Um dia de trabalho na tesouraria
(Um relato do nosso mais antigo membro-atualmente aposentado e vivendo em algum lugar do país)

Carlos Paraná

No dia seguinte ao evento que mudou dramaticamente o curso de todas as coisas (evento este que ninguém conseguiu especificar - abrindo o campo para diversas especulações: rumores de um inevitável desastre natural de proporções imensas, enquanto outros afirmam possuir evidências suficientes [nunca apresentadas] para comprovar ter sido um bombardeio, alguns apontam para uma epidemia incontrolável e ainda mais um [o último e mais absurdo] denuncia uma inexplicável onda de suicídios em massa), fui contratado pela corporação Gondii para exercer um cargo que exigia indivíduos que possuíssem os mais altos níveis de responsabilidade. Eu seria tesoureiro, o único a possuir total acesso a tesouraria da corporação, localizada estrategicamente nos subúrbios da cidade, numa construção de aspecto decadente e arruinado, um lugar que todos julgavam estar abandonado. Nos primeiros minutos do exercício do meu cargo, percebi o quão importante seria meu desempenho para o progresso da corporação como um todo. Aqui está uma tentativa, a despeito das minhas limitações (pois a minha especialidade é restrita a números e não as variáveis e traiçoeiras palavras) de ilustrar um dia normal de trabalho na tesouraria.

O assistente que recebo é substituído diariamente, pois a tesouraria contém a seiva que mantém o sistema em funcionamento, mas a razão principal para a substituição é o alto risco de manter um assistente por um longo período de tempo, absorvendo informação vital que em mãos inaptas (ou incorretas) poderia implodir a corporação Gondii em questão de horas. O assistente chega diariamente às oito horas, uma hora após a minha chegada, tempo suficiente para ajustar o local e criar um ambiente favorável, que cause o menor desconforto e a atmosfera de trabalho mais adequada. Após um aperto de mão (incondicionalmente com a mão esquerda), e a confirmação da identidade do assistente, nos dirigimos para a parte mais alta do complexo, utilizando uma escadaria espiral metálica que apesar da sua excelente condição, range constantemente. Ela foi desenvolvida com esta característica a fim de atender aos aspectos da construção, que possui forma cilíndrica. Se o assistente demonstra qualquer sinal de desgaste durante a subida, eu prontamente o acalmo, dando-lhe o velho, mas útil, conselho de não olhar para baixo (é uma visão e tanto observar o fosso que vai sendo construído a medida em que avançamos). Após terminarmos este estágio, alcançamos uma espécie de sala circular, cercada de portas, cada uma delas indicada por um número específico. São estas portas que garantem acesso a tesouraria, mas, para isso, elas precisam ser abertas de acordo com uma seqüência específica - 7,17,27,37,47, por exemplo - seqüência esta alterada diariamente. Um erro poderia causar um evento tão desastroso quanto aquele que mencionei há pouco. Após as portas serem derrubadas (sim - elas desabam, fazendo um estrondo insuportável ao serem abertas corretamente), subimos uma pequena escada de madeira e finalmente chegamos ao local. Eu sempre reservo estes momentos para observar a reação do assistente ao chegar ao destino pela primeira vez. Este é o lugar, eu respondo-lhes numa voz artificial e ainda convincente. Eu estou acostumado ao velho, gasto e empoeirado piso de madeira, as paredes sujas e ao quase invisível teto (que lhes faz imaginar que ainda estamos longe do topo da construção) e o cofre, localizado no centro da sala, com a sua porta disposta em direção à janela. Nós nos aproximamos lentamente e ele jamais falha em perceber a nossa chegada. Nós o saudamos também e como sempre ocorre, ele jamais nos responde. Nenhum problema, eu repito algumas vezes enquanto retiro a chave da minha maleta, um movimento acompanhado por dois olhos que não são os meus e tampouco os do assistente. A chave brilha, refletindo a luz do Sol, enquanto eu coloco-a nas mãos do assistente ao chegarmos perto da porta do cofre. Use-a, eu comando o (sempre) indeciso assistente que faz sempre a mesma pergunta: Usá-la onde?Meu braço estendido indica o lugar, de uma maneira que não pode ser incompreendida. Nenhuma palavra de qualquer um dos lados. Mesmo assim ele hesita e eu invariavelmente tenho de demonstrá-lo o quão simples é destrancar o cofre, como o mais simples movimento proporciona os melhores resultados, um ou dois movimentos da lâmina revelam o numerário do dia útil anterior, que o assistente deve contabilizar. Na realidade, o cofre guarda diversas caixas pretas, pequenas e pesadas, que contém o numerário. Elas estão equipadas com um teclado numérico onde um código deve ser digitado para que elas sejam abertas e então revelá-lo.

No entanto, eu nunca lhes digo o código a ser digitado, que é exatamente o mesmo utilizado nas portas; eu jamais lhes dou tal conselho, o que facilitaria demais o seu dia de trabalho. Eu retiro-me para uma sala ao lado e espero que eles descubram por si mesmos, o que acontece cedo ou tarde no decorrer do dia. Às vezes eles se excedem e arremessam as caixas na parede ao invés de se concentrarem, o que seria o mais sensato e o melhor a fazer, pois aquele será o seu local de trabalho durante as próximas vinte e quatro horas e, enquanto as normas não forem alteradas, será também por outras vinte e quatro, quando ele ocupará uma função mais específica, menos exaustiva e muito mais importante; substituindo aquele que ele explora minuciosamente.