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Coisas de Fabianne (Cosas de Fabianne) Mauricio Montiel FigueirasA senhora Fabianne, esse pálido varapau de aproximadamente trinta e cinco anos (ninguém sabe sua idade exata: alguns vizinhos dizem nas reuniões que quando esse dado se revelar ao mundo inteiro, a senhora irá dissolver-se como tangerina em calda de açúcar, uma dessas compotas que Fabianne trouxe de algum lugar da Europa), gosta de comprar coisas para dispô-las em variados cômodos e assim encher sua casa situada no alto daquela colina: aquela casa branca com pisos de mármore sempre recém-polidos que faz pensar nas vilas gregas; algum resort privado em frente ao mar para onde os milionários se dirigem no intuito de bronzear a pele seca e beber o suco de qualquer fruta exótica, ou para encontrar qualquer viúva que, como Fabianne, seja fascinada em comprar coisas sem pensar um minuto no dinheiro. A herança de papai tem sido mais do que suficiente, obrigado; a senhora não precisa de nenhum homem para pagar seus caprichos, não se deita com ninguém para ter mais coisas: prefere dormir na cama Queen size de seu amplíssimo quarto azul com vista para os jardins; sonhar sem que um par de dedos excitem-na toda a noite por baixo da camisola de seda quase transparente; acordar cada manhã e não se ver obrigada a beijar na boca de alguém que cheira a cadáver porque tem os lábios gelados e pouco pêlo nas pernas: seu marido, que descanse em paz, foi a gota d’água com relação aos homens; outro caso sentimental, nunca mais: melhor esquecer de uma vez por todas as mãos que só servem para machucar-lhe os seios, a saliva entre as coxas, a língua espiando o céu da boca. É mais belo encher de coisas a casa; ir arrumando-as com a maior delicadeza possível; contemplar como elas mesmas anseiam pela mesa ou a estante, ou o canto que lhes corresponde melhor, encaixando-se com um ligeiro estremecimento; acariciá-las ao passar de um cômodo a outro, a outro, e, por fim, chegar ao quarto, onde as paredes foram substituídas por janelões que observam fixamente os jardins em desnível. Esse olhar de cristal evoca os olhos verdes de Fabianne, absortos nas esculturas trazidas de Florença ou no jogo de chá adquirido em Pequim: um olhar transbordante de reflexos limosos, e, aqui, estão os tapetes da Índia; aí a baixela de Limoges e os serviços de prata, presente de uma sogra cujo nome perde-se nos cabos dos garfos; lá as três cadeiras Biedermeier ao redor de uma mesa com um mantel espanhol e a boneca de porcelana de que não se sabe a origem, ali o armário que viajou de Istambul para descansar sobre um tapete persa; mais além a coleção de pratos de quase todos os países do mundo ocupando uma enorme parede, e, bem pertinho de Fabianne, os ruídos que perturbam-na há vários dias. O que significa esse caminhar de patas minúsculas sobre o mármore, esse roer de insetos nos inúmeros cômodos vazios no alto da colina? A primeira vez que Fabianne ouviu os ruídos, imaginou os quartos repletos de coisas falando dela em voz baixa; os objetos desdobrando bocas de madeira, bronze, vidro e tecido, para contar piadas de sua proprietária; histórias que terminaram congeladas na carne das paredes, nos lustres que pendem como cabeleiras de estalactites, aqui e ali. O úmido silêncio das coisas foi perturbado por alguma razão. A ordem das coisas na casa vai se alterando imperceptivelmente: é horrível entrar na sala de espera e ver uma estatueta, que deveria estar na vitrine, sorrindo para um arlequim que pertence ao estúdio; entrar no quarto para se despir e descobrir que um vaso T’ang da sala de jantar se dispôs próximo ao quilométrico closet; recostar-se num sofá da sala, iniciando o amor solitário com algumas coisas que se encontram à mão, antes de notar a falta da cadeira-de-balanço e de uma reprodução da Menina, de Modigliani, que depois aparece no banheiro, a outra no terraço encharcado de sol e libélulas; sair para regar o jardim quando a lua é uma teia-de-aranha no mais rubro da tarde; quase gritar ao ver a mesa e a cadeira Chippendale entre as buganvílias lilases; estar na cozinha, preparando um guisado e discutindo sobre verduras com as mulheres que, pela manhã, fazem a limpeza, e não achar as facas compradas na Itália, meses antes que Fabianne encontrasse o esposo morto, sentado em uma poltrona junto aos janelões da sala de costura com várias copas de Baccarat entre as mãos, rodeado por móveis que foram as únicas testemunhas de seu derrame cerebral: os únicos que viram-no morrer oferecendo o rosto ao crepúsculo, com um fio de lã vermelha que mais parecia sangue saindo pela comissura dos lábios. Agora Fabianne recorda, de frente para outros janelões que antecipam a entrada da noite, que não voltou a ver aquela representação egípcia da eternidade tecida