Um coronel ensinando

Marcelino Rodriguez

O marinheiro aposentado dava ao enteado com autoridade lições de como matar baratas e ratazanas, explicando detalhadamente o remédio que inventara e as vendas que fizera. Sempre com o brilho no olhar de felicidade que nem a bengala provocada pelo derrame lhe tirara. Ele jamais admitiria qualquer
tipo de derrota, nem morto.

- O principal da mistura é o acido bórico. Pode-se também por um pouco de cerveja que atrai as baratas pelo cheiro. Cebola e queijo ralado. Não fica um. No restaurante da praça não ficou um rato, mínimo que fosse. Quando eu ia lá o Português me servia ate bacalhau com chopinho.

- O senhor que inventou? _ perguntava o jovem melancólico, imaginando com inveja como ele poderia estar feliz com atividade tão estranha, e sentindo-se pobre e inadequado de não saber como tirar daquilo uma razão
metafísica.

- Eu tinha metade do macete, o resto eu criei. Mas não dou a formula a ninguém. Rato e ratazana não é a mesma coisa; as ratazanas podem até subir pelas janelas, certo? os ratos não, se escondem.

O jovem pensava como pode alguém enveredar a mente por um negocio daqueles, embora admitisse que ratos e baratas de fato deviam ser mortos; sequer entendia porque Deus os criara; assim como as cobras, sapos e outros bichos repugnantes. Achava a vida sórdida a maior parte das vezes.

O velho coronel parecia ficar gigantesco ao narrar sua habilidade para produzir veneno e vendê-lo sem nenhuma vergonha. A própria bengala que ele usava lhe parecia sublime, uma arma a mais no porte do padrasto, contando essas coisas num dia de Domingo.

Pensava se aquele surto de arrogância e felicidade era um blefe do coronel.

Se só ele carregava aquela insatisfação espiritual básica com a existência.

Sentia vontade de ser outro, ou de não ser. E ficou pensando, ao deixar a presença do velho, se alguém ao vê-lo caminhar admiraria nele o que quer que fosse e também sofreria algum tipo de impacto como aquele que o coronel lhe fizera sentir no Domingo nublado.

"Ninguém vive no mesmo mundo" - pensou, enquanto ligava o aparelho de televisão, talvez para esquecer o quanto sempre seria fraco diante do velho que o criara.


MARCELINO RODRIGUEZ, escritor, autor de "O Observador de Pardais" 1996, "O Espião de Jesus Cristo" 1999, "Juvenília" 2000, "Café Brasil" 2001, "A Ilha" 2001, "Boneco de Deus" 2002, "Mar, Romântico Mar" 2002, prêmio Pérgula Literária Internacional e Ação Cultural.