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Rinaldo de Fernandes
e os múltiplos caminhos do conto
Nilto Maciel
O primeiro livro de contos de Rinaldo de Fernandes, O Caçador,
é de 1997. Compõe-se de peças de variados tamanhos e feitios.
Algumas não chegam a dez linhas. São tão sintéticas que mais
parecem flashes ou desenhos simples (“Folha seca”), embora não
se confundam com rascunhos. Pois há nelas os ingredientes
básicos do chamado conto tradicional: personagens, enredo,
desfecho, etc. Aliás, remates saborosos, porque inesperados. A
matéria-prima dos dramas narrados é quase sempre a solidão. A
narradora de “Carpinteira” aperta bem a torneira da pia que
teima em pingar, olha-se “no grande espelho”, enquanto o filho
dorme e o marido não vem. Rumina o dia da libertação, constrói
“um barco com as tranças nuas de cebola”, para nele fugir sobre
as águas que estouram da biqueira. Solidão e desespero, como se
vê também no pai cujo filho morreu (“A Roda-Gigante”). Ou em “A
Viúva”, cuja protagonista vive “na lenta tarde” e molha com
choro “a camisa da saudade”.
Alguns dos personagens de Rinaldo são jovens estudantes urbanos
em permanente conflito existencial, sexual, social e político.
Os protagonistas estão quase sempre perdidos em si mesmos,
solitários, embora às vezes acompanhados de amigo ou amiga. Em
“Procurando o carnaval” nada de importante acontece durante a
narração. Ou nada de importante é narrado. O leitor perguntará:
onde está, então, o enredo? Pois o enredo é justamente isto: um
jovem viaja num ônibus em busca do carnaval numa pequena cidade
da orla marítima e nenhuma diversão encontra. Vaga por ruas e
praias, até compreender que naquele lugar não haverá carnaval. O
narrador onisciente poucas vezes dá voz ao personagem, mas
segue-lhe os passos e pensamentos, como se sua sombra fosse.
O carnaval reaparece como pano de fundo no pungente “Bloco &
solidão”. O narrador também busca diversão em Olinda. Mas busca,
sobretudo, se livrar da solidão e da morte: “Fiquei triste,
porque eu achava que as pessoas viam que eu tinha o vírus”.
Solidão, droga e sexo são substâncias essenciais de outras
composições do livro de Rinaldo. Como em “O besouro”, onde o
narrador “vê” uma festa no campus. Na ação seguinte (principal),
aproxima-se de um umbuzeiro e, com mais três estudantes, passa a
se drogar, até sentir as primeiras sensações alucinógenas.
Delírio se vê também em “Suspeitas”. Não mais o campus, mas um
acampamento de jovens. O narrador ouve “um som do Pink Floyd” e
passa a se imaginar “numa praia distante”. Até perceber a
aproximação ameaçadora das “palmeiras com finas espadas nas
palhas”. Em “A tragédia prima de Sílvia Andrade”, um dos mais
longos do volume, os personagens são também jovens estudantes às
voltas com drogas. Olinda reaparece, embora de relance, no
volátil “Chuva e fogo”. Jovens de esquerda estão em “A carta”.
Há, ainda, na obra de Rinaldo de Fernandes o chamado conto de
denúncia social e, em menor escala, o conto enigmático ou
parabólico. Entre aqueles situam-se “Negro”, também de feição
kafkiana; “Um homem, na janela, de óculos escuros”, onde o real
social se mistura ao irreal e ao enigmático; “Vozes de maio”,
dedicado ao Grupo Tortura Nunca Mais; “Mulheres fugitivas”;
“Tempo de fezes”, composto à maneira dos contos de fadas e como
parábola; e “Pulseiras coloridas”. Os personagens são tipos
urbanos. Entretanto, o leitor é seduzido muito mais pelos dramas
narrados do que propriamente pelos seres fictícios.
