Afinidades literárias no metropolitano

João Tomás Pereira

-The apparition of these faces in the crowd;

Petals on a wet, block bough.

                A aparição destas faces na multidão;
                Pétalas num húmido, negro ramo. (*)

Ezra Pound 

 

-Mingled                                                    Misturados
breath and smell                                        fôlego e cheiros
so close                                                     tão íntimos
mingled                                                     misturados
black and white                                        negro e branco
so near                                                     tão próximos
no room for fear                                       sem espaço para o medo. (*)

Langston Hughes

 

De quantos inumeráveis poemas existem, que podem ser seleccionados para integrar o conjunto das afinidades literárias, estes dois são paradigmáticos.

As afinidades literárias,  revelam-se no lugar - o Metro ou o Subway - que ambos os poetas usaram como referente poético para caracterizar um espaço ligado socialmente às multidões na hora de ponta. Por essa razão, ambos os poemas têm um referencial urbano.

Em primeiro lugar pela sua concentração, em segundo pelos referentes espaço-tempo.

O único ponto em que se afastam, é no método imagístico e na proposta poemática de cada um. No entanto, ambos os poemas tentam explicar o mundo com uma imagem. Cada um com a sua imagem.

O poema de Pound recorrendo ao que ele próprio chama de phanopeia ou a criação de uma imagem na imaginação visual, o de Hughes tirando e revelando, à luz da história social dos Estados Unidos, uma fotografia da realidade.

Não obstante as diferenças, literariamente falando, um e outro pertencem ao estilo do «poema-minuto», na clássica classificação do poeta, crítico e tradutor brasileiro Augusto de Campos.

As próprias dimensões, na forma e no conteúdo, de ambos os poemas têm afinidades.

Octávio Paz classificava o poema longo como sendo «uma sucessão de momentos intensos». Perante estes dois poemas curtos, estamos confrontados com o mesmo princípio, todavia no inverso e no singular. São dois escritos poéticos como um só momento intenso.

Existem em ambos duas ordens de factos, porém com uma relação profunda, patética e essencial.  Como se os caminhos das afinidades literárias, finalmente nos conduzissem a um ponto onde se sublinharia, nos dois poemas, uma hipotética «origem» literária. 

Nesse sentido, e numa síntese meramente experimental, poderíamos dizer que In a Station of Metro é puro Kafka, porque descreve o que são os rostos na multidão, como a metáfora da transformação que existe em  A Metamorfose ; e que Subway Rush Hour  é Hemingway, por deixar o leitor diante da razão pela qual é injustificável haver segregação racial, utilizando a crónica de acontecimentos, subtil mas poderosa como no conto «Os Assassinos».  

(*) Tradução dos poemas de J.T.P