Happening

Desembarquei correndo, desajeitada, abrindo caminho entre os passageiros, derrubando embrulhos e sacolas de supermercado, o cabelo caindo a toda hora sobre o rosto, nem parei para olhar se a estação era aquela mesma. Subi intermináveis degraus, atravessei um corredor estreito, cartazes anunciando roupas e marcas de cigarros, mais degraus, a respiração já ofegante quando finalmente a luz do sol, o sobressalto, as pupilas que se encolhem com a claridade inesperada, continuei correndo, segurando a longa saia para não tropeçar, os olhos aos poucos se acostumando, a rua, os prédios, tudo me parecia estranho, provavelmente a estação errada, onde estaria, pensei em conferir o endereço que Marco havia me dado, mas não houve tempo, a multidão se aproximava, estudantes, fotógrafos, acrobatas, alguns suntuosamente fantasiados, o barulho de cornetas e tambores, uma algazarra de câmeras, máquinas fotográficas, pessoas falando sem parar, eu tentava me desvencilhar de alguém que me abraçava, alguém que me puxava pela manga, eu tentava me desvencilhar, enquanto a multidão se espalhava pela rua.

Pensei em voltar para o metrô, ligar para Marco que deveria estar preocupado, por que você sempre se atrasa, meu amor? Mas na confusão, já não sabia bem onde estava, tinha andado talvez um, dois quarteirões, procurava algum letreiro, alguma placa pela qual me orientar, encontro apenas cartazes, desenhos, pinturas. Alguém tenta me dizer alguma coisa, um grupo de jovens passa carregando uma estranha escultura feita de garrafas de refrigerante, procuro palavras em meu escasso vocabulário, aquele idioma indiferente aos meus esforços, aos meus livros de gramática, chego a pronunciar, a voz insegura, que não entendo, que não sei, mas eles parecem não se importar, continuam gritando qualquer coisa, eu olho confusa, sem saber o que fazer, a vontade de sair dali o quanto antes possível, mas a multidão, a música, as pessoas se esbarrando o tempo todo, continuo dizendo que não sei, que não entendo, elas riem, tento abrir caminho à força, tropeço, caio no chão, ouço os risos ainda mais intensos, eu me levanto com esforço, alguém me ajuda, me segura pelo braço, quero agradecer, mas quando ergo a cabeça, logo à minha frente, ali está ela, pela primeira vez.

Ela é alta, magra, usa uma peruca lilás, tem os olhos delineados de preto num contorno tosco e exagerado. O olhar pesa como se usasse uma máscara. Ela me encara esboçando um sorriso, mas minha atenção vai para o torso: fazendo as vezes de camisa, uma caixa de papelão com aberturas para os braços, para a cabeça, na parte da frente da caixa, do torso, uma cortina preta e as palavras touch cinema, ouço risos, touch cinema, ela aponta para a cortina negra, explica gesticulando, segurando um cronômetro, quer que eu coloque as minhas mãos dentro da caixa, através da cortina, fico sem reação, de um momento ao outro uma roda de gente se forma a nossa volta, mais risos, assobios, o flash de máquinas fotográficas, ela reitera o convite, diz que tenho direito a doze segundos, eu continuo imóvel, alguém pega as minhas mãos e as coloca dentro da caixa, atrás das cortinas, atrás da cortina a mulher está nua. Penso em ir embora, fugir, a pele desconhecida, as pessoas desconhecidas em volta. Ela me olha fixamente, eu permaneço imóvel. Por algum motivo, eu permaneço imóvel. Ela liga o cronômetro, minha respiração é tensa e descompassada, a pele é suave e desliza em movimentos mínimos, imperceptíveis, pelo interior das minhas mãos. Ela sorri, eu fecho os olhos. Eu tenho direito a doze segundos.


CAROLA SAAVEDRA publicou em 2005 o livro de contos Do lado de fora pela editora 7Letras (Coleção Rocinante).