Hábil forjador de variadas técnicas de elaboração do conto,
Rinaldo se sobrepuja quando parte da aparente lógica dos fatos
para chegar ao sombrio mundo do enigma. Em “O estampido” há uma
série de pequenos atos, como nos sonhos, com cenas rápidas,
narradas pelo protagonista. A visão de uma mulher numa janela
atrai o narrador. O surgimento, de inopino, de um delegado, num
carro, num ir e vir maluco, à procura de um agente, dá ao conto
um ar de mistério. É como se os personagens, os visíveis e os
invisíveis, representassem entidades não identificadas. E ocorre
um fenômeno que se repetirá em mais de uma narrativa: um
personagem toma o lugar de outro. Trocam de lugar ou se
substituem. Assim, um homem, na rua, vê uma mulher na janela de
um primeiro andar. Seduzido, decide ir ao encontro dela, mas, ao
entrar na casa, não a vê. Da janela observa a mulher no bar onde
ele estivera. Ou seja, ele se torna o ser visto, enquanto ela se
faz o ser que vê. Em “Os gafanhotos” o real vai aos poucos
cedendo lugar ao irreal. O narrador gosta de pintura, passa
férias em Miami, tem mulher e secretária, mora numa cobertura à
beira da praia. Ou seja, um pequeno burguês urbano, como outros
milhares. Súbito dá-se o inusitado: “De repente veio o vômito.
Os coqueiros da orla começaram a largar as palhas em grandes
golfadas”. Instaura-se o enigma ou o fantástico: as palhas são
enormes gafanhotos. Em “Antes que acabe” verifica-se mais uma
vez o fenômeno da troca de lugar. Dalva e Carlos conversam em
casa. Ele se banha, ela lê anúncio de jornal. Terceiro
personagem surge na praça diante da casa. A seguir, outra mulher
aparece na rua e vai ao encontro do homem. No entanto, este
homem é Carlos. Logo, o personagem do banheiro não é Carlos. Em
“Um homem, na janela, de óculos escuros” (observe-se a presença
de janela mais uma vez) repete-se o fenômeno de um personagem
trocar de lugar com outro. Menino cata lixo, em aterro, com a
mãe. Do alto de edifício, homem observa a cena e chama com o
indicador o garoto, que se retira e sobe ao apartamento. Nesse
momento se dá a troca de posições dos personagens: o homem desce
e vai se sentar numa pedra no meio do aterro. Minutos depois o
menino chamará o homem, que voltará ao escritório. O desfecho é
uma pintura, um poema: “E os urubus, que, revoando sobre o
menino, num lerdo balé, agora bicam o salame do crepúsculo”.
Outra peça enigmática é “O livro verde”, relato de narrador não
identificado. O mesmo se há de dizer de “O chapéu”. O conto que
dá título ao volume pode ser visto como uma alegoria, a lembrar
ora Murilo Rubião, ora Julio Cortázar. Para explicar esse tipo
de narrativa há um conto que se mostra como um metaconto:
“Conversando sobre a arte do conto (ou a obsessão pela goiaba)”.
Um contista conversa com alguém de nome Ricardo, que está mais
preocupado em comer goiabas do que em ouvir leitura de contos.
Entre um diálogo e outro são inseridas quatro composições
curtas, tendo título apenas a primeira. O contista se diz
incompreendido; as pessoas chamam de herméticos os seus contos.
Lido o primeiro, o interlocutor diz não ter entendido nada. O
escritor assegura tratar-se de uma “alegoria do imperialismo”.
Após a leitura do segundo, Ricardo afirma: “não entendi de
novo”. O outro então pergunta: “Você já leu alguma coisa do
Julio Cortázar?” E passa a explicar o que é o fantástico do
escritor argentino.
Rinaldo de Fernandes foge do fácil, do óbvio, do tradicional,
embora não se aventure em experiências formais. Não se contenta
com a história bem contada, de começo, meio e fim, enredo
linear. E utiliza ingredientes inovadores há algum tempo
praticados, como recorte de jornal fictício; frases curtas e
entrelaçadas, como em “Viagem (ainda um conto beat)”; frases
recortadas, como se fosse um poema (“A orgia vermelha do
poeta”); multiplicação de vocábulo solto na página, à maneira do
poema concreto; inserção de poemas de autoria de personagem e de
letra de música fictícia; contos dentro de um conto, etc.
A linguagem de Rinaldo de Fernandes não se prende ao coloquial
nem ao artificial ou ao erudito. Vocábulos ditos populares
aparecem naturalmente nas frases: “alcançar um jornal”. São
muitas as frases de efeito ou que evitam descrições inúteis:
“despenquei no coração persa da sala”; “espionava estrelas por
trás da cortina”. Às vezes lembra Graciliano Ramos, não na
linguagem, mas na apresentação de personagens complexos,
doentios. Em resumo, Rinaldo de Fernandes, com O Caçador,
caminha felinamente, sorrateiramente pelos “múltiplos caminhos
do conto”, para usar a expressão de Amador Ribeiro Neto, na
apresentação do livro.
Fortaleza, julho de 2005.
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