|
|
|
|
|
A flauta
À frente, a extrema da floresta era de bétulas e por entre os seus troncos e ramos entrevia-se o horizonte nebuloso. Alguém, por trás das bétulas, tocava uma flauta rústica de pastor. O músico não tocava mais do que cinco ou seis notas, esticando-as preguiçosamente sem tentar ligá-las numa melodia; mesmo assim, soava naqueles assobios qualquer coisa de severo e muito tristonho. Quando a floresta começou a ficar mais rala e os abetos já se misturavam com as bétulas jovens, Meliton viu o gado. Os cavalos com peias, as vacas e as ovelhas à solta por entre as moitas e, fazendo estalar os ramos, com os focinhos metidos nas ervas da floresta. Na orla, encostado a uma bétula húmida, estava de pé um velho pastor, magro, de casaco de burel roto e sem chapéu. Olhava para o chão, pensativo, e tocava a flauta, pelos vistos maquinalmente. – Bom dia, avô! Deus te ajude! – cumprimentou Meliton numa voz fina e rouca que em nada condizia com a sua estatura gigantesca e a sua cara grande e carnuda. – Sopras com muita habilidade no teu pífaro! Donde é o gado? – De Artamónovo – respondeu o pastor, a contragosto, guardando a flauta no peito. – Portanto, a floresta também pertence a Artamónovo, olha qu’isto... Ia-me perdendo. Arranhei a cara toda no matagal. Sentou-se na terra molhada e pôs-se a embrulhar um cigarro com papel de jornal. À semelhança da vozinha frágil, tudo neste homem era miúdo e não correspondia à sua corpulência e à sua cara carnuda: o sorriso, os olhinhos, os botões, o boné que mal se lhe segurava no cocuruto da cabeça gorda, de cabelo curto. Quando falava e sorria, na sua cara balofa e rapada, assim como em toda a sua figura, sentia-se qualquer coisa feminina, tímida e submissa. – Que tempo, valha-nos Deus! – disse ele e meneou a cabeça. – A gente ainda não tirou a aveia e a chuva não há meio de parar, como se viesse por decreto, credo. O pastor olhou para o céu donde caía o chuvisco, para a floresta, para a roupa encharcada do feitor, pensou e não disse nada. – E foi assim todo o Verão – suspirou Meliton. – Para os mujiques isto vai mau, e para os patrões também não é festa nenhuma. O pastor voltou a olhar para o céu, pensou um pouco e disse pausadamente, como se mastigasse cada palavra: – Tudo tende para a mesma coisa... Não vai dar nada de bom. – Como corre isto por cá? – perguntou Meliton, acendendo o cigarro. – Não viste ninhadas de galo-lira na clareira de Artamónovo? O pastor demorou a responder. Voltou a olhar para o céu, para os lados, pensou, pestanejou... Pelos vistos, dava bastante valor às suas palavras e, para as encarecer ainda mais, cuidava de as esticar com uma certa solenidade. A sua cara fazia uma expressão de rispidez e imponência senis mas, como o nariz se lhe arrebitava em forma de sela e as narinas olhavam para cima, o resultado era um rosto manhoso e irónico. – Não, parece que não vi – respondeu. – O nosso caçador Eriomka disse que, no dia de Santo Elias, levantou para os lados do Baldio uma ninhada, mas estou que mente. Há poucas aves. – Exactamente, amigo, há poucas... Há poucas aves por todo o lado! A caça, se virmos as coisas como devem ser vistas, está uma miséria muito reles. Não há caça, e alguma que haja nem merece a pena o esforço, é miúda, ainda não cresceu! É tão miúda que até dá vergonha olhar para ela. Meliton sorriu e abanou a mão. – O que se passa neste mundo é mesmo ridículo! A ave, hoje em dia, tornou-se desencaminhada, agacha-se a chocar os ovos tarde de mais, e há pássaros que chegam ao S. Pedro e ainda não se levantam do ninho. Juro! – Tudo tende para a mesma coisa – disse o pastor, levantando a cara para o céu. – No ano passado havia pouca caça, este ano ainda há menos, daqui a cinco anos, vais ver, não há nenhuma. Não tarda, não é só a caça que desaparece, a outra passarada também. – Pois – concordou Meliton, depois de ter pensado um pouco. – Exactamente. O pastor sorriu com amargura e abanou a cabeça. – É esquisito! – disse. – Para onde é que desaparece tudo? Há vinte anos, lembro-me, havia