Dê-mo

Bernardo Brayner

“Uma vez, a morte era corrente, tu te escondeste em mim.”
Paul Celan



Os braços em 4 alçados à altura das coxas, a estrela nua na testa, o pescoço e a corrente, trançados os cabelos:

- Me dá...

Três pontos de baba translúcida, esbranquiçada. Albumina. As veias esturricadas. O ser. O sem passado e sem futuro.

- Me dá.

Um ponto na vista e o peito já coagulado, os pêlos bichos. A ferida. O olho em riste. O rito. O ritmo.

- Me dá!

Mãos espalmadas ao céu em liturgia de espasmo. A visão do foguete no fim da frase explode na boca úmida. Uma hóstia sangrenta. O cerimonial do ai numa língua silenciosa. Por si. Para si. Sem pressa. Depois o cansaço. O sentimento de culpa trazido pelo suor. Os corpos castigados. Os corpos. O medo da morte.


BERNARDO BRAYNER
nasceu em 1975 na capital pernambucana, Recife. É publicitario e publicou o volume de contos Exercícios de Morrer.