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Tiago
Adelina Velho da Palma
Antes de mais nada, achava-te belo. Admirava a tua figura de
estátua de deus grego, que um fortuito raio cósmico houvesse
dotado do sopro vital. Quando os teus olhos de pupilas azuladas,
de caleidoscópio, caíam sobre os meus, ficava sem fôlego. Nunca
vira nada tão bonito. Claro que eu era tola e insegura.
Demasiado magra, desengonçada, com uma dessas caras banais para
as quais não se olha duas vezes, nunca, nem nos meus sonhos mais
loucos, imaginaria que um dia pudesses vir a interessar-te por
mim. Contudo, sabia-me inteligente e merecedora de afecto. Mas,
serviriam tais predicados para atrair o parceiro idealizado?
Não obstante, assim veio a acontecer. Durante aquele jantar
(lembras-te?) o acaso colocou-te ao meu lado. Começamos a
conversar e o fio condutor foi fácil, fluido. Mas houve algo
mais. Como a manifestação de uma predestinada afinidade,
qualquer coisa indefinível nos tocara, bem fundo.
Chamavas-te Tiago. Tiago. O nome assentava-te como uma luva.
Como Iago, Iacobus ou Jacob, aquele que vence, que dá segurança
e em quem se pode confiar.
O que se seguiu não foi uma paixão súbita, repentina, mas um
amor lenta e solidamente construído. Ambos gostávamos daquilo
que íamos apreendendo sobre o outro. E ambos sabíamos, de
relações anteriores, que a paixão tem uma estranha forma de se
evaporar, deixando um sabor amargo na boca dos seus
protagonistas. Por isso, nenhum de nós se iria envolver com
alguém que não soubesse digno de tal.
Mas, no que me dizia respeito, não havia esse perigo. À medida
que te ia conhecendo, descobria o mais digno dos seres humanos.
A ponto de, por vezes, chegar a considerar-te bom demais para
mim. Eras de uma isenção sem limites, de uma integridade total,
incapaz de pactuar com qualquer coisa que fosse contra os teus
princípios. Qualidades que eu não tinha a certeza de possuir.
Por outro lado, não te furtavas ao combate ideológico.
Inteligente, às vezes brilhante, defendias os teus pontos de
vista até à exaustão, sem contudo perder a sensatez. De opiniões
muito próprias, encarnavas o lutador nato, feito da mesma massa
dos grandes homens, incorruptíveis, que deixam rasto na
História.
Evidentemente, tinhas defeitos. Eras rígido e intransigente,
pouco dado a desculpar as fraquezas alheias. A não ser às
pessoas do teu sangue, o que era compreensível. O teu sentido de
humor, apuradíssimo, era, por vezes, demasiado cáustico.
Aceitavas uma derrota com parcimónia mas, se vitorioso, fosse
qual fosse o objecto da contenda, não te coibias de humilhar o
adversário. Sabias perder, mas não sabias ganhar. Por outro
lado, eras vaidoso. Não propriamente da tua figura de Adónis,
mas da tua maneira de estar na vida e do teu intelecto
privilegiado. E não disfarçavas o desprezo a que votavas aqueles
que consideravas estúpidos ou pervertidos.
Não eras interesseiro. Pelo contrário. Nunca conheci ninguém tão
desprendido em relação ao dinheiro. O que eu, uma vez mais, não
era. Nenhum de nós era rico mas, enquanto tu tinhas rasgos de
generosidade, eu aforrava todos os cêntimos. Se um amigo
estivesse aflito, não hesitarias em despir a própria camisa para
o ajudar. No entanto, não eras gastador. Para viver, pouco te
bastava.
Tinhas uma particularidade curiosa. Detestavas surpresas.
Qualquer notícia inesperada, mesmo que boa, provocava-te uma
instantânea reacção negativa. Hipersensível, precisavas de tempo
para amortecer cada dado novo. Ninguém te convidasse para um
jantar de última hora, pois escusar-te-ias. Tudo na tua vida
tinha de ser planeado com antecedência. Porém, ao invés de
enfraquecer a tua imagem, estas tuas facetas eram de molde a
tornarem-te ainda mais sólido, mais digno de confiança, aos meus
olhos.
O nosso casamento processou-se em total conformidade com a tua
maneira de ser, idealizado, pensado e programado em pormenor com
vários meses de distância.
Escusado será dizer que me fizeste felicíssima. Aliás, melhor
dizendo, (penso poder falar por ti nesta matéria). fizemo-nos
felicíssimos um ao outro. Eu amava-te como não pensava ser
possível amar alguém. Até adorava o chão que tu pisavas. E
acreditava estar casada com o melhor homem do mundo.
