Hiato

Abilio Marcondes de Godoy

e depois de tudo, na alvorada da utopia, você vai despertar com o ruído do caminhão do exército parando em frente a sua casa. Vai se levantar da cama. Olhará pela janela do quarto e verá dois soldados caminhando em direção a sua porta.

É razoável pensar que, tendo acabado de acordar, você sinta vontade de ir ao banheiro e que ouça a campainha soar pela primeira vez enquanto estiver urinando. Lavará as mãos e, talvez, também o rosto, para despertar. Vestirá um roupão por cima do pijama. A campainha vai soar de novo. Você descerá as escadas devagar. Abrirá a porta.

Os dois homens, perfilados a sua frente, baterão continência tão logo você os vir. Numa confusão de surpresa e curiosidade, imagino que você quase se esquecerá de retribuir o gesto. Os soldados vão se entreolhar, pelos cantos dos olhos, hirtos, com as mãos encostadas às testas. Por fim, com um movimento brando e impaciente de sua mão aleijada, você os liberará da posição de sentido.

Um deles vai lhe entregar um envelope branco, que você abrirá, tirando de dentro dele uma convocação para se apresentar de imediato no quartel general da Aliança.

Sentindo desconfiança e tentando manter uma aparência de tranqüilidade, você os vai encarar por algum tempo. A expressão de seus rostos lhe parecerá séria. Examinará armas e uniformes. Tudo terá uma impecável aparência de verdadeiro. Como explicar aquilo? Depois que tiver mandado você de volta para casa – suponhamos que seja por causa de um acidente com uma granada – já no final da guerra, com uma alta patente, uma medalha de honra e sem os três dedos centrais da mão direita, nunca mais o Comitê terá pedido notícias suas. Não. Você só terá acompanhado de longe os acontecimentos, as últimas vitórias da Revolução, os sucessivos fuzilamentos de antigos tecnocratas, as festas e homenagens aos generais. De tudo isso vai ter se interado pela televisão, pelos jornais, sem ter participado de nada. Não. A você só terá cabido comprar uma garrafa de champanhe e brindar, na abandonada solidão da sua sala de jantar, o sucesso da Revolução.

Não importa, você vai sempre se dizer, a mim só me interessa saber que o meu próprio sangue umedeceu o solo da batalha; que os três dedos que me faltam, eu os perdi em nome da Grande Causa. É isso mesmo, você vai repetir até se convencer, a mim só me interessa saber que desde quando surgiu a Aliança Onze de Setembro, eu acreditei na vitória; que quando, anos mais tarde, foi declarada guerra total ao capitalismo e aos tecnocratas, eu me ofereci, sem que ninguém tivesse me pedido, para lutar e suportei todo tipo de humilhação, os sargentos revolucionários rindo de mim, dizendo que eu não seria capaz de combater, que eu ia morrer de susto quando começassem os tiros, que eu não serviria nem para bucha-de-canhão.

Ainda imóveis, a sua porta, os dois homens estarão aguardando sua resolução.

Esperem só um instante, você murmurará. Vou vestir minha farda.

Eles vão se entreolhar ainda uma vez. Um deles assentirá com a cabeça.

Acredito que só alguns minutos mais tarde, quando você se olhar no espelho, já com seu uniforme militar vestido, vai se lembrar que aquele será o exato dia de seu aniversário. Pela primeira vez, vai sorrir. Com certeza uma brincadeira de algum amigo. Convicção que aos poucos vai se desfazer à medida que, sob a escolta dos dois soldados, você for se aproximando do caminhão, e que por fim desaparecerá quando, da janela do veículo, avistar o portão de entrada do Quartel.

Quando saltar do caminhão, vai se deparar com uma longa fila de pessoas, saindo da entrada principal do complexo e se estendendo pelo pátio central. Haverá soldados com metralhadoras por toda parte. Seus dois acompanhantes levarão você até o fim da fila e se afastarão antes que tenha tempo de pedir qualquer explicação.

Você vai examinar as pessoas, que caminharão devagar, em direção à entrada. Haverá homens e mulheres, velhos e crianças. Você pensará em perguntar a alguém sobre o que estará acontecendo. Desistirá ao perceber que todos levarão a mesma desorientação esculpida no rosto. O mesmo receio, a mesma curiosidade.

Atravessando o portal de entrada, a fila seguirá por um longo corredor de paredes brancas e brilhantes, ao fim do qual, haverá uma bifurcação em T. Uma vez que você já estiver nesse corredor, vai notar que, ao fundo, na bifurcação, da direita para esquerda passarão cadeiras metálicas, presas a uma esteira no teto por uma haste. Também vai perceber que cada uma das pessoas da fila, tendo chegado ao fim do corredor, será colocada sentada na cadeira por dois soldados, que em seguida a imobilizarão com uma barra de segurança e travas de ferro, tanto para os braços como para as pernas. Um senhor a sua frente exibirá um sorriso nervoso: O que é isso afinal? A Disneylândia?