gansos, havia grous e patos, havia o galo-lira... nuvens deles! Às vezes juntavam-se os fidalgos nas caçadas e só se ouvia: pum-pum-pum! Pum-pum-pum! Narcejas e galinholas eram ao pontapé, as cercetas e os alfaiates eram tantos como os estorninhos ou, vá lá digamos, os pardais, aos centos! Onde é que se meteu tudo isso? Nem os pássaros ruins se vêem. Desapareceram as águias, os falcões, os mochos... Os bichos também são poucos. Hoje, meu amigo, o lobo e a raposa são uma raridade, já para não falar do urso ou da marta. Ora, antigamente até alces havia aqui! Há quarenta anos que observo o que se passa neste mundo de Deus e, no meu entender, tudo tende para a mesma coisa. – P’ra que coisa? – Coisa má, rapaz... É de pensar que chegou ao fim... Chegou a hora de este mundo de Cristo acabar. O velho pôs o boné e olhou para o céu. – É pena! – suspirou depois de uma pausa. – Meu Deus, que pena! É a vontade de Deus, está claro. Quem criou o mundo não fomos nós mas, mesmo assim, é pena, meu amigo. Quando uma árvore seca ou, vá lá digamos, quando uma vaca morre, temos pena delas; então, quando todo o mundo caminha para a morte, não é uma dor de alma? Tanta riqueza, oh, Nosso Senhor Jesus Cristo! O sol, o céu, as florestas, os rios, as criaturas vivas... é que tudo isso foi criado e ajeitado para as coisas se combinarem umas com as outras. Cada coisa tem o seu papel e conhece o seu lugar. E vai tudo para a perdição! Na cara do pastor acendeu-se um sorriso triste, pestanejou. – Estás a dizer: o mundo vai acabar – disse Meliton, pensativo. – Talvez o fim do mundo esteja para breve, sim, só que não é pelas aves que se pode julgar isso. Não pode ser o pássaro a dar o sinal. – Não só as aves – disse o pastor. – Os bichos do monte também, e o gado, e as abelhas, e os peixes... Se não acreditas em mim, pergunta aos velhos; cada um te vai dizer que o peixe já não é como era dantes. Nos mares, nos lagos e nos rios há menos peixe a cada ano que passa. No nosso rio Pestchanka, lembro-me como se fosse hoje, pescavam-se lúcios de um côvado de comprido, e havia lota e escalo, e brema, e cada peixe que era uma beleza, mas agora apanhamos um luciozinho ou uma perca pequerrucha e já damos graças a Deus. Nem uma gremilha a sério aparece. E de ano para ano vai ficando pior, de maneira que não tarda que não haja peixe nenhum. Ora, os rios... Os rios estão a secar, então não estão? – É verdade, secam. – Pois, é isso. De ano para ano ficam menos fundos, e já não há os poços, aqueles fundões que havia antigamente nos rios. Olha ali, estás a ver os arbustos? – perguntou o velho, apontando para o lado. – Por trás deles é que era o leito antigo, era por ali que corria o Pestchanka, ainda no tempo do meu pai, mas agora olha só para onde o diabo o levou! Primeiro muda o leito do rio, depois não tarda nada a secar por completo. Pegados à aldeia de Kurgássovo havia pântanos e lagos, mas onde é que eles estão? E onde é que se meteram os ribeiros? Aqui pela nossa floresta corria um ribeiro, de tal género que os mujiques deitavam lá as nassas e pescavam lúcios; o pato-bravo invernava à beira dele; mas, hoje, nem na altura das cheias leva água como deve ser. Pois, amigo, olha para onde quiseres, o mal está por todo o lado. Por todo o lado! Caiu o silêncio. Meliton ficou pensativo, com os olhos fixos num ponto. Gostaria de ficar com a recordação de um lugar na natureza, pelo menos, que ainda não tivesse sido atingido pelo perecimento total. Deslizaram manchas claras pelo nevoeiro e pelas riscas oblíquas da chuva, como por umas vidraças embaciadas, mas logo se apagaram – era o sol a nascer que tentava furar as nuvens e olhar para a terra. – As florestas também... – murmurou Meliton. – As florestas também... – repetiu o pastor. – Cortam-nas, ou ardem, ou secam, e não crescem novas. Mal cresce qualquer coisa, derrubam-na logo; hoje nasce, amanhã, pronto, cortam-na... e é assim sem parar, até que não reste nada. Eu, meu bom amigo, desde que acabaram com a servidão, ando com o gado comunal, já