Tiago. Sentia-me orgulhosa quando passeava contigo ao lado e
percebia os olhares que as outras mulheres te lançavam. As
minhas amigas invejavam-me. E elas não podiam saber que, na
intimidade, eras carinhoso e apaixonado como nenhum outro. Os
teus olhos azuis, de que eu tanto gostava, eram testemunhas do
imenso amor que batia no teu peito. E era eu o objecto desse
amor.
Tiago. Tão forte e perene como uma rochedo. Quaisquer que fossem
as dificuldades e vicissitudes que atravessássemos, seriam
sempre resolúveis, pois tu eras meu marido. Habituada desde
sempre a contar só comigo, tinha agora um companheiro cuja
inteligência e bom senso superariam todo e qualquer obstáculo
que se nos deparasse no caminho.
Claro que o casamento é uma dura prova para o amor. Até aí, a
relação amorosa alimenta-se exclusivamente de aspectos
gratificantes. Tudo é esperança e enlevo. Mas a vida é dura.
Lentamente, o cansaço vai-se insinuando no espírito dos
cônjuges. Começam a conhecer-se demasiado bem. Cada um dá e
espera receber algo em troca. O egoísmo instala-se. A magia
desaparece. E o que resta é o cesto da roupa suja, as contas por
pagar e o domingo desportivo.
Mas eu acreditava que nós os dois (agora vejo a presunção de que
estava imbuída) seríamos diferentes. A inteligência tinha de
servir para alguma coisa. E as histórias alheias, díspares nos
pormenores mas coincidentes no âmago, seriam o paradigma a
evitar. Com raciocínio e empenho, qualquer crise seria debelada
aos primeiros sintomas.
Todavia, o destino trocar-me-ia as voltas. Nada viria a ser
consonante com o que eu previra ou temera. Passar-se-ia tudo
como por mero acaso. Agora percebo como foi estranho que um
encadeamento de acontecimentos fortuitos tivesse tido
consequências tão drásticas na nossa vida. Bastaria ter falhado
um dos elos da cadeia, para as coisas terem terminado doutra
maneira? Ou o fado encarregar-se-ia de nos impelir por um atalho
alternativo, conducente ao mesmo resultado final?
Navegava eu num dia a dia sem nuvens no horizonte, à excepção do
vago receio (quando se ama, quem não o tem?) de que viesses a
deixar de me amar. Apesar de saber que nunca me serias infiel
(isso era contra os teus princípios) não podia escamotear o
facto daquela possibilidade existir. Afinal, todo o sentimento,
mesmo o assente em afinidade e reconhecimento, está sujeito à
condição de inconstância da própria vida. Mas não perdia um
minuto de sono a pensar nisso. No presente, sabia-te tanto meu
como eu tua.
Com o primeiro dinheiro que conseguimos juntar, propus-te irmos
a Paris. Eu nunca havia viajado. E tinha o velho sonho de subir
ao cimo da Torre Eiffel, observar os pintores na Place du Tetre,
ajoelhar-me e rezar na catedral de Notre Dame. Apesar de já
conheceres a cidade, fizeste-me a vontade. E lá embarcámos os
dois num charter em classe turística, aproveitando uma tarifa
especial de fim-de-semana prolongado.
Foram dias maravilhosos. De sapatos de ténis e mochilas às
costas, calcorreámos os grandes boulevards, apreciámos os
monumentos, visitámos os museus. As nossas pausas resumiam-se ao
estritamente necessário para repor as calorias. O tempo era
pouco para o muito que havia para ver.
Andávamos quilómetros. Só parávamos à noite quando nos
recolhíamos ao nosso quarto num hotel de duas estrelas no
Quartier Latin. Na véspera do nosso regresso, aguentei duas
horas na fila para entrar na Catedral e poder recolher-me ao pé
da estátua da donzela de Orléans. Acendi uma vela e fiquei por
uns minutos a observar a chama a tremeluzir. O meu coração
estava cheio de gratidão para com Deus, o Deus que me
proporcionara o amor de um homem bom e digno de confiança. E os
meus olhos encheram-se de lágrimas de comoção.
Saímos para a rua e dirigimo-nos para o nosso hotel, metendo por
umas ruas estreitas. Eu ia nas nuvens. Tu seguias à minha
frente. Poucos transeuntes se cruzavam connosco e não havia
trânsito automóvel. De repente, senti uma estranha impressão nas
minhas costas. Um rapaz que caminhava atrás de mim atravessou a
rua e parou no passeio do outro lado. Atacada por um súbito
pressentimento, joguei a mão à minha mochila. O fecho da bolsa
exterior estava aberto e a minha carteira havia desaparecido.
Acabara de ser roubada! Gritei imediatamente:
- Tiago! – tu paraste e voltaste-te para mim. Eu repeti:
- Tiago, fui roubada! – continuaste sem reagir. Eu insisti:
- Fui roubada! E foi agora mesmo! Levaram-me a carteira!...