em fio de lã e suspensa em algum recanto, talvez na biblioteca ou no estúdio. Bebe um trago de conhaque, ajeita o vestido que termina numa mini-saia negra e num par de pernas semelhantes a esculturas, sem se importar que alguém a possa estar vendo; um homem que, em determinado momento, chegue a pensar que a senhora da casa na colina passeia de luto, pelas paredes. Hoje faz um ano da morte do marido de Fabianne. Ela recebeu muitos pedidos de pêsames durante o dia; sozinha, espera os telefonemas avisando-a que vão visitá-la à noite: não mais que um instante, querida; não queremos importuná-la nessas horas de dor; vamos interromper sua saudade por minutos; gostaríamos de dedicar as melhores horas do dia à memória de seu marido: não recordamos seu nome, mas era um senhor incrível, uma legítimo cavalheiro, é uma pena que agora seja uma foto naquela vitrine tão preciosa. Mas, não quer vendê-la? O que nos diz daquele quadro de Van Gogh?: você põe o preço e outro gole de conhaque, a jóia rara para a melhor coleção jamais vista, saúde! Oxalá não venha toda essa gente do telefone. Que vontade de estar a sós com os móveis, pinturas e enfeites; tocá-los e senti-los à flor da pele, em silêncio cada vez mais íntimo, cada vez mais suor nas pontas dos dedos ao acariciar as coisas, beijá-las, enredá-las na cabeleira negra: por que não fechar as portas e proibir a entrada ao mundo e beber pouco a pouco o silêncio das coisas, ainda mais que o silêncio é uma cega quietude de monólitos que se cala nos dentes, uma imobilidade de seres sem músculos nem melancolia, que agarra a atmosfera como se fosse a mão direita de Fabianne mastigando o marrom dos objetos, enquanto lá fora o vento caminha com o entardecer às costas e o jardim penteia-se de buganvílias com acenos de sombra verde. Fabianne deixa que seu olhar pouse sobre as coisas que preenchem a casa, misturando pensamentos com a paisagem. Como são doces os objetos, que ternos quando ocupam o lugar ao qual se destinam, porque se não fosse assim seria o caos; como permanecem vivos nesta hora em que os relógios da casa se calaram e o conhaque é um aveludado na língua, fogo no esôfago, a unha de uma pequenina estátua no púbis: Fabianne sorri e é como se sorrisse uma janela ou uma poltrona em que alguém quedou morto. Então chegam os ruídos, pequenas fendas na tranqüilidade das coisas. Fabianne escuta com atenção, pois pode se tratar de ratos, mas isso é impossível, ratos nunca e muito menos baratas: seria absurdo imaginar um milhão de baratas correndo pelas paredes, comendo mesas, cadeiras e tapetes, pedaço a pedaço. O que quer dizer esse rastejar de escaravelhos invisíveis ao longo do chão, ou será do teto; como sempre, Fabianne não consegue localizar os sons, isso a descontrola ainda mais: não sabe de onde vêm, se da cozinha ou da sala de jantar, do terraço ou do quarto. Parece que as coisas cantam numa surda linguagem de porcelana e gesso; um idioma de bailarinas compradas em Bruxelas, mas ratos não: deve haver alguém mais na casa, algum convidado de luto que se diverte movendo os objetos e mudando-os de lugar; o marido de Fabianne buscando freneticamente um fio de lã para comer: talvez um tapete turco não seja tão salgado, e até mesmo o jogo de lençóis comprados em Copenhague. Os ruídos aumentam de volume e pela primeira vez Fabianne sente-se nervosa. Hoje não é como nos dias anteriores, os sons são mais freqüentes e violentos: a cada intervalo de quarenta ou cinqüenta segundos há um novo golpe ou palavra; um rápido arrastar de centopéias no quarto vazio, um enfeite que cai e rola pelo tapete russo, vários livros reorganizando-se numa estante qualquer, de nogueira. Fabianne deixa a copa com o último trago de conhaque sobre uma mesinha à sua esquerda; abandona a sala de espera e, à medida que atravessa os cômodos da planta baixa, liga interruptores, acende lâmpadas, ilumina cantos escuros com candeeiros alemães: as coisas permanecem imóveis e, ainda assim, os ruídos continuam. Fabianne sai da sala de jantar e há um suspiro como de cadeiras de acaju se acomodando com lentidão: acredita distinguir umas bonecas japonesas trocando beijos antes de acender o lustre do estúdio; pelo canto do olho capta a imagem do piano que desliza como um caranguejo negro na penumbra da sala. Na cozinha os trinchetes deixaram suas gavetas para alinhar-se sobre o linóleo, e a mesa da copa desapareceu: agora se encontra na entrada do lavabo destinado às visitas. Fabianne se dirige à porta principal e sufoca um grito com as mãos ao ver que todos os vasos do jardim se reuniram em frente à ela e estudam-na com suas plantas apenas acariciadas pelo ar; bate com força a porta e regressa à sala de espera com o medo e os sons seguindo-a de perto. O telefone, comprado em um antiquário em Dublin, não está em lugar