antes da abolição era pastor dos fidalgos, apascentava neste mesmo lugar, e não me lembro de um único dia de Verão em que não estivesse aqui. E sempre a observar o que se passa no mundo de Deus. Já vi de tudo na vida, e com atenção, e uma coisa eu percebo: cada planta está a minguar. Seja centeio, seja legume, seja uma flor qualquer, tudo tende para a mesma coisa. – Em compensação, o povo tornou-se melhor – observou o feitor. – Melhor em quê? – Mais esperto. – Lá esperto é, isso é verdade, mas que proveito lhe traz? Para que é precisa a esperteza antes do fim? Para chegar ao perecimento, a esperteza não faz falta. Para que é que um caçador precisa dela se não houver caça? No meu entender, Deus deu ao homem a cabeça mas tirou-lhe a força. O povo ficou fraco, fraco até mais não. Por exemplo, eu... Não valho um pataco, sou o último dos últimos da aldeia, mesmo assim, rapaz, tenho força. Olha que já vou nos setenta, mas ando com o gado todo o dia e, à noite, por vinte copeques, ainda guardo os animais no prado e não durmo nem tenho frio; o meu filho é mais esperto do que eu, mas, se o puserem no meu lugar, amanhã mesmo pede aumento e vai a correr para os doutores. Pois. Eu, tirante o pãozinho, não como mais nada, porque isto é assim: «o pão nosso de cada dia nos dai hoje», é já o meu pai só comia pão, e o meu avô também, mas o mujique, hoje em dia, ele é chá e vodca, ele é pão branco, e tem de dormir toda a noite, e que o tratem das doenças, e não sei que mimos ainda. E porquê? Porque se tornou fraco, não tem força para aguentar. Talvez gostassem de não dormir, mas fecham-se-lhes os olhos, nada a fazer. – É verdade – concordou Meliton. – Hoje em dia o mujique não presta. – A verdade é para se dizer: pioramos de dia para dia. E já agora, no que toca aos senhores, esses ainda enfraquecem mais que o mujique. O senhor, hoje em dia, já aprendeu tudo, sabe coisas que nem sequer valia a pena saber, mas será que ele tira algum proveito disso? Olhamos para ele e até mete pena... Magrinho, mirrado, tal e qual um húngaro ou um francês, já não tem aquela pujança, aquele ar... é senhor só de nome. Coitado, não tem um lugar na vida nem trabalha, e não se percebe o que ele quer. A criatura ora está sentada com a cana na mão, ora de barriga para o ar a ler o livreco, ora se mete no meio dos mujiques a dizer-lhes não sei que sentenças; e depois ainda aqueles senhores que passam fominha e arranjam lugares de escrivães. Pois é assim que ele vive, numa corriqueirice, e nem lhe passa pela cabeça que podia ocupar-se numa coisa importante. Os senhores de antigamente, metade deles, vá lá digamos, eram generais, mas hoje são todos uns moncosos! – Ficaram pobres – disse Meliton. – Ficaram, pois, mas isso foi porque Deus lhes tirou a força. Não se faz nada contra a vontade de Deus. Meliton voltou a fixar os olhos num ponto indefinido. Pensou um pouco, suspirou como suspiram as pessoas sérias e sensatas, abanou a cabeça e disse: – E por que é que as coisas são assim? Pecamos muito, esquecemo-nos de Deus... e então, pronto, chegou a hora em que tem de ser o fim de tudo. Também é verdade que o mundo não pode viver eternamente... chegou a hora. O pastor suspirou e, como se quisesse acabar com aquela conversa desagradável, afastou-se da bétula e pôs-se a contar as vacas com os olhos. – Ei, ei, ei! – gritou. – Ei, ei, ei! Suas bestas, não há diabo que as leve! Por que vos metestes para o matagal, diabos? Oi, oi, oi! Fez uma cara zangada e foi para as moitas juntar o gado. Meliton levantou-se e, vagaroso, arrastou-se ao longo da orla. Caminhava olhando para os pés e pensativo; ainda se esforçava por se lembrar de alguma coisa que a morte tivesse poupado até agora. Pela chuva oblíqua voltavam a deslizar as manchas claras; saltavam para o cocuruto das árvores e logo se apagavam na folhagem molhada. Damka encontrou um ouriço debaixo de uma moita e, para chamar a atenção do dono, pôs-se a ladrar e a uivar. – Vós lá tivestes algum eclipse? – gritou o pastor de trás dos arbustos. – Tivemos! – respondeu