A entrevista

Eni Allgayer

Estacionar em Porto Alegre está cada dia pior. Enfim, uma vaga. Preciso pagar o parquímetro. Onde estão minhas moedas? Pronto, isso deve dar para uma hora. Não, é melhor colocar para duas horas, pode acontecer algum atraso, confabulo comigo mesmo, quando começa a chover.

Merda! Vou molhar o terno e o cabelo. Tinha que chover logo agora, tinha? O negócio é dar uma corrida até o prédio. Puxa, o edifício da empresa impressiona! Vamos ver se a organização está de acordo com a estrutura física. Pego o crachá, apresentando minha identidade ao porteiro. Faltava um minuto para a entrevista. Onde está o elevador? Ah é por ali. Ótimo! Esse emprego foi feito para mim, sou o homem talhado para isso, procuro me convencer.

Já no elevador aperto o botão do nono andar, quando uma linda mulher chega apressada. Coloco o pé estrategicamente na porta aguardando por ela.

— Nossa, que mulherão! — Murmuro, quando a loura entra afogueada.

As Mulheres voluptuosas despertam o troglodita que mora lá no fundo da minha psiquê. Ela está cheia de sacolas e pacotes e eu me ofereço para ajudá-la com os embrulhos. Ela consente e me entrega algumas caixas enfeitadas com fitas delicadas. Os embrulhos são leves, não vão quebrar e por isso, simulando um descuido os deixo cair. O truque não falha. Nos baixamos os dois, para pegá-los. Tocamos as mãos e num ímpeto a tomo nos braços, beijando-a com toda a paixão. Ela me empurra com delicadeza, junta os embrulhos e desce exatamente no nono andar, sem dizer uma única palavra.

Continuo no elevador, utilizando o mesmo truque para segurar a porta e mantê-lo parado, enquanto retiro o batom que manchou os meus lábios e os meus dentes. Feito isso, saio apressado. Estou em cima da hora. Faltam vinte segundos para a entrevista. Quero ser extremamente pontual, para não perder esta chance. A sala deve ser essa.

Uma jovem está ao telefone, deve ser a secretária, presumo. Fico alguns segundo ouvindo os detalhes do show que ela está organizando. O tempo vai estourar. Sou uma pessoa extremamente pontual e não vou perder essa oportunidade por causa de uma secretária negligente.

— Por favor, senhorita. — Interrompo a garota, mostrando o relógio. — Tenho hora marcada com o Diretor do RH.

Ela levanta os olhos e faz um sinal com a mão, mandando aguardar. Raios! Só me faltava essa, penso cada vez mais ansioso. E a ligação continua. Ela fala na cor das flores que escolheu, para combinar com os pratos do tal almoço. Não resisto e dou algumas pancadas com os nós dos dedos em seu balcão, mostrando o relógio novamente. Ela, numa demonstração de impaciência, tapa o bocal do telefone diz com a voz firme:

— O senhor pode sentar e esperar, por obséquio.

— Senhorita, estou sendo aguardado exatamente nesse minuto. Pode me anunciar, por favor. — Digo, entre dentes.

A garota não responde. Fala ainda algumas palavras, recoloca o fone no gancho e sai em direção ao gabinete, onde o tal diretor deve estar me aguardando. Limpo um pigarro, dou uma rápida ajeitada na gravata, respiro fundo e sigo atrás dela. Ela se vira e me pede para esperar e desaparece por trás da porta.

São onze horas, estou numa ante-sala com a roupa úmida, depois de ter sido humilhado por uma simples secretária. Ah, mas isso não vai ficar assim. O diretor vai saber dessa negligência. Estou começando a bufar. Devo me recompor, insisto comigo mesmo. Preciso desse emprego. Preciso, digo espichando as sílabas, como faço quando as coisas fogem do meu controle.

Finalmente a porta se abre e a loura do elevador me surpreende saindo da sala e me mandando entrar. Continua com as mãos ocupadas, agora com uma pilha de documentos.

— Com licença. — digo entrando no gabinete, antes do meu queixo cair de vez. Sentada atrás da mesa, a mulher que pensei ser a secretária, tira os óculos, sorri com ironia e me oferece uma cadeira. Minhas pernas começam a tremer e pela primeira vez na vida adulta tenho vontade de chorar.

ENI ALLGAYER é de Porto Alegre e autora de um livro de contos para jovens denominado "Carruagens de Fogo"
editado pela Ediplat.