nenhum; além disso, os números das pessoas com que se pode falar em caso de emergência misturam-se em única cifra estúpida, e quem sabe aonde foi parar a agenda, talvez já a tenha engolido uma cadeira Luis XV e os ruídos não cessam. Fabianne observa com horror que seu cálice de conhaque mudou de lugar: alguém o tirou da mesinha e o colocou entre os dedos de uma estátua grega, que até a umas duas horas atrás estava no terraço junto aos móveis de vime que também não se acham em seu lugar: no terraço há somente um guarda-roupa que contempla o anoitecer com seus espelhos polidos em que o ar se diverte nos vãos esquecidos pelas coisas. No escritório que intercepta o acesso à biblioteca, Fabianne rasga uma meia e perde um sapato de salto alto ao tropeçar nas cadeiras da sala de jantar amontoadas no cômodo; empurra duas colunas árabes que se fazem em pedacinhos no chão; acredita sentir os braços de uma escultura chinesa em seu decote e corre até a escada de mármore, com a cabeleira entrançada pela respiração das coisas. Agora é uma vertigem de movimentos furtivos e móveis que se encontram onde não deveriam encontrar-se; um caleidoscópio de objetos que brotam nos lugares mais incongruentes com um murmúrio semelhante ao das missas em latim. Os almofadões do salão de descanso e da sala de costura amortecem os passos de Fabianne na escada: talvez seu marido a espere no fim dos degraus semeados de colheres e flores artificiais: assim ela não sentirá terror ao avançar pelo corredor ocupado pelas coisas da casa. Fabianne tomará a mão de seu esposo e irá sorrir ao roçar-lhe a pele de móvel com sua própria pele também transformada em madeira ou porcelana, ou algo parecido; os dois juntos vão entrar no quarto compartilhado por tantos anos, com tantos objetos, e irão se desnudar para o amor, de costas para o teto, apesar do barulho das coisas. Fabianne irá gozar essa noite como nunca, porque no fim permitirá que seus móveis e enfeites a possuam completamente; as coisas irão beijá-la e penetrá-la até o cansaço; até que ela esqueça o significado de ser mulher e dona de uma impressionante casa de dois andares no melhor bairro, até que a saliva escorra de seus lábios e poros e manche algumas mesas, e pela madrugada encontrem-na os vizinhos com a ajuda da polícia: nós a chamamos e ninguém respondeu, tentamos entrar, mas todas as portas foram fechadas por dentro, por fim atrevemo-nos a quebrar uma janela e que espetáculo, que cheiro de casa vazia e objetos apodrecidos: todas as coisas no quarto da senhora Fabianne, e ela embaixo dessa avalanche, com os olhos abertos e a cabeça de uma estatuazinha surgindo de sua boca. MAURICIO MONTIEL FIGUEIRAS (Guadalajara, México, 1968) publicou conto, poesia, ensaio, crônica, tradução e crítica literária e cinematográfica nos principais periódicos e revistas do México, assim como no Canadá, Chile, Colômbia, Estados Unidos, Espanha, Inglaterra e Itália. É autor de cinco livros de contos: Donde la piel es un tibio silencio (1992), Páginas para una siesta húmeda (1992), Insomnios del otro lado (1994), La penumbra inconveniente (2001) e La piel insomne (2002). Publicou também os livros de poesia, Mirando cómo arde la amarga ciudad (1994) e Oscuras palabras para escuchar a Satie (1995), e um livro de ensaios, Larga vida a la nueva carne (2003). Foi incluído, entre outras antologias, em La X en la frente (1995), El Occidente de México cuenta (1995), Dispersión multitudinaria (1997), Una ciudad mejor que ésta (1999), Los mejores cuentos mexicanos, edición 2000 (2000), Se habla español. Voces latinas en USA (2000), Points of Departure. New Stories from Mexico (2001) e Los mejores cuentos mexicanos, edición 2003 (2003). Tem se destacado como editor de revistas (Biblioteca de México, Cambio) e suplementos culturais (Nostromo de Siglo 21; Crónica Dominical de La Crónica de Hoy; sábado de unomásuno). Atualmente é colaborador das revistas Letras Libres y Día Siete, colunista do suplemento Crónica Cultural, secretário de redação da revista M. Museos de México y el mundo e membro do Sistema Nacional de Creadores de Arte. Conquistou, entre outros, o Prêmio Nacional de Poesia Jovem “Elías Nandino” (1993) e o Prêmio Latino-americano de Conto “Edmundo Valadés” (2000). Foi bolsista do Centro de Escritores “Juan José Arreola” (1999-2000) e do Fondo Nacional para la Cultura y las Artes (1993-1994 e 2001-2002).
O tradutor, LEONARDO VIEIRA DE ALMEIDA, é escritor e cursa o mestrado em Literatura Brasileira na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Autor do livro de contos Os que estão aí (Ibis Libris, 2002), e de contos publicados no suplemento literário Rascunho, do Jornal do Estado do Paraná, no jornal Panorama e nos sites literários Paralelos e Bestiário.
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