Permaneceste parado e mudo. Olhei em volta num relance e vi o
rapaz do outro lado do passeio com um mapa na mão. Parecia
observá-lo atentamente. E percebi que só podia ter sido ele o
autor do furto. Apontei-o sem pejo e gritei novamente:
- Foi aquele ali! Não pode ter sido mais ninguém!...
Continuaste sem reacção. Os teus olhos encontraram os meus e
afastaram-se. O meu coração disparou. Perder a carteira
significava ficar sem identificação, sem documentos... Não! Eu
não podia conformar-me com uma situação dessas sem dar luta! Num
impulso, atravessei a rua e arranquei o mapa das mãos do rapaz.
A minha carteira caiu ao chão. Estivera oculta nas dobras do
mapa. Olhei o ladrão furiosa e, sem saber se ele perceberia o
meu francês medíocre, invectivei-o:
- Bandit! Voleur!...
O rapaz desatou a correr. As minhas pernas tremiam. Não tentei
persegui-lo. Tu também não. Entretanto, alguns passantes
haviam-se apercebido do essencial da cena, e solidarizavam-se
comigo:
- Vous avez eu de la chance! Il faut faire très attention!
Finalmente pareceste acordar. Aproximaste-te de mim e passaste o
braço pelos meus ombros, num tardio gesto protector:
- Não podes levar a carteira na mochila. Vês? Podes ser
roubada...
Não te respondi. O episódio, que no total não durara mais do que
quinze segundos, havia-me deixado arrasada.
No dia seguinte, regressámos. E, durante o voo, recordei o que
se havia passado na véspera. Não podia deixar de me sentir ufana
da minha actuação:
- Não foi mesmo óptimo eu ontem ter conseguido reaver a
carteira? Já imaginaste o que seria ficar sem ela no
estrangeiro?...
- Chega! Não fales mais sobre isso! Vamos esquecer esse assunto.
Sobretudo, não o contes a ninguém.
Estranhei a tua reacção. E, pela primeira vez, raciocinei sobre
a maneira como te havias comportado (até aí, a alegria por ter
impedido o roubo, monopolizara os meus pensamentos sobre o
assunto). E fiquei enregelada. Tu tinhas tido medo. Quando te
apontara o presumível ladrão fingiras-te desentendido mas, na
realidade, havias-te acobardado. Por detrás da tua aparente
estupefacção, houvera simplesmente fraqueza. Por isso, tinhas
afastado os teus olhos dos meus. Sabias que eu lia neles como
num livro aberto. E tinhas perfeita consciência do papel
deplorável que havias desempenhado.
Foi como se um raio me atingisse. Olhei para as tuas pupilas
azuladas e percebi que a segurança que me inspiravam havia
desaparecido. Eras um estranho para mim. E não se pode confiar
num estranho.
É lícito que te espantes com o acaso que jogou em tudo isto. Eu
também me espanto. Parece até que o destino estava contra nós.
Foi preciso irmos a Paris, enveredarmos por uma viela pouco
movimentada e cruzarmo-nos com um ladrão inexperiente (caso
contrário eu não o teria identificado), para pôr verdadeiramente
à prova o nosso amor. Se não tivéssemos ido a Paris, se não
tivéssemos enveredado por uma viela pouco movimentada...
Todavia, tinha acontecido. E agora, eu não podia esquecer uma só
décima de segundo do episódio fatídico.
Quando aterrámos eu já tinha decidido deixar-te. Não havia a
mais leve possibilidade de continuar a viver contigo. Agora, não
podia tolerar que me tocasses.
Sei que te magoei para além do suportável e peço-te que me
perdoes. Mas não podia fazer outra coisa. O nosso casamento era
baseado no respeito e no reconhecimento mútuo, lembras-te?
Mas, Tiago, consola-te, como eu me consolo. O amor é mortal. E
pode morrer de duas maneiras. De morte morrida e de morte
matada, como dizem os brasileiros. Ao nosso foi poupado o
suplício de uma agonia lenta, feita de um dia-a-dia de
questiúnculas e desilusões. Foi preferível assim, um final
glorioso, fulminado por um olhar teu, numa obscura viela do
Quartier Latin.
Maria ADELINA Nunes da Fonseca VELHO DA PALMA
nasceu em Lisboa e é do signo Aquário. É licenciada em
Matemática pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa
onde foi assistente de Análise Matemática, após o que iniciou
uma carreira dedicada à Informática. Na actualidade, desempenha
funções numa grande empresa de telecomunicações. Começou a
actividade literária há cerca de dois anos, escrevendo prosa e
poesia. “Areias Movediças e outras histórias de inquietação” é a
sua primeira obra publicada.
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