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Agáfia

Anton Tchecov
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra
Quando vivia no distrito de S..., acontecia-me muitas vezes
passar pelas hortas de Dúbovo e visitar o hortelão, Savva
Stukatch, ou simplesmente Savka. Estas hortas eram o meu lugar
preferido para aquilo a que eu chamo «pescaria geral», quando,
levando connosco todos os petrechos de pesca e todas as
provisões, saímos de casa e não sabemos a hora e o dia em que
voltaremos. Na verdade, não era tanto a pesca que me
entusiasmava, mas a possibilidade de vaguear despreocupado, de
comer a qualquer hora, sem regra, de conversar com Savka e de
ficar a sós com as longas e serenas noites estivais. Savka era
um rapaz de vinte e cinco anos, alto, bonito, saudável como a
pedra. Tinha a reputação de homem sensato e esperto, era
alfabetizado, raramente bebia vodca, mas, como trabalhador, este
homem novo e forte não valia um pataco. Nos seus músculos
sólidos como cordas morava, ao lado da força, uma preguiça
pesada e invencível. Como toda a gente na aldeia, tinha isbá e
courela próprias, mas não arava nem semeava, nem praticava
qualquer ofício. A sua velha mãe batia aos postigos pedindo
esmola, e ele próprio vivia como um pássaro dos céus: de manhã
ainda não sabia o que iria comer ao meio-dia. Não que lhe
faltassem vontade e energia, ou piedade pela mãe, mas,
simplesmente, não tinha apetência pelo trabalho nem era
consciente da importância do trabalho... Jorrava de todo o seu
ser a despreocupação, a paixão inata e quase artística de viver
inutilmente, ao deus-dará. Ora, quando o corpo jovem e saudável
de Savka tinha impulsos fisiológicos de trabalho físico, o rapaz
entregava-se de alma e coração, embora por pouco tempo, a uma
qualquer tarefa livre mas desarrazoada, como sejam aparar
estacazinhas inúteis ou fazer corridas com as mulheres. A sua
posição preferida era a imobilidade concentrada. Era capaz de
ficar horas a fio no mesmo sítio, sem se mexer, de olhos fixos
num ponto. Apenas se movia por inspiração ou quando o atacava o
impulso de um qualquer movimento rápido: agarrar pelo rabo um
cão que corria, arrancar o lenço da cabeça de uma mulher, saltar
por cima de uma cova larga. É evidente que, com esta contenção
de movimentos, Savka era pobre como Job e vivia pior do que
qualquer vagabundo. Com o correr do tempo, a sua tributação em
atraso acumulou-se de tal maneira que a comunidade lhe deu, a
ele, jovem e sadio, um cargo de velho: guarda e espantalho das
hortas comunais. Por mais que se rissem da sua velhice
prematura, não se importava nada. O lugar era calmo, cómodo para
a contemplação estática e correspondia plenamente à sua
natureza.
Calhou que eu visitasse este Savka numa bela tarde de Maio.
Lembro-me de estar deitado, eu, numa esteira rota e gasta quase
encostada à cabana donde saía um cheiro espesso e sufocante a
ervas secas. Com a nuca soerguida apoiada nas mãos, olhava eu à
minha frente. Junto aos meus pés, no chão, estava uma forquilha
de madeira. Atrás da forquilha destacava-se a mancha negra da
cadelinha de Savka, chamada Kutka, e mais para lá, a não mais do
que duas braças de Kutka, a terra era cortada pela margem
alcantilada do rio. Deitado, eu não podia ver o rio. Via apenas,
nesta banda do rio, as pontas das copas do salgueiral que
crescia densamente e também a outra banda serpenteante, como que
trincada. Lá, muito ao longe, numa colina escura, apertavam-se
umas às outras, como perdizes assustadas, as isbás da aldeia em
que vivia o meu Savka. Por trás da aldeia ardiam os últimos
raios do ocaso. Restava apenas uma faixa rubro-pálida, e mesmo
essa começava a cobrir-se de nuvens, como as brasas de cinzas.
