|
 |
 |
Inocente no mundo de
Kafka
Henrique Chagas
Véspera de feriado prolongado. Ansiedade dobrada. Fui indicado
para atuar como preposto numa audiência judicial. Não há como
fugir, mas o meu gerente garantiu-me que será coisa rápida,
coisa de quinze minutos. Sei não!
Recende um clima de velório sem defunto. Assim é o clima da sala
de audiências. Um senhor de uns 60 anos, barbas grisalhas mal
cortadas, dentes amarelados por nicotina, está acompanhado do
seu advogado, gordo, paletó um número menor.
Quinze horas em ponto. O juiz olha para o alto como quem busca a
onisciência divina. Permanece atento a todo e qualquer gesto.
Tudo tem importância magnânima. Dá-me a sensação de que o
processo se reveste dos desígnios celestiais.
Pergunta por Epaminondas. Não teria outro nome quem se diz
apostador contumaz de loterias. Afirma que rotineiramente aposta
os mesmos números 17, 22, 25, 32, 40 e 44 em jogos da sena.
Desatento conferiu o resultado e atirou o comprovante do jogo ao
lixo. Quando ficou sabendo que ninguém levantara o prêmio,
constatou tratar-se dos números que sempre jogou.
Conseqüentemente, diz ser ele o único acertador.
É obvio que o sujeito não tem qualquer direito, penso. Onde está
o bilhete? Ele jogou no lixo. Não possui qualquer prova material
do que afirma.
Afirma que o 25 corresponde à primeira dezena da placa da
sepultura de sua irmã, o 40 corresponde à última dezena da
sepultura de seu genitor - palavra ditada por seu advogado,
estou certo disto - também sepultado no mesmo campo santo e o 44
corresponde ao ano do seu nascimento.
Nas perguntas, o advogado da Caixa quer saber a razão dos outros
números jogados. Fica em silêncio e nada responde. Penso, ele
não tem outras pessoas afins das quais também se lembre dos
números das placas de sepultura.
Na oitiva das testemunhas, todos repetem o mesmo. Epaminondas
gosta de jogar, joga sempre os mesmos números e acertou a sena,
mas jogou o papel no lixo e é o único ganhador daquele prêmio.
Verdadeiro teatro. Olhares e gestos calculados. Imagino-me num
julgamento na ágora de Corinto. Que diriam Sêneca, Galião ou
Dionísio? Que importa o bilhete? O que verdadeiramente importa é
que aquele senhor fez o jogo e acertou os números sorteados, é o
que ele afirma. Será ele o sortudo? Ou seria apenas uma ficção
jurídica? A do jogador contumaz que nunca ganhou nada, e quando
ganha, perde o bilhete. O apelo à piedade tocou-me o coração.
Quase dezenove horas. O juiz chama o processo à conclusão. Nada
mais formal. Falta-lhe apenas um turíbulo para nos envolver com
fumaça e com o perfume do incenso. Levanta, imbuído da sabedoria
de todos os deuses do Olimpo, por Dionísio ou por Cícero,
profere a sentença. Nada compreendo. Ouço que o autor optou por
uma ação ordinária, de cunho declaratório, mas com fulcro no
velho princípio de repúdio ao enriquecimento sem causa ou
locupletamento indevido. Resmungo um palavrão. Sou fulminado com
o olhar severo do Juiz. Sinto-me debaixo da mesa. O tempo passa
e não sei quem tem razão, pelo contrário, acho que perdemos.
Então, finalmente, o juiz diz que a Caixa não será
responsabilizada por enriquecimento sem causa porque não obteve
aumento patrimonial e que o valor do prêmio foi repassado para a
Seguridade Social. Dá por encerrada a audiência e ponto final.
Perplexo e aturdido, saio sem saber se Epaminondas acertou ou
não na loteria.
O escritor, professor e advogado HENRIQUE CHAGAS é o
diretor responsável do sítio cultural VERDES TRIGOS. Nascido em
Cruzália/SP em 11/01/1960, radicado em Presidente Prudente/SP,
onde exerce o cargo de Procurador da CAIXA, participa de
inúmeros eventos literários, especialmente no sentido de
divulgar a nossa cultura brasileira.
|