Meliton. – Pois. Por todo o lado o povo se queixa do eclipse. Portanto, meu amigo, no céu também há desordem! Não é por acaso... Oi, oi, oi! Ei, ei! Depois de ter afastado o gado para a orla do bosque, o pastor encostou-se a uma bétula, olhou para o céu, tirou, sem pressas, a flauta do peito e começou a tocar. Como antes, tocava maquinalmente, utilizando cinco ou seis notas e, como se fosse a primeira vez que tinha uma flauta nas mãos, os sons saíam-lhe indecisos, desordenados, sem formarem melodia, e Meliton, que pensava no fim do mundo, ouvia naquilo uma coisa muito triste e agoniante, e que não gostaria de ouvir. As notas mais altas e estridentes, entrecortadas e tremebundas, pareciam um choro inconsolável, como se a flauta estivesse doente e com medo, lembrando as notas mais baixas, sabe-se lá porquê, o nevoeiro, as árvores desanimadas, o céu cinzento. A música parecia condizer com o tempo e com o velho, e com o discurso do velho. Apeteceu a Meliton queixar-se. Aproximou-se do velho e, olhando-lhe para a cara triste e irónica, e para a flauta, murmurou: – A vida também se tornou pior, avô. É impossível viver. Más colheitas, pobreza... o gado morre muito, doenças... A pobreza oprime. A cara opada do feitor ficara rubra e com uma angustiada expressão de mulher. Mexeu os dedos, como que à procura de palavras que lhe exprimissem o pensamento indefinido, e continuou: – Oito filhos, mulher... a minha mãe ainda é viva, mas só ganho dez rublos por mês, com o comer à minha conta. A mulher ensandeceu de pobreza... e eu bebo como um doido. Sou um homem sério, sensato, mas ando por aí a vadiar todo o dia como um cão, com esta espingarda, porque já não posso mais: ganhei nojo à minha casa! Sentindo que a língua lhe fazia soltar coisas que não queria dizer, o feitor abanou a mão e disse com amargura: – Se o mundo tiver que acabar, que seja o mais depressa possível! Para que prolongar isto e martirizar a gente sem sentido... O velho afastou a flauta dos lábios e, piscando o olho, espreitou para dentro do tubo delgado. A cara dele estava triste e coberta de salpicos graúdos como lágrimas. Sorriu e disse: – Tenho pena, amigo! É que tenho mesmo pena, meu Deus! A terra, a floresta, o céu... as criaturas vivas... tudo isso foi criado e ajeitado como deve ser. E tudo se perde em vão. Mas de quem tenho mais pena é das pessoas. Na floresta começou a ouvir-se o barulho da chuva grossa a cair. Meliton olhou na direcção donde vinha o barulho, abotoou o casaco e disse: – Vou-me lá até à aldeia. Adeus, avô. Como te chamas? – Luká, o Pobre. – Então, adeus, Luká! Obrigado pela boa conversa. Damka, aqui! Despedindo-se do pastor, Meliton arrastou-se ao longo da orla da floresta, depois desceu pelo prado que se ia transformando paulatinamente em lameiro. Soluçava-lhe a água debaixo dos pés, e as espadanas, ainda verdes e sumarentas, inclinavam-se para a terra, como se tivessem medo de ser pisadas. Para lá do lameiro, na margem do Pestchanka de que falara o velho, havia salgueiros, e para lá deles, no nevoeiro, entrevia-se, azulada, a eira senhorial. Sentia-se a iminência daquela época desgraçada em que os campos se tornam escuros, a terra lamacenta e fria, em que o salgueiro-chorão parece ainda mais triste e deixa correr as lágrimas pelo tronco, em que apenas os grous conseguem fugir da infelicidade geral, e mesmo esses, como receando ofender a natureza amargurada com a ostentação da sua felicidade, enchem o espaço celeste de um canto triste e saudoso. Meliton, arrastando os pés na direcção do rio, ouvia como os sons da flauta esmoreciam a pouco e pouco atrás de si. Ainda tinha vontade de se queixar. Olhava à volta desanimado e começava a sentir uma pena insuportável do céu, da terra, do sol, da floresta e da sua Damka, e quando soou uma nota mais alta, voando pelo ar e tremendo como um choro de pessoa, Meliton sentiu uma amargura e um ressentimento ainda maiores pela desordem que se passava na natureza. A nota alta tremeu, findou de chofre, calou-se a flauta.
|