Maquiagem

Tauan Fernandes Tinti

O espelho refletia aquele sorriso cotidiano pela infinitésima vez, disposto como sempre a imitar imitações. Não enrubesceu quando ela começou a tirar a roupa, narcisismo puro no retirar da blusa que até então tocara do ventre aos seios e as costas, mas já era uma segunda pele que caía ao chão. As escamas da calça apertadíssima descascaram na seqüência, restando corpo nu refletido na realidade e calcinha.

Foi retirada devagar, mãos descendo até os pés, um por vez, e nada mais restou além do corpo. Seios com formato de fruta madura no corpo de mulher verde, morena. Mamilos encarando o reflexo, quando deveriam ser estrábicos. Leve rubor surgiu, na menina através do espelho.

Já o quadril era harmonioso, certo quê de reprodutora confiável, menos pela função e mais pelo fetiche. As coxas pneumáticas se esforçavam em esconder a virilha, num jogo semidesdenhoso de conquista da própria imagem. Ela fugiu, tímida, da frente do espelho, despreparada para observadores tão atentos quanto os próprios olhos.

Andou até o banheiro esfumaçado de vapor e encontrou o chuveiro, previamente ligado. A água molhou seu corpo com ternura paternal, minutos se passando sem qualquer atitude concreta por parte de ninguém. Divertiu-se com o shampoo, aplicado com precisão cirúrgica, mãos de dedos voyeurs passeando pelos longos cabelos castanho-escuros, secos, segundo shampoo e condicionador, a gordura do último espalhada quase que fio a fio. Sabonete líquido do rosto aos pés sólidos e à alma gasosa, tudo pelas próprias mãos de outrem.

Que alcançaram a gilete de depilação, ávida por retirar pêlos imperceptíveis. As mãos singraram as pernas, apagando qualquer indício de virilidade que a pelugem poderia representar, dando a elas uma aparência postiça e casta. Os pêlos pelo ralo escorriam até o esgoto, onde jamais seriam encontrados por qualquer testemunha válida. Segredos sujos enterrados bem fundo no quintal da memória.


Nove anos atrás, havia uma casa de bonecas no quarto de uma garota que sonhava ser modelo e amaldiçoava os pais por não lhe terem feito loira. A casa de bonecas era habitada por duas amigas que tinham vida atribulada e namoravam dois rapazes de sorriso tão engessado que nenhum espelho conseguiria refletir com tanta perfeição quanto a mentira da produção em série. A boneca mais bonita e mais nova e com mais acessórios de beleza tinha as pernas compridas e nunca teria filhos que acabassem com seu ventre perfeito, já que a virilha era vazia, cheia de plástico. A garota que sonhava ser modelo achava essa esterilidade o máximo.


Enrolou-se, em corpo limpo e em toalha rosada, inocentes, usando-os como escudo para ir até o quarto. Peças de roupas em cima da cama, espalhadas assepticamente, o único perfume sendo a inebriância do dinheiro. Sentou-se em cima de uma saia qualquer e aplicou cremes amaciantes-esfoliantes nos pés nas mãos nas pernas recém-depenadas no rosto no ego.

Ela dançou com cada roupa como se fosse a última vez que se veriam, olhos clínicos, mareados de languidez. Isso com a ajuda do espelho, solícito e tão revelador quanto a consciência deixasse.

Bailava a valsa da escolha de roupas, slow-motion em frente ao espelho, enfrentado-o ou pensando fazê-lo, cada milímetro do seu corpo necessariamente vestido vasculhando imperfeição com perfeição milimétrica. Eis que o olhar passou pela barriga, o reflexo acusador a julgava.

Mais uma vez fugiu, um grito de não abafado pela própria boca. O espelho consciente gritava abdominais não realizados e doces devorados pela boca que fazia também outras coisas.


Nove anos atrás, uma garota queria levar sua boneca favorita para fora, mas acidentalmente trombou sua mãozona enorme com a porta e percebeu que a(s) boneca(s) era(m) muito grande(s) para a casinha. Foi quando a garota descobriu que as ilusões tinham peso e forma.


Reviu o carrasco vestindo uma blusa menos curta, medida paliativa desesperada para tudo esconder dos olhos. Ondas irregulares de cabelo ao vento em formato hipnótico acabaram por fazer as pazes entre ela e o espelho, mesmerizados. Já estavam vestidas, a imagem e sua dona, numa leve infração do acordo não-verbal entre ela e o outro lado. Saiu da frente do espelho do banheiro.

Passou pelo espelho do quarto.

Voltou ao espelho do banheiro, sorriso natural da boca às mãos que seguravam o estojo de maquiagem. Blush nas bochechas rosadas, sombra prateada nas pálpebras superiores, com leveza de artífice, lápis preto próximo aos cílios, gloss levemente amarronzado nos lábios. Perfeita para o
baile de máscaras, seguiu até o espelho do quarto.

Sentindo-se mais alta do que sua imagem desdenhosa.

Ouviu o som da buzina e correu até o carro, recebendo elogios em série do namorado, sorrisos de nove anos atrás cada vez mais condensados em um hoje anacrônico, refletido no espelho retrovisor. Uma boneca dentro de seu carrinho de brinquedo.


Nove anos atrás, uma garota tinha uma daquelas bonecas russas. Dentro dessa boneca russa havia outra boneca e outra e outra e outra. Um dia a garota perdeu a boneca menor, a verdadeira, dentro de todas as outras.

TAUAN FERNANDES TINTI