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Quatro contos
Pablo Morenno
Arames e garrafas
Estes arames que estou juntando são para costurar a boca. São
todos de aço inoxidável. Inoxidáveis hão de resistir à corrosão
da travessia.
E as garrafas? Não tenhas pressa em saber. Já te explico.
Muitos já tomaram a canoa. Eu mesmo os vi. Lembro-me dos
primeiros remadores: aqueles vizinhos da casa incendiada, dentro
da noite de temporal. Há pouco, meus pais. Minha mãe tomou a
canoa em uma manhã. Quando nos sentamos à mesa para o café, cadê
ela? Corremos ao rio e vimos apenas uma mancha de flores na
névoa; era seu vestido. Papai foi logo depois, em uma tarde. O
vento zunia. O sol poderia fritar um ovo sobre o zinco do
galpão. Nos disse “vou ali ver a vaca que teve terneiro, não
demoro”. Mas demorou-se. Como não chegasse, fomos procurá-lo no
campo. Não estava. Tampouco estava no bananal. De longe, vi seus
chinelos e o chapéu entre as pedras da margem. Chegamos tarde
demais. Nem sequer vimos sumir-se entre a névoa, como aconteceu
com mamãe.
De tempos em tempos, vai um amigo ou conhecido aqui do povoado.
Quase sempre é uma criança o arauto da notícia: “Seu Ênio tomou
os remos”, “Dona Eva sumiu na névoa”; inocentes, fazem rimas
sobre as desgraças. Todos os remadores agem como aqueles bois
ingratos que chifram a gente depois de todo o pasto que lhe
demos. Partem sem considerar o nosso amor por eles. Perdem a
lealdade de uma hora para a outra. Não avisam ninguém. Parece
que se despem de toda consideração para com os que ficam.
Parecem crianças arteiras: basta um pequeno desvio do olhar, já
estão remando longe. Tomam a canoa mesmo aqueles que diziam “eu
jamais tocarei um remo”. Não importa a condição do rio ou do
tempo. Não importa se está pra chuva ou haja vento. Chega uma
hora em que a sedução da canoa torna-se fatal: saltam aos remos
como sonâmbulos e vão desaparecendo entre a névoa. Remam
compulsivos e desesperados como se a vida dependesse do remar.
Quero organizar-me para não agir como os outros. Eis aqui as
precauções que tomo. Estes arames inoxidáveis são para costurar
a boca. Nas garrafas guardo dizeres e explicações.
Estou cansado de combinar: quando estiverem do outro lado gritem
para que eu saiba o que existe; ou escrevam uma carta.
Mas todos os que combinaram comigo na água escreveram suas
promessas. Na água, a própria esteira do barco apagou na
partida. Não gritaram nada, nem escreveram algo. Desconfio que
do outro lado há uma criatura horrenda que se alimenta de
palavras. Essa deve ser a razão para tanto silêncio. Estou mais
que desconfiado. Estou quase seguro. Melhor tomar as
providências o mais cedo possível. Entendes agora os arames
inoxidáveis e os frascos?
Vida de Ala
Naquele tempo, não havia mais colibris. Nem mesmo pardais havia.
Nem mesmo piolhos de pardais. Ala tinha um par de asas na boca.
Bastava que falasse e se ouvia um rufar de plumas e gorjeios.
Correu o boato. Ala era devoradora de pássaros. Cortaram-lhe a
língua. Costuraram-lhe a boca. Abriram seu ventre sob finas
redes circundantes. Esperaram dias, semanas. Imitavam cantares
de pássaros para atraí-los. Nada. Exaustos, decidiram
dissecá-la. Nas entranhas ciscos e cascas. Restos de ninhos. Um
ovo sendo bicado.
Acaricio a pele de vidro
Saiu do espelho. Patas, focinho e dentes se aproximaram como um
filho a quem dirigimos olhar de ternura. Era um animal horrendo.
Meio leão, meio lobo, meio onça. Como a mulher de Lot tornei-me
uma estátua de sal, embora eu fosse um homem e o olhasse de
frente. Pelo sal um suor de outro sal corroia a pele, os
músculos e ossos. Tive medo, pavor, angústia; um amontoado de
coisas que não cabem nas palavras. Tremendo acariciei-lhe o
pêlo. Acalmou-se. Lambeu minhas mãos e olhou-me dentro. Suas
pupilas ultrapassaram as minhas como duas balas disparadas de
uma arma com cano duplo.
Do espelho – curioso! - nunca tive desconfiança. Todos os dias
faço a barba. Todos os dias quantifico as rugas na pele. Arranco
um cabelo cinza. Corto os pelos do nariz e das orelhas. Observo
minhas restaurações de resina e amálgama. Jamais imaginei
morassem no espelho animais daquele porte. Um terrível remorso
postou-se na minha boca. Imagine fosse meu filho ou minha
mulher! Seriam estraçalhados por garras e dentes. Nunca
imaginei, nem em pesadelo. Inúteis serão as trancas nas portas,
alarme, cercas elétricas. Se o espelho abriga bichos, devíamos
mesmo é começar a vasculhar os recônditos da casa. E se
açucareiro escondesse abelhas africanas? E se uma baleia
assassina nos rondasse no aquário da sala?