Quando chegar a sua vez, os soldados ainda baterão continência antes de ajudarem você a se sentar na cadeira em movimento e de prenderem a barra e todas as travas. O assento móvel seguirá por um túnel escuro e vai estacar, de repente, frente a uma bifurcação em Y. Sobre cada um dos dois portais que se abrirão adiante, vai estar pendurado um letreiro luminoso apagado. O da esquerda dirá: "SIM! PARABÉNS!", enquanto que o da direita dirá: "NÃO. LAMENTAMOS". Entre os dois, haverá um grande monitor que se acenderá assim que a cadeira tiver parado.



PARABÉNS E FELIZ ANIVERSÁRIO! HOJE É SEU DIA DE SERVIR À REVOLUÇÃO. AGUARDE ALGUNS SEGUNDOS ENQUANTO DAMOS PROSSEGUIMENDO À ANÁLISE.



De uma abertura na parede ao seu lado, surgirá um braço mecânico com uma pequena agulha na ponta. Depois de ter coletado algumas gotas de sangue do seu pescoço, o dispositivo desaparecerá outra vez pelo vão do muro. Vinte segundos mais tarde, o letreiro da direita vai se acender. A cadeira mecânica rumará para o respectivo túnel, em cujo fim haverá uma porta automática de metal, que se abrirá quando a cadeira se aproximar, revelando atrás de si o interior de uma galeria circular.

Uma vez dentro da galeria, você ouvirá o ruído da porta se fechando. De alto-falantes presos no teto, virá, em volume médio, o som de música clássica. Vão ser "As quatro estações" de Antonio Vivaldi. O primeiro movimento do "Inverno", é bom dizer, porque tamanha vai ser sua agitação que você não será capaz de identificar a peça. Uma voz feminina vai se sobrepor à musica. Uma voz semelhante àquela que hoje lhe comunica quantas mensagens você tem na caixa postal do seu celular.



Bom dia. Antes de qualquer coisa, feliz aniversário. Hoje, nesse dia tão especial, o Comitê presenteia você com a possibilidade de servir à Revolução, de nos ajudar a construir uma sociedade melhor, mais justa e igualitária.

Temos uma boa e uma má notícia. Começaremos com a má. Há poucos instantes, seu DNA foi analisado por nossos computadores e, infelizmente eles nos informaram que o seu perfil genético não é compatível com a comunidade utópica que estamos tratando de construir.

Por outro lado, a boa notícia é que, como presente de aniversário, nós lhe ofereceremos em breve, a eutanásia, para o caso de você querer acabar de vez com os sofrimentos de uma futura vida miserável.

Se essa for a sua escolha, você receberá dentro de poucos instantes uma injeção de anestesia que fará com que você durma, seguida de uma injeção letal que causará o seu falecimento sem nenhum tipo de dor. Você receberá todas as honras funerais e terá direito a um túmulo honorífico em um cemitério que está sendo construído apenas para os mártires que se sacrificarem nesse necessário processo de transição.

Caso contrário, se preferir continuar subsistindo em toda sua vileza, seremos obrigados a considerar você uma pessoa egoísta, criminosa e traidora dos ideais altruístas da Revolução. Sua execução será sumária. Dentro de pouco segundos, o mecanismo automático vai atirar você, com vida e consciência, dentro de um forno crematório.

A partir do final dessa mensagem, você terá três minutos para refletir e fazer sua escolha. Por favor, repare que há um botão verde, sob a sua mão, no braço direito da cadeira. Apertá-lo significa escolher a eutanásia e tão logo você o pressione terá início o processo automático das já referidas injeções. Se no final desses três minutos o botão não tiver sido apertado, entenderemos que você desprezou nossa gentil oferta e preferiu morrer como marginal.

Esse é o final da mensagem. Você tem três minutos para fazer sua escolha.




Quando a música de Vivaldi voltar a ser a única presença sonora evitando o silêncio fúnebre da galeria, sua cabeça vai estar muito confusa. Dividida entre sentimentos bastante diversos. Medo, ódio, decepção, orgulho. Aceitar a morte covarde deles? Sem dor, sem heroísmo? A humilhação eterna do prometido cemitério monumental?

Depois de vinte e cinco segundos, você terá a impressão de que seu tempo já estará quase se esgotando e, sob a pressão do desespero, chegará à conclusão de que de nada valerá sua vaidade na inexistência eterna da morte. Claro que você não vai pensar isso com essa clareza e tampouco com essas palavras elegantes. Não. Na realidade você vai sentir apenas medo, um pavor insuportável do forno, de queimar em vida, que tomará por completo sua alma e arrasará de vez qualquer resistência do seu orgulho. E se, num primeiro momento, escolhi aquelas palavras refinadas para disfarçar a pura mesquinhez do seu medo, é porque me compadeço de você e desse seu futuro negro e porque lamento informar que, mesmo escolhendo o destino doce do botão verde, como, de fato, você vai escolher, será outro o destino escrito na sua heróica e aleijada mão de ex-combatente, cujos dois dedos restantes, num hiato anatômico, apontarão, em sentidos opostos, para um único longínquo horizonte cor de chama, diverso e distante do verde opaco perdido no desvão.Verde inatingível sob a imobilidade de seu pulso preso, isolado num vazio auspicioso, entre dois dedos perplexos e impotentes. Incapazes de produzir uma síntese, incapazes de alcançar o centro.

ABILIO MARCONDES DE GODOY
estuda letras na Universidade de São Paulo e é autor de O Bem, o mal e a poesia (Com-Arte, 2004).