Deito na sala pra ver um filme, quem sabe assim não desligo.
Da umas duas horas e minha mãe chega. Cheirando a álcool.
- Oi
- Tudo bem mãe?
- Vou deitar, se ligarem eu não to pra ninguém.
Fico vendo o filme. Acaba. Assisto outro filme. O telefone toca,
é um amigo da minha mãe, o cara mais palhaço que eu já conheci.
- Ela ta dormindo
- Dormindo uma hora dessas. Pode acordar que eu quero falar com
ela. Hoje é natal minha querida.
- Ta bom, espera ai.
- Mãe, acorda, é o Edson, ele quer falar com você.
Ela mal se mexe. Resmunga umas coisas e manda eu sair. Digo pro
Edson que agora ela não pode falar, que depois ela liga pra ele.
Ele fica chateado.
Deito no sofá, olho pra televisão e não presto atenção em nada.
Minha cabeça não para de latejar.
Começo a ouvir minha mãe chamar meu nome. Chama umas quatro
vezes. Impaciente levanto e vou ver o que ela quer dessa vez.
Abro a porta do quarto e encontro minha mãe toda vomitada e
mijada, ela tava desesperada me chamando, acho que tava um pouco
inconsciente. Pego ela nos meus braços e começo a chorar.
- A mãe, o que você fez dessa vez. Por que você faz isso?
- Não chora filha.
Essa foi a ultima coisa que minha mãe me falou – não chora
filha, como não chorar.
Ela vai pro hospital, fazem uma lavagem estomacal, tiram uma
quantia muito grande de remédios, ninguém sabe ao certo quantos
foi que ela engoliu.
Passa dois dias na uti, os dois maiores dias da minha vida. Peço
pro medico deixar eu vê-la. Entro no quarto e ela esta toda
entubada. Tento falar alguma coisa, mas nada sai. Começo a
chorar.
Vou embora e fico pensando no que eu poderia fazer pra ajudá-la
depois que ela saísse do hospital. Até que vem a noticia, duas
paradas cardíacas e uma respiratória. Ela não agüentou.
Agora vem a pior parte, avisar pra todos os hipócritas que a
dois dias atrás falavam mal dela, na minha frente.
O único que eu acho que sentiu de verdade foi meu avô, nunca vi
ele chorando e soluçando daquele jeito, parecia uma criança.
Algumas cenas ficam marcada pra sempre em nossa memória. Como
esquecer.
Depois desse dia começou o meu inferno.
Completamente desorientada não sei que direção tomar, só sei que
tenho que seguir.
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