Ele foi se acalmando, como disse. O ódio de seus olhos fazia-se
doçura, mãe amamentando, uma réstia na janela, coisa de beleza
que não acha metáforas. Um campo de papoulas, um mar no
amanhecer, uma revoada de pássaros. O ódio transformado poderia
ser qualquer coisa capaz de estancar a respiração da gente por
seu encantamento.
Graças ao carinho, a fera serenou-se. Não mais parecia meio
leão, meio lobo, meio onça. Seu pêlo deixou de ser pêlo para ser
pluma. Foi transformando-se em meio pombo, meio beija-flor, meio
joão-de-barro. A metamorfose me distraiu com seu ritual de
feitiço, e nesta distração ele saltou olhos adentro. Escureceu.
Estou cego para sempre, pensei. Mas, aos poucos a luz começou a
visitar-me no canto dos olhos. Dentro de mim um som de revoada,
um canto calmo, uma construção de casa, um remanso. Passei a
enxergar melhor do que antes. Até dispensei os óculos.
Temo por meus filhos. Temo por minha mulher. Oxalá, se outro
monstro fugir do espelho, que eu esteja por perto. E se eu não
estiver? Para evitar a tragédia, todos os dias quando faço a
barba, quando corto os pelos do nariz e olho os dentes, quando
faço qualquer coisa ante o espelho, eu acaricio a pele do vidro
com toda a ternura que encontro. Se a ternura é pouca, me
espremo bem para que não falte. Deste modo, se um dia um animal
saltar do espelho, já estará feito meio pombo, meio beija-flor,
meio joão-de-barro.
Só não entendo o porquê das algemas. Sou um homem inocente. Por
favor, preciso permanecer em casa protegendo a família.
Entre um ínfimo pó de reflexos
Tarcísio não sabia de Kafka, mas acordou como um ser esquisito.
O estranho em Tarcísio, neste caso, era sua obsessão em
transformar as coisas para que fossem idênticas às idéias.
Idéias sempre são perfeitas, as coisas quase nunca. Foi até a
cozinha, escolheu a faca mais afiada e pôs-se a podar as
orelhas, as unhas e o rabo do gato. Por não suportar miados,
trocou a garganta do Basileu por uma de passarinho. Era assim
sua idéia de gato. Um gato que cantasse como pássaro Deus não
fez. Ele o fizera.
Foi modificando todos os animais da casa, todas as coisas da
casa, todas as pessoas da casa.
Nada merecia existência se não fosse por similitude aos
habitantes de sua imaginação. No “nada” incluiu seus filhos, a
mulher, a empregada, os vizinhos. Até os entregadores de gás
tiveram que ser diferentes. Com os entregadores de gás, transpôs
o muro de sua casa. Enfim, a rua. Ordenava as pessoas que
trocassem a roupa, pintassem o cabelo em outro tom, andassem em
uma cadência diferente. Com o tempo mudou o som das vogais e
consoantes, a cor do céu, a consistência do vento e a densidade
da água.
Em seu sublime labor em refazer o mundo igual a si mesmo,
Tarcísio cansou-se de tal maneira que seus olhos tornaram-se
gravetos trepidando em secura. Adormeceu, embora não quisesse.
Quando acordou, todas as coisas lhe pareceram iguais. Ah, se ao
menos o espelho pudesse mostrar o rosto real que tinha e não sua
idéia de rosto! Quem, senão ele, poderia resgatar do espelho
aquilo que não mais havia? Atirou-se, então, à tarefa de
reconduzir as coisas à primitiva essência. Porém, como saberia
se o espelho estaria bom o suficiente para mostrar seu rosto
autêntico, se ninguém autêntico havia para atestar-lhe
fidelidade?
Moldava, moldava... Nisso investiu boa parte dos anos. Não, não.
Não era assim. Os olhos não tinham esta opacidade. O sorriso não
tinha ar de pedra. Nada conseguia recordar-lhe os traços de
outros tempos. E não havia ninguém que pudesse confirmar se a
cicatriz de criança era à esquerda ou à direita da pinta.
Embora seu rosto não tivesse forma, se alguém pudesse vê-lo
naquele instante, saberia que todo o sangue fora arrebanhado
entre os olhos. Prendendo seu crânio entre mãos, com ele golpeou
o espelho violentamente até transformar tudo em um ínfimo pó de
reflexos. Depois, tomando um pedaço de vidro ainda resistente e
de tudo alheio, talhou o pescoço num único golpe. Viram-no assim
pela última vez os iguais e os diferentes.
PABLO MORENNO nasceu em 21.05.1969, em
Belmonte, SC, e mora em Passo Fundo, RS. É licenciado em
Filosofia e atualmente cursa Direito na Universidade de Passo
Fundo. Também é professor de Espanhol em cursinhos
pré-vestibular, músico e servidor público federal do Tribunal
Regional do Trabalho/4ª Região. Escreve uma coluna semanal de
crônicas no jornal O Nacional, de Passo Fundo RS, e colabora com
os jornais Zero Hora, Direito e Avesso, Nossa Vida, Revista do
TRT e em páginas da internet. Tem vários prêmios literários e
publicações em antologias.
Livros publicados: POR QUE OS HOMENS NÃO VOAM? Crônicas, WS
Editor e MENINO ESQUISITO, Poesia Infantil, WS Editor.
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