À direita da horta, cochichando baixinho, havia um amieiral
escuro, à esquerda espraiava-se um campo que a vista não podia
abarcar. Onde o olho já não distinguia o campo do céu, em plenas
trevas, ardia uma luzinha brilhante. Savka estava sentado, um
pouco afastado de mim, com as pernas dobradas à turca e a cabeça
caída, olhando pensativamente para a Kutka. Havia muito que os
nossos anzóis com isco vivo estavam metidos no rio, pelo que
nada mais tínhamos a fazer do que nos entregarmos ao repouso que
Savka tanto prezava (apesar de nunca se cansar, ele descansava
permanentemente). O ocaso ainda não se tinha consumado por
completo, mas a noite estival já abraçava a natureza com o seu
carinho meigo, soporífero.
Tudo esmorecia, caindo já no primeiro sono, o mais profundo, e
apenas uma ave nocturna, que eu não conhecia, pronunciava na
floresta um som bem articulado, preguiçoso, esticado, sugerindo
a pergunta: «Vis-te-o-Ni-ki-ta?», a que respondia logo a seguir:
«Vi-o, vi-o, vi-o!»
– Por que é que hoje não cantam os rouxinóis? – perguntei a
Savka.
Savka virou-se lentamente para mim. Tinha uns traços
fisionómicos graúdos e nítidos, mas expressivos e suaves como os
de uma mulher. Depois lançou os olhos meigos e contemplativos
para a floresta, para o salgueiral, tirou uma flauta do bolso,
muito devagar, levou-a aos lábios e fê-la piar como a fêmea do
rouxinol. Imediatamente, como que em resposta àqueles pios,
gritou na margem oposta um codornizão.
– Ora toma lá o rouxinol... – sorriu Savka. – Trra-trra!
Trra-trra! Parece que está a puxar um gancho, mas com certeza
também acha que aquilo é cantar.
– Gosto desta ave... – disse eu. – Sabias que ela, quando migra,
não voa mas corre pelo chão? Só voa para atravessar os rios e os
mares, de resto vai sempre a pé.
– Ena, que bicho... – murmurou Savka, deitando um olhar
respeitoso na direcção do codornizão a gritar.
Sabendo que Savka gostava muito de ouvir histórias, contei-lhe
tudo o que aprendera desta ave nos livros sobre caça. Do
codornizão desviei-me, sem dar por isso, para a migração das
aves. Savka ouvia-me com atenção, sem pestanejar, sempre a
sorrir de prazer.
– Qual é a terra natal das aves? – perguntou. – A nossa ou
aquela para onde elas migram?
– É claro que é a nossa. É aqui que nasce a ave e cria os
filhotes, é aqui a pátria dela, e só migra daqui para não morrer
de frio.
– Curioso! – espreguiçou-se Savka. – Seja qual for o tema de
conversa, tudo é curioso. Agora falamos das aves, mas podia ser
do homem... ou, digamos, desta pedrinha... em tudo há
sabedoria!... Ah, se eu soubesse que o senhor vinha, não tinha
dito à mulher para aparecer... Houve uma que me pediu, hoje...
– Ah, por amor de Deus, não quero incomodar! – disse eu. – Posso
dormir na floresta...
– Só me faltava isto! Ela não morria se viesse só amanhã... Se
ainda ao menos se sentasse a ouvir as conversas... mas não, são
só lamechices. Com ela cá, não se pode falar como deve ser.
– Estás à espera da Dária? – perguntei um pouco depois.
– Não... Hoje foi uma nova que se fez convidada... a Agáfia
Agulheira...
Savka disse-o com a sua voz habitual, impassível, um pouco
surda, como se falasse de tabaco ou de papas, enquanto eu, de
tão surpreendido, até sobressaltei. Conhecia a Agáfia
Agulheira... Era uma mulher ainda muito nova, de dezanove ou
vinte anos, casada havia menos de um ano com o agulheiro do
caminho-de-ferro, um rapaz novo e galhardo. Ela vivia na aldeia,
e o marido, todas as noites, deixava a estação para ir dormir
com ela.
– Essas tuas histórias com mulheres ainda vão acabar mal, meu
amigo! – suspirei.
– Paciência...
E Savka, depois de pensar um pouco, acrescentou:
– Eu bem digo às mulheres, mas elas não me dão ouvidos... Não
querem saber, as parvas!
Caiu o silêncio... A escuridão, entretanto, adensava-se cada vez
mais, os objectos perdiam os seus contornos. A pequena faixa de
luz por trás da colina já se apagara, as estrelas tornavam-se
cada vez mais brilhantes e luminosas... O fretenir melancólico e
monótono dos gafanhotos, o canto gritado da codorniz e do
codornizão não violavam o sossego da noite, pelo contrário,
tornavam-no ainda mais monótono. Parecia que não eram as aves e
os insectos, nos seus voos baixinhos, que nos soavam aos ouvidos
e nos fascinavam, mas sim as estrelas, tanto elas nos olhavam do
céu...
Foi Savka o primeiro a quebrar o silêncio. Desviou lentamente os
olhos da preta Kutka para mim e disse:
– Vejo que se aborrece, meu senhor, vamos jantar.
E, sem esperar pelo meu consentimento, rastejou de barriga para
dentro da cabana e pôs-se a procurar qualquer coisa lá dentro:
enquanto o fazia, toda a cabana tremia como uma folha ao vento;
depois rastejou de volta e pôs diante de mim a vodca que eu
trouxera e uma tigela grande de barro. Na tigela havia ovos
assados, panquecas de centeio com toucinho, fatias de pão negro
e mais qualquer coisa... Bebemos por um copinho torto e
instável, e começámos a comer... Sal cinzento e sujo, panquecas
sujas com toucinho, ovos elásticos como borracha, mas que bem
sabia tudo aquilo!
– Vives sozinho, mas as coisas que tu tens – disse eu, apontando
para a tigela. – Onde arranjas isto?
– As mulheres trazem-no... – murmurou Savka.
– E por que to trazem?
– Não sei... por piedade...
Não só a ementa, mas também as roupas de Savka tinham marcas da
«compaixão» feminina. Assim, reparei que ele tinha esta noite um
cinto novo de lã e uma fita escarlate com uma pequena cruz no
pescoço sujo. Eu sabia que o belo sexo tinha um fraco por Savka
e sabia também que ele não gostava de falar do assunto, por isso
não continuei com as perguntas. Além disso, a altura não era a
melhor para uma tal conversa... Kutka, que cirandava à nossa
beira e esperava com paciência um bocadinho, levantou de repente
as orelhas e rosnou. Ouviu-se um chapinhar de água longínquo e
entrecortado.
– Vem aí alguém a vau... – disse Savka.
Três minutos depois, Kutka rosnou de novo e emitiu uma espécie
de tosse.
– Chiu! – gritou-lhe o dono.
Soaram passos tímidos no escuro e apareceu a silhueta de uma
mulher saída da floresta. Apesar da escuridão, reconheci-a: era
a Agáfia Agulheira. Indecisa, aproximou-se de nós, parou e
restabeleceu o fôlego. Resfolegava, não por andar muito mas,
pelos vistos, por causa do medo e da sensação desagradável que
qualquer um experimenta quando anda de noite a vau. Ao ver junto
ao cabana dois homens em vez de um, soltou um grito débil e
recuou um passo.
– Ah-ah... és tu? – disse Savka, metendo na boca uma panqueca.
– Sou... sou eu – murmurou Agáfia, deixando cair no chão uma
trouxa e olhando de soslaio para mim. – O Iákov manda vénias
para vossa mercê e disse para eu lhe entregar... aqui qualquer
coisa...
– Deixa de mentir... o Iákov! – sorriu Savka. – Não vale a pena,
o senhor sabe ao que vieste! Sê bem-vinda, senta-te!
Agáfia voltou a olhar para mim de revés e, indecisa, sentou-se.
– Pensei que já não vinhas hoje... – disse Savka depois de um
longo silêncio. – Então, por que estás tão encolhida? Come! Ou
queres um copinho de vodca?
– Essa agora! – disse Agáfia. – Achas que sou alguma bêbada?...
– Bebe... Aqueces a alma... Vá lá!
Savka chegou a Agáfia o copinho torto. Ela bebeu devagar e, no
fim, não fez boca com nada, apenas soprou com barulho.
– Trouxe qualquer coisa... – continuou Savka, desatando a trouxa
e dando à voz um toque de condescendência e brincadeira. – Uma
mulher não pode vir sem trazer qualquer coisa. Ah-ah, bolo,
batatas... Vivem bem! – suspirou ele, virando-se para mim. – Em
toda a aldeia, só eles é que têm ainda batatas desde o Inverno.
Na escuridão eu não via a cara de Agáfia, mas, pelo movimento
dos seus ombros e cabeça, parecia-me que não tirava os olhos da
cara de Savka. Para não estar a mais no encontro, decidi ir dar
uma volta e levantei-me; mas, no preciso momento em que me
levantava, o rouxinol, na floresta, fez soar duas notas de
contralto. Uns segundos depois, tendo feito mais uns sons breves
e altos, experimentando dessa forma a voz, começou a cantar.
Savka levantou-se de rompante e pôs-se à escuta.
– É o de ontem! – disse ele. – Espera lá, então!...
E, arrancando do lugar, correu em passadas silenciosas para a
floresta.
– O que é que queres dele? – gritei-lhe às costas. – Deixa lá
isso!
Savka abanou a mão – a querer dizer que eu não gritasse – e
desapareceu no escuro. Quando lhe apetecia, Savka era excelente
caçador e pescador, mas mesmo nisso os seus talentos, tal como a
sua força, se gastavam em vão. Tinha preguiça de seguir o
estereótipo e dedicava toda a sua paixão de caçador a caçadas
inúteis. Assim, apanhava os rouxinóis obrigatoriamente à mão,
disparava com chumbo miúdo contra os lúcios do rio, ou, por
vezes, ficava especado na margem horas a fio tentando pescar com
um anzol grande um peixinho pequeno.
Ao ficar a sós comigo, Agáfia tossicou e passou várias vezes a
mão pela testa... O copinho de vodca começava a fazer-lhe
efeito.
– Como vai isso, Agacha? – perguntei-lhe depois de uma longa
pausa, quando já estava a tornar-se desconfortável continuar
calado.
– Bem, graças a Deus... Por favor, não conte a ninguém, por
favor, meu senhor... – acrescentou de repente, num sussurro.
– Fica descansada – acalmei-a. – És muito temerária, Agacha... E
se o Iákov vem a saber?
– Não há-de saber...
– Mas se souber?
– Não... Vou chegar a casa antes dele. Ele agora está na linha e
só volta a casa quando passar o comboio correio; e daqui ouve-se
o comboio...
Agáfia voltou a passar a mão pela testa e olhou na direcção onde
tinha desaparecido Savka. O rouxinol continuava a cantar. Uma
ave nocturna voou ao rés da terra e, ao reparar em nós,
estremeceu, farfalhou com as asas e dirigiu-se para a outra
margem do rio.
Um pouco depois o rouxinol calou-se, mas Savka não voltava.
Agáfia levantou-se, deu uns passos inquietos e sentou-se de
novo.
– Mas o que anda ele a fazer? – impacientou-se. – O comboio não
é para amanhã! Tenho de me ir embora!
– Savka! – gritei. – Savka!
Nem o eco me respondeu. Agáfia, preocupada, agitava-se.
Levantou-se de novo.
– Tenho de ir! – disse, com a comoção na voz. – O comboio deve
estar a chegar! Eu sei quando chegam os comboios!
A pobre da mulher não se enganava. Nem um quarto de hora passara
e já se ouvia o barulho longínquo do comboio.
Agáfia pousou um longo olhar na floresta e, impaciente, agitou
as mãos.
– Onde é que ele andará? – disse, rindo-se nervosamente. – Para
onde diabo é que ele foi? Vou-me embora! Juro, senhor, juro que
vou!
Entretanto, o barulho tornava-se cada vez mais nítido. Já era
possível distinguir-se o bater das rodas e os suspiros pesados
da locomotiva. O comboio apitou, logo se ouviu o ruído dos
ferros pela ponte... um minuto mais, e tudo se calou...
– Espero mais um minuto... – suspirou Agáfia, sentando-se
resolutamente. – Ainda fico, está bem!
Por fim, Savka surgiu da escuridão. Com os pés descalços, pisava
silenciosamente a terra fofa da horta e cantarolava baixinho.
– Irra, que azar, veja lá! – riu-se alegremente. – Mal me
aproximei do arbusto e mal comecei a chegar a mão, o bicho
calou-se! Ah, raio de diabo careca! Esperei, esperei, a ver se
ele cantava outra vez, até que desisti...
Savka deixou-se cair desajeitadamente no chão ao lado de Agáfia
e, para manter o equilíbrio, agarrou-se com as duas mãos à
cintura dela.
– E tu, por que estás tão carrancuda como se nascesses da tia? –
perguntou.
Savka, com todo o seu coração meigo e toda a sua ingenuidade,
desprezava as mulheres. Tratava-as com indiferença, com altivez
e chegava mesmo a rir-se com desdém dos sentimentos delas para
com ele. Sabe-se lá se um tal trato indiferente e desdenhoso não
seria uma das causas da forte e irresistível atracção que
provocava nas dulcineias aldeãs. Era bonito e esbelto, nos seus
olhos, mesmo quando olhava para as mulheres que desprezava,
luzia sempre um carinho sereno, mas era impossível explicar um
tal fascínio apenas pelas qualidades do seu aspecto exterior.
Além da aparência feliz e do trato pouco vulgar, também influía
por certo nas mulheres o estatuto de Savka como reconhecido
azarento e pobre desterrado da casa materna para as hortas.
– Conta lá ao senhor para que vieste cá! – continuou Savka,
segurando ainda Agáfia pela cintura. – Conta lá, sua esposa de
seu marido! Ah, ah!... Talvez bebamos ainda mais um copinho,
amiga Agacha?
Levantei-me e, passando por entre os canteiros, fui ao longo da
horta. Os canteiros escuros tinham o aspecto de grandes túmulos
achatados. Erguia-se deles o cheiro da terra cavada e da suave
humidade das plantas que começavam a cobrir-se de orvalho... À
esquerda ainda brilhava a luzinha vermelha. Piscava com
simpatia, parecia sorrir.
Ouvi um riso feliz. Era o riso de Agáfia.
«E o comboio? – lembrei-me. – O comboio há muito que chegou.»
Depois de ter esperado mais um pouco, voltei à cabana. Savka
estava sentado à turca, imóvel, e cantarolava baixinho, quase
indistintamente, uma canção que, pelos vistos, se compunha
apenas de palavras monossilábicas, do género: «Eh, vê só, tu e
eu...» Agáfia, embriagada da vodca, do carinho desdenhoso de
Savka e do abafo da noite, estava deitada na terra a seu lado e,
convulsamente, apertava a cara contra o joelho dele. Mergulhara
tão profundamente no seu sentimento que nem deu pela minha
chegada.
– Agacha, mas o comboio há muito que chegou! – disse eu.
– Tens de ir, tens de ir – secundou-me Savka, sacudindo a
cabeça. – Por que te espreguiças aí deitada? Desavergonhada!
Agáfia azafamou-se, tirou a cabeça do joelho dele, olhou para
mim e voltou a agarrar-se a ele.
– Há muito que devias ter ido! – disse eu.
Agáfia agitou-se, ajoelhou-se num joelho. Sofria... Durante meio
minuto, toda a figura dela, tanto quanto me era possível
enxergar na escuridão, exprimia hesitação e luta consigo
própria. Houve um instante em que ela, como se caísse em si,
esticou o corpo para se pôr de pé, mas uma implacável e
irresistível força conteve-lhe o corpo e ela voltou a apertar-se
contra Savka.
– Ele que vá para o diabo! – disse ela com um riso maluco a
sair-lhe do fundo do peito, e soava naquele riso uma ousadia
irreflectida, uma impotência, uma dor..
Fui devagar para a floresta e, de lá, desci até ao rio, para o
sítio onde estavam os nossos petrechos de pesca. O rio dormia.
Uma flor macia de muitas pétalas e caule alto roçou-me
carinhosamente pela cara, como uma criança que quer dar a
entender que não dorme. Por não ter mais nada que fazer, peguei
numa linha e puxei-a. Retesou-se um pouco mas logo ficou lassa –
nada tinha mordido... Não se via a outra margem nem a aldeia.
Apenas uma luzinha cintilou numa isbá, mas logo se apagou.
Sondei o chão da margem, encontrei o buraco que encontrara ainda
de dia e sentei-me nele como numa poltrona. Fiquei assim sentado
muito tempo... Via como as estrelas começavam a ficar nebulosas
e a perder a luminosidade, como a frescura da noite, qual
suspiro levezinho, passava pela terra e tocava as folhas dos
salgueiros a acordarem...
– A-gá-fia! – chegava da aldeia a voz surda de alguém. – Agáfia!
Era o marido preocupado que voltara e andava pela aldeia à
procura da mulher. Entretanto, ouviam-se nas hortas risos
contidos: a mulher esquecera tudo, estava embriagada e, com a
felicidade de algumas horas, tentava compensar todo o sofrimento
que a esperava no dia seguinte.
Adormeci.
Quando acordei, Savka estava sentado à minha beira e sacudia-me
delicadamente pelo ombro. O rio, a floresta, ambas as margens
verdes e lavadas, as árvores e o campo – tudo se banhava na
brilhante luz matinal. Através dos troncos finos das árvores, os
raios finos do sol acabado de nascer vinham bater-me nas costas.
– É assim que o senhor pesca? – sorriu Savka. – Levante-se!
Levantei-me, espreguicei-me com prazer, e o meu peito desperto
começou a beber avidamente o ar húmido e fragrante.
– A Agacha foi-se embora? – perguntei.
– Olhe-a ali – e Savka apontou para o lado onde se podia passar
o rio a vau.
Olhei e vi Agáfia. Arregaçando o vestido, com o cabelo
desgrenhado e o lenço a deslizar-lhe da cabeça, atravessava o
rio. Parecia que as pernas dela mal se mexiam
– Roubada a bocada, a gata bem sabe que é culpada! – murmurou
Savka, estreitando os olhos. – Lá vai ela com o rabo entre as
pernas... Estas mulheres são matreiras como gatas e assustadiças
como lebres... Não se quis embora, a parva, como lhe disseram!
Agora vai levar uma sova, e a mim... também vão dar uma açoitada
valente na polícia por causa das mulheres...
Agáfia saiu para a margem e, através do campo, dirigiu-se para a
aldeia. A princípio caminhava com bastante firmeza, mas
rapidamente os nervos e o medo lhe levaram a melhor sobre a
firmeza: olhava para trás, assustada, parava para recuperar o
fôlego.
– Pois, é medonho! – sorria Savka tristemente, olhando para a
risca verde viva que se formava nas ervas orvalhadas à passagem
de Agáfia. – Não deve ter muita vontade de ir! O marido já deve
estar à espera dela há mais de uma hora... O senhor não está a
vê-lo além?
Foi a sorrir que Savka proferiu estas últimas palavras, mas eu
senti frio no coração. Na aldeia, junto à última isbá à beira do
caminho, estava parado Iákov, olhando com fixidez para a mulher
que voltava. Não se mexia, estava imóvel como um poste. O que
estaria a pensar olhando assim para ela? Que palavras lhe
preparava para o regresso? Agáfia parou mais um pouco, olhou de
novo para trás, como se esperasse a nossa ajuda, e seguiu. Nunca
na vida vi um andar assim, quer em bêbados quer em sóbrios.
Agáfia, sob o olhar do marido, parecia agitar-se em convulsões.
Ora andava aos ziguezagues, ora marcava passo, dobrando os
joelhos e abrindo os braços, ora recuava. A cerca de cem passos,
olhou mais uma vez para trás e sentou-se.
– Ao menos escondias-te atrás dos arbustos... – disse eu a
Savka. – Deus te valha se o marido te vê...
– Ele já sabe das mãos de quem volta a sua Agachka... As
mulheres não vão à horta de noite para buscar repolhos... toda a
gente sabe.
Olhei para a cara de Savka. Estava pálida e franzia-se naquela
careta de piedade enojada que as pessoas sentem quando vêem
animais a ser torturados.
– Riso para o gato, lágrimas para o rato... – suspirou ele.
Agáfia, de repente, saltou do lugar, sacudiu a cabeça e avançou
para o marido com um olhar arrojado. Pelos vistos, juntara as
suas forças e decidira-se.
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