Um novo tempo para Tchecov

Charles Kiefer

Talvez os leitores mais conservadores não possam ou não queiram admitir, mas há um fenômeno extraordinário no ar: o aparecimento de grande literatura na Internet e a multiplicação geométrica de acessos aos sites de ficção. Alguns deles, hoje, são de leitura obrigatória. Cito, perdulariamente, dois exemplos: www.barcelonareview.com e www.bestiario.com.br O primeiro é espanhol, e já chegou ao qüinquagésimo número. O outro é brasileiro, é gaúcho, e atingiu a impressionante marca de 100 mil acessos por mês.

Sim, não há dúvida, há uma revolução em marcha. Uma revolução que altera profundamente as relações entre a publicação da obra e sua recepção. Qualquer leitor, em qualquer local, desde que conectado, pode ler o que de melhor (e de pior) está sendo produzido em matéria de ficção no planeta. Essa extraordinária multiplicação dos pães literários não sacia a fome de leitura, mas, ao contrário, a provoca, a instiga, e só faz aumentar o mercado editorial tradicional. Grandes editoras como a Record, a Objetiva, a Rocco, a Geração Editorial, a Ática, entre tantas outras, não cessam de lançar coletâneas de contos, por exemplo, e obras de novos contistas. Ou seja, estavam completamente enganados aqueles que temiam pela saúde do livro, os apocalípticos que trombeteavam a morte do livro. Ao contrário, a emergência do novo suporte apenas qualificou e incrementou o consumo de obras em papel. Nunca se leu tanto conto no Brasil e no mundo. Enfim, essa forma sintética, rápida e eficiente, que já comparei a um salto mortal, na introdução de uma antologia de contos que organizei (O livro dos homens, Artes e Ofícios, 2000), encontrou seu meio ideal de transmissão. Por sua própria natureza, o conto ajusta-se à perfeição às revistas eletrônicas.

A BESTIARIO - Revista de Contos, que publica exclusivamente contos, tem feito um trabalho notável de recuperação de autores esquecidos, de revelação de novos talentos, de divulgação de autores consagrados. Para coroar tudo isso, está lançando um número especial com Anton Tchecov, o grande contista russo.

Tchecov escreveu mais de 600 contos, mas pouco mais de 50 estavam traduzidos e publicados no Brasil. Para seus fãs, a Bestiario disponibiliza dez de seus contos de atmosfera, delicados, densos e agradáveis como as tardes de outono. Dez obras que eram desconhecidas dos leitores em